sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sem título

"Ouvia dizer que era frequente as mulheres gostarem de homens feios e simples, mas não acreditava nisso porque julgava por si, visto que apenas podia amar mulheres bonitas, misteriosas e especiais"
p. 33

"-- Vês tu, - disse Stepan Arkáditch -- és um homem muito íntegro. Essa é a tua qualidade e o teu defeito. Tens um carácter íntegro e queres que a vida seja composta por fenómenos íntegros, mas isso não acontece. Desprezas a actividade do serviço público, porque querias que os actos correspondessem sempre aos objectivos, e isso não acontece. Também querias que a actividade de um homem tivesse sempre um objectivo, que o amor e a vida familiar fossem a mesma coisa. E isso não acontece. Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida se compõe de luz e de sombra.
Lévin suspirou e nada respondeu."
p. 51
in Anna Karénina
Lev Tolstoi

domingo, 19 de outubro de 2014

Revolta

"A revolta não é, de forma alguma, uma reacção automática, face à miséria e ao sofrimento enquanto tais; nenhuma pessoa se revolta face a uma doença incurável ou um terramoto ou face a condições sociais que lhe parecem impossíveis de modificar. É somente quanto temos boas razões para crer que essas condições podem ser modificadas e não o são que a revolta é assumida. Não manifestamos uma reacção de revolta senão quando o nosso sentimento de injustiça é escarnecido (...)."
Hannah Arendt

"A vitória pertencerá aos que provocarem a desordem sem a amar."
Guy Debord

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Burning



Wide awake
I rearrange the way I listen in the dark
Dreaming of starting up again
(...)
I'm just a burning man trying to keep the ship
From turning over again
Cross the rich derivate in your heart
Wide awake
To redefine the way you listen in the dark
Dreaming, starting
Like a stranded kid in a doorway
Just BURNING
in Burning
The War on Drugs

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Um Milhão

Peço desculpa se, depois de estar algum tempo sem dizer nada, coloco três posts (olha para mim, sou mesmo blogger) a falar de uma mesma pessoa. Mas é que este senhor, ou melhor, a sua música, não me sai da cabeça. E desde 6ª feira que esta, versão feita no Palácio Sinel de Cordes, me persegue. Se vos interessar, é dar uma escutadela e espreitar a letra, e depois fechar os olhos e ir por aí a fora, onde ela vos levar.

Para cada um, com um milhão,
Um milhão, sem um sequer.
in Um Milhão
Rodrigo Amarante e Los Hermanos

domingo, 12 de outubro de 2014

Palácio

Foi no dia 10 de Outubro que Rodrigo Amarante regressou a Portugal, depois de dois concertos (esgotados) na ZdB e da participação no Primavera, no Porto, em Junho passado. Podia ser só mais um concerto, mas não deixou de esgotar. Ao contrário da anterior passagem, o concerto iria assumir moldes diferentes, sendo apenas Rodrigo e o seu violão, em formato totalmente acústico. Quem lá não esteve não sabe o que perdeu.


O concerto estava inserido na comemoração dos 20 anos dessa verdadeira instituição que é a Galeria Zé dos Bois. Não se realizou, contudo no Aquário (como é tratada a sala de concertos da ZdB - os que já lá estiveram entendem o porquê da alcunha), mas teve por palco o pátio do Palácio Sinel de Cordes, junto ao Panteão. E não haveria melhor sitio para escutar novamente as belíssimas canções de Rodrigo Amarante, com especial destaque para o seu primeiro e muito elogiado álbum, Cavalo. A noite estava fresca (ainda assim amena para Outubro), a iluminação estava no ponto (o que significa a média luz), palco humilde, sem floreados, e o público sentado na calçada, à espera das 22h, hora marcada para o início.

Tal como canta numa das suas músicas, Rodrigo "tardou" ligeiramente a aparecer, pois o concerto começou com um atraso de 20 minutos. Quando entra em palco, com jeito de menino reguila, todos o aplaudem e retribuem as boas noites de Rodrigo. Começa então a cerca de hora e 10 de concerto, com Nada em Vão, canção que também abre o álbum. E não há que temer: o som está bom, não há telemóveis a bloquear e a distrair a visão, e o silêncio é digno de uma biblioteca. Rodrigo embala-nos com a sua voz ligeiramente embriagada. Segue-se Mon Nom, cantada em francês, e eis a primeira pausa. Agradece a todos, explica que quando toca em Portugal tem um significado especial, pois aqui as pessoas entendem-no, chegando ao ponto de dizer que até ele presta atenção às canções, recordando o porquê de ter escrito aquilo. Confessa-nos que esta é a sua primeira tour em acústico, que só o tinha feito duas vezes, uma em Paris e outra no Porto, e que no Porto tinha sido muito melhor que em Paris. Atira-se a Irene, talvez uma das mais bonitas canções cantadas em português das últimas décadas. Não é de estranhar os muitos aplausos que recebe. Diz que vai tocar algumas coisas novas e outras menos novas, mas pouco tocadas. E então puxa do seu legado dos Los Hermanos e toca Um Milhão, que é para mim a canção da noite. Segundo ele, apenas a tinha tocado três ou quatro vezes (Rodrigo, se puderes, toca-a só quando cá vieres, para não te cansares de a tocar tão bem). Passa ainda por O Cometa (outra linda canção), dedicada ao poeta Ericson Pires, falecido em 2012, aos 40 anos. Fala do seu amigo André Tentugal (dos We Trust), dos amigos que tem feito por cá, e agradece à ZdB por tudo o que tem feito por ele. O seu contributo para a Orquestra Imperial não é esquecido, tocando uma das músicas que fez para o colectivo (confesso que conheço pouco).

É feita nova pausa para explicar que esta digressão surgiu de um convite de Angel Olsen (e tu, quando é que cá vens?) para tocar na sua banda. Ele aceitou e fazia ao mesmo tempo as primeiras partes. Faz uma versão das suas músicas (unfucktheworld) e caminhamos para o final do concerto. Toca Tardei (uma das minhas preferidas), Hourglass e The Ribbon, e seria o fim. Agradece sentidamente a todos e tenta sair de palco. Mas rapidamente regressa. Acede ao meu pedido de tocar Maná (toda a gente ginga, e ele afirma que é por isso que toca) e termina com Evaporar, dos também seus Little Joy. Nova ovação, provando a grande relação que Portugal e Rodrigo Amarante têm.

Rodrigo Amarante tornou-se um dos meus cantores preferidos, e acho que não falho nada se o apelidar de génio. Poligota (cantou em português, inglês, francês e espanhol), conversador, brincalhão, verdadeiro, sabe jogar com as suas múltiplas facetas e os seus diversos projectos. Tornou o que seria apenas um regresso num dos melhores concertos do ano, memorável pela envolvente e pelos pequenos pormenores. Só faltou, para mim, o Não-pedido de Casamento. Mas o que é que isso importa se nos deu tudo aquilo? Não demores muito a voltar, está bem? Saravá!

Nota apenas para o excelente comportamento do público. Penso que apenas no concerto do Sufjan Stevens tinha tido um público tão atento e percebedor do que se ia ali fazer. Sério, que fosse sempre assim! De agradecer ainda à ZdB. Eles é que estão de parabéns e nós é que recebemos as prendas. Por favor continuem a fazer o que fazem tão bem.






sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Pontualidade no Palácio

O Rodrigo Amarante toca hoje no Palácio Sinel de Cordes. Vai-se falar de pontualidade. De certeza.