Foi no dia 10 de Outubro que Rodrigo Amarante regressou a Portugal, depois de dois concertos (esgotados) na ZdB e da participação no Primavera, no Porto, em Junho passado. Podia ser só mais um concerto, mas não deixou de esgotar. Ao contrário da anterior passagem, o concerto iria assumir moldes diferentes, sendo apenas Rodrigo e o seu violão, em formato totalmente acústico. Quem lá não esteve não sabe o que perdeu.
O concerto estava inserido na comemoração dos 20 anos dessa verdadeira instituição que é a Galeria Zé dos Bois. Não se realizou, contudo no Aquário (como é tratada a sala de concertos da ZdB - os que já lá estiveram entendem o porquê da alcunha), mas teve por palco o pátio do Palácio Sinel de Cordes, junto ao Panteão. E não haveria melhor sitio para escutar novamente as belíssimas canções de Rodrigo Amarante, com especial destaque para o seu primeiro e muito elogiado álbum,
Cavalo. A noite estava fresca (ainda assim amena para Outubro), a iluminação estava no ponto (o que significa a média luz), palco humilde, sem floreados, e o público sentado na calçada, à espera das 22h, hora marcada para o início.
Tal como canta numa das suas músicas, Rodrigo "tardou" ligeiramente a aparecer, pois o concerto começou com um atraso de 20 minutos. Quando entra em palco, com jeito de menino reguila, todos o aplaudem e retribuem as boas noites de Rodrigo. Começa então a cerca de hora e 10 de concerto, com
Nada em Vão, canção que também abre o álbum. E não há que temer: o som está bom, não há telemóveis a bloquear e a distrair a visão, e o silêncio é digno de uma biblioteca. Rodrigo embala-nos com a sua voz ligeiramente embriagada. Segue-se
Mon Nom, cantada em francês, e eis a primeira pausa. Agradece a todos, explica que quando toca em Portugal tem um significado especial, pois aqui as pessoas entendem-no, chegando ao ponto de dizer que até ele presta atenção às canções, recordando o porquê de ter escrito aquilo. Confessa-nos que esta é a sua primeira tour em acústico, que só o tinha feito duas vezes, uma em Paris e outra no Porto, e que no Porto tinha sido muito melhor que em Paris. Atira-se a
Irene, talvez uma das mais bonitas canções cantadas em português das últimas décadas. Não é de estranhar os muitos aplausos que recebe. Diz que vai tocar algumas coisas novas e outras menos novas, mas pouco tocadas. E então puxa do seu legado dos Los Hermanos e toca
Um Milhão, que é para mim a canção da noite. Segundo ele, apenas a tinha tocado três ou quatro vezes (Rodrigo, se puderes, toca-a só quando cá vieres, para não te cansares de a tocar tão bem). Passa ainda por
O Cometa (outra linda canção), dedicada ao poeta Ericson Pires, falecido em 2012, aos 40 anos. Fala do seu amigo André Tentugal (dos We Trust), dos amigos que tem feito por cá, e agradece à ZdB por tudo o que tem feito por ele. O seu contributo para a Orquestra Imperial não é esquecido, tocando uma das músicas que fez para o colectivo (confesso que conheço pouco).
É feita nova pausa para explicar que esta digressão surgiu de um convite de Angel Olsen (e tu, quando é que cá vens?) para tocar na sua banda. Ele aceitou e fazia ao mesmo tempo as primeiras partes. Faz uma versão das suas músicas (
unfucktheworld) e caminhamos para o final do concerto. Toca
Tardei (uma das minhas preferidas),
Hourglass e
The Ribbon, e seria o fim. Agradece sentidamente a todos e tenta sair de palco. Mas rapidamente regressa. Acede ao meu pedido de tocar
Maná (toda a gente ginga, e ele afirma que é por isso que toca) e termina com
Evaporar, dos também seus
Little Joy. Nova ovação, provando a grande relação que Portugal e Rodrigo Amarante têm.
Rodrigo Amarante tornou-se um dos meus cantores preferidos, e acho que não falho nada se o apelidar de génio. Poligota (cantou em português, inglês, francês e espanhol), conversador, brincalhão, verdadeiro, sabe jogar com as suas múltiplas facetas e os seus diversos projectos. Tornou o que seria apenas um regresso num dos melhores concertos do ano, memorável pela envolvente e pelos pequenos pormenores. Só faltou, para mim, o
Não-pedido de Casamento. Mas o que é que isso importa se nos deu tudo aquilo? Não demores muito a voltar, está bem? Saravá!
Nota apenas para o excelente comportamento do público. Penso que apenas no concerto do Sufjan Stevens tinha tido um público tão atento e percebedor do que se ia ali fazer. Sério, que fosse sempre assim! De agradecer ainda à ZdB. Eles é que estão de parabéns e nós é que recebemos as prendas. Por favor continuem a fazer o que fazem tão bem.