sexta-feira, 24 de julho de 2015

Medusa



Por cada vítima acusada
E transformada em monstro
Em cada casa, cada caso,
cada cara e cada corpo
em mais um dedo apontado ao outro,
Cresce a ira da Medusa que me vês no rosto

in Medusa
Capicua  feat. Valete

A violência doméstica exposta sem eufemismos. Em bom português.

domingo, 19 de julho de 2015

A Sagração do Primavera - Dia 3

No terceiro e derradeiro dia do Primavera Sound 2015, versão Porto, voltei a não chegar muito cedo ao recinto. O almoço junto à Ribeira prolongou-se, o passeio pelo Porto também (voltei a entrar na Livraria Lello, e é sempre como se fosse a primeira vez que lá entro, a Rua das Flores está cada vez mais bonita...), e consequentemente, já não deu para ver Manel Cruz, nem o início do concerto de Thurston Moore Band, no palco ATP. Mas foi por ali que fiquei, e se é verdade que era um concerto da Thurston Moore Band, soou a Sonic Youth. O Steve Shelley também lá estava (depois de na véspera ter tocado com Sun Kill Moon), pelo que eram logo dois (ex?) Sonic Youth em palco, a Debbie Googe (dos My Bloody Valentine) também marcou presença, o que torna a "Band" numa superbanda. Apesar de curto, foi um óptimo concerto. Thurston mostrou porque é considerado um dos melhores guitarristas de todos os tempos. Deu para fritar um bocadinho os ouvidos, com muita distorção, muitos riffs, bom baixo, boa bateria. Foi uma excelente forma de eu estrear o ATP nesta edição, dado que ainda não tinha assistido a nenhum concerto ali este ano.

Não são, nem de perto nem de longe, algo que aprecie por aí além, mas a fama de darem excelentes concertos e de esta ser, supostamente, a farewell tour (eles que não existem assim há tanto tempo), fez com que seguisse para o palco Super Bock para ver os Foxygen. E, se não dou como perdido o tempo que ali estive, a verdade é que ainda hoje estou para compreender o que ali se passou. Show de variedades? Companhia circense? Peça de teatro? Simplesmente muita droga e álcool? Penso que de concerto teve muito pouco. Teve mais das outras coisas que referi. O vocalista canta e mexe-se (vive?) no fio da navalha, como se não houvesse parte da tarde, quanto mais amanhã. Ainda assim, não sei se é realmente um novo Iggy Pop meets David Bowie, se apenas um embuste. Não sei mesmo. Vira uma garrafa de whisky de uma vez, atira-se para o chão, entrega-se às primeiras filas, tudo isto enquanto três belas raparigas, saídas de uma qualquer claque de cheerladers dançam e fazem os coros. Lá pelo meio, um dos guitarristas e o baixista começam a jogar às cartas, enquanto depois o baterista e outro dos guitarristas resolvem uma discussão num duelo de espadachins. Depois saem todos de palco, enquanto é tocada a sua mais conhecida canção nas colunas do palco. Quem esperava ouvi-la tocada pela banda, apanhou um grande barrete, pois foi a única forma de a ouvir durante o concerto. Regressam passado pouco tempo, com novas roupas, sendo que o vocalista diz que vão tocar a última música, que mais não é que uma curta versão, completamente avacalhada de "Let it Be" dos Beatles. Depois as cheerleaders cansam-se, e dizem que estão fartas, e que têm o seu próprio show, e que o vão tocar. E depois sou eu que me canso, e que me vou embora. Vou comer qualquer coisa, que depois posso não ter tempo.

Nunca pensei que ele desse um concerto tão bom num contexto daqueles. Completamente sozinho em palco, munido apenas da sua guitarra e de uns quantos pedais, Damien Rice provou que não é simplesmente aquele da "Blowers Daughter" (apesar de muito boa gente apenas tenha ficado a saber que era ele que estava em palco quando a tocou), e que em palco, é muito mais pesado do que os seus discos aparentam. Num palco sem artifícios, vestido de maneira simples e ar de desleixado, lá entra com a sua guitarra, para deixar excelentes recordações aos que assistiram ao seu concerto, enquanto o sol se punha finalmente. Logo à segunda música atira-nos "9 Crimes", e que boa ela é escutada ao vivo. Recorrendo a loops da sua própria voz, prescinde da voz de Lisa Hannigan (que vira aqui à uns anos a abrir o palco secundário do Alive) e também do piano, e a canção não perde nem um dedo de toda a sua força. Antes pelo contrário, ganha toda uma nova vida. Fica muito mais rockeira, poderosa. Se não tocasse mais nada, teria sido um concerto enorme na mesma. Outra prova desta veia de distorção, de sons etéreos, é "I Remember", que mais uma vez eriça os pêlos do braço. Não se esqueceu de "Elephant" nem de "Cannonball", muito menos de "Blower's Daughter", e que apesar de radiofónica, nunca cansa. Antes pelo contrário, é fantástica. A terminar haveria ainda mais uma, "It Takes a Lot to Know a Man", mais uma como quem diz, pois ela é bastante comprida. E não é uma canção para agradar a quem gosta apenas da "Blower's Daughter". É sofrida, cheia de cicatrizes, cantada com garganta arranhada, guitarrada. Apenas a ouvi ao longe pois, depois de "Blower's Daughter", era altura de ganhar lugar na frente para ver, finalmente (episódio da minha vida já relatado neste blog), a estreia dos Death Cab for Cutie em Portugal.

O concerto nunca seria muito longo (uma hora sensivelmente), pelo que temia que preferissem mostrar o último álbum (que apesar de não ser mau, não é o seu melhor), em detrimento de antigas glórias. Mas os meus receios não se concretizariam. Só posso dizer, objectivamente, que para um concerto curto, foi sem dúvida perfeito. Foi memorável, e só me deixa triste, por saber que novas passagens por cá não serão fáceis. Começou com a fantástica linha de baixo de "I Will Possess Your Heart", e para mim, e pelo menos para toda a frente de palco, o concerto estava ganho. Posso não ver as coisas objectivamente, mas para mim, a banda entregava-se ao concerto, logo à partida, não como apenas mais um, mas como uma banda que toca sempre para sair vencedora. Ben Gibbard canta, toca, mexe-se como alguém que retira muito proveito por fazer música e tocá-la ao vivo, ao contrário de muitos outros (não os estou a criticar). Posso ser exagerado, mas representou para muito bom deslocado, como este escriba que vos fala, um modelo na sua juventude. As suas letras exprimiam as tristezas, desgostos, sonhos, de muito adolescente/pré-adulto. E depois muitos ciúmes, quando casou com a Zooey. Mas já está tudo bem, já estão divorciados. Obviamente que ficou muito por tocar (quem tem um álbum perfeito como Transatlanticism arrisca-se a isso), mas como posso ficar insatisfeito se houve "Grapefine Fires" (uma das melhores de Narrow Stairs), "Black Sun" (talvez a melhor do novo Kintsugi), "You're a Tourist" (talvez a melhor desse não-grande-coisa Codes&Keys)? Já para não falar da minha histeria ao ouvir "The New Year", cantada a plenos pulmões, como se fosse 2003, ano da graça de Transatlanticism? Nova viagem a Narrow Stairs para resgatar "Cath", e depois, para cumprir com alguns dos meus sonhos molhados, algo que nunca pensei ouvir. Essa mesmo, essa que dá nome a um dos meus álbuns favoritos de sempre - Transatlanticism. Simplesmente não tenho grandes palavras para descrever aquele belo momento, por isso recorro a uma que é muito utilizada: épica. Um dos concertos do festival, desta e de todas as edições.

Esta sequência infernal não tinha ainda terminado. Depois de Damien Rice e dos DCFC, havia ainda mais um sonho molhado - o regresso, 20 anos depois, dos Ride. Uma das bandeiras do shoegaze e da dream pop, talvez dos primeiros originadores da britpop (mas da boa, está bem?), estavam ali, sim, ali na minha frente (e não entendo porque havia tantas clareiras na colina...se calhar o público não sabia que tocavam ali), para me fritarem um bocadinho os ouvidos. Foi um concerto em formato best of, até porque não há coisas novas para tocar, mas houve muito Nowhere e Going Blank Again, os dois primeiros quase perfeitos álbuns duma carreira de quatro. Foi com "Leave Them All Behind" que começaram, com o som no ponto, um concerto celebratório, de sorriso na cara (a minha). Nem a minha "Polar Bear" se esqueceram de tocar. Houve "Dreams Burn Down", "Seagull", "Taste", entre muitas outras. E como é que alguém não consegue gostar dos Ride, depois de ouvir "Vapour Trail" ao vivo? Há regressos e regressos. Não sei se este é para durar, mas foi um regresso dos bons!

Dan Deacon até tomou o pequeno-almoço comigo no hotel onde fiquei, pelo que me senti na obrigação de ver o seu concerto. É um mestre de cerimónias atípico, bem cheiinho, vestido de calções e suspensórios, como se fosse uma criança pequena, e gosta de brincar com electrónicas. Infelizmente não conheço muita da sua obra, e na verdade o concerto também não me motivou a querer conhecer mais. É engraçado, para saltar e celebrar, mas não me marcou por aí além. Assumo que a culpa fosse minha, mas as pernas já acusavam algum cansaço, e ainda havia Ought às 02h00.

Estes, pelo contrário, foram tudo aquilo que esperava deles. Num ATP não muito composto (talvez pela hora avançada, mas também porque havia Underworld lá em baixo com uma proposta muito mais dançante), começaram o concerto logo a abrir, com "A Pleasant Heart", uma das minhas favoritas, canção urgente, de revolta, punk. A sequência foi perfeita, com "The Weather Song" ("tell me what the weather's like so I don't have to go outside") e "Today, More Than Any Other Way". Houve ainda tempo para mostrarem algumas canções que farão parte do novo álbum (previsto ainda para este ano), mas também para "Clarity!" e "Habit". A fechar o belo concerto de uma hora, "Gemini". Espero que possam voltar em breve, desta vez numa sala fechada, pequenina, como estas bandas merecem. Uma garagem seria perfeito.

Os Underworld ainda tocavam, Health haviam começado à pouco e Roman Flugel era só às 04h00. Nenhum me apelava ao coração, pelo que terminava assim em beleza mais uma edição do Primavera Sound. Três dias apenas que representam 365 de sorriso na cara (pelo menos sempre que falo dele). Obrigado, Primavera, por me fazeres feliz. Vemo-nos para o ano, se Deus quiser. Que o Inverno passe rápido.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Cigarettes&Loneliness à beira mar

Se vale a pena ir ao Alive? Acho que sim, quanto mais não seja para ouvir isto.



PS: mesmo sendo o cartaz mais desinteressante desde que o Alive é Alive.
PS2: mas que música do caraças!