quarta-feira, 3 de abril de 2019

A minha mulher


"A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela"


in O Navio Dela
de Manel Cruz

domingo, 24 de janeiro de 2016

Canção de embalar

No dia 31 de Outubro de 2015 era para ter publicado aqui uma música. Não foi dia 30 de Outubro (data correcta), porque apenas fiquei a saber no dia seguinte. Na altura, não sabia bem o que escolher, mas dei agora com o rascunho desta mensagem e decidi recuperá-la.

Pode não ser bem o que as mães hoje cantam aos seus meninos, mas acho que mal não faz. Mais bonito que isto não é fácil de encontrar. Esta é para ti e para o teu menino.


2015

Sim, já passou quase um mês de 2016, sim, estes balanços fazem-se normalmente no final do ano em questão, mas olha, apesar de ter essa intenção, apenas agora se proporcionou. Como as listas já saíram todas, e eu não ouvi assim tantos álbuns novos em 2015, decidi fazer apenas um pequeno resumo do meu ano musical. Os meus destaques vão para:

- o regresso do Senhor Sufjan Stevens, 5 aninhos depois da sua última obra-prima "The Age of Adz" (que por sua vez também tinha saído 5 anos após a obra-prima "Come on Feel the Illinoise"), com um dos álbuns mais honestos que os meus ouvidos puderam escutar - "Carrie & Lowell". Álbum biográfico, analisando a relação conturbada com a sua mãe (que pelo relato não foi grande mãe), afecta-nos como um verdadeiro murro no estômago. Canções fabulosas como Should Have Know Better (e quem pode ficar indiferente a uma frase como "when I was three, three maybe four, she left us at the video store...", ver o resto da música para entenderem a criatura espantosa que deve ser este senhor), a magistral The Only Thing (sim, todos vocês sabem como facilmente atribuo o título de melhor de sempre a uma canção, e apesar de o achar sempre, considero facilmente esta canção mesmo uma das mais belas canções compostas na história humana - já aqui escrevi sobre isto), onde desde a letra ("Do I care if I survive this? Bury the dead where they're found. In a veil of great surprises: I wonder did you love me at all?")  aos arranjos, tudo se conjuga para a tornar inesquecível, No Shade in the Shadow of the Cross, Fourth of July, Blue Bucket of Gold...enfim, o álbum é fantástico. Quem ainda não o ouviu, façam-me esse favor. Depois não precisam de agradecer.

- Currents, o terceiro álbum dos Tame Impala. Os Tame Impala não são apenas compostos pelo Kevin Parker, mas todos sabemos que ele é o motor daquilo. E ao terceiro álbum, e se embora a forma de compor se mantém lá toda, assim como o psicadelismo, a sonoridade tornou-se diferente. Alguns acharam de mau gosto, que se tornou azeiteiro, que se vendeu. Eu gostei. A música ficou mais dançável, mais suave, mais melosa também. Mas a identidade, a essência mantém-se intacta. E continua a ter apontamentos de génio. Ouça-se The Less I Know the Better, Let It Happen, Yes I'm Changing ou New Person/Same Old Mistakes (diálogo fenomenal sobre as vicissitudes de estar apaixonado de novo, após uma verdadeira desilusão amorosa). Não é um álbum imediato, mas depois de se estranhar, entranha-se. Vemo-nos dia 8 de Julho no Alive.

- A minha Courtney Barnett. Sometimes I Sit and I Think, Sometimes I Just Sit. Não o fazemos todos? Possuidora da minha idade (mais coisa menos coisa), já no EP ela parecia entender-me. Continua a entender-me. E confirmou a grande escritora de canções que é. Depreston é uma canção honesta, sobre as dificuldades actuais da juventude. Pedestrian at Best é rock do bom ("put me on a pedestal and I''ll only disappoint you, Tell me I'm exceptional, I promise to exploit you"), Boxing Day Blues, Nobody Really Cares if I Don't Go to the Party, An Illustration of Loneliness...Estreia em álbum mais que superada. Também nos vemos dia 8 de Julho.

Mais coisas havia a referir (Hop Along, Kurt Vile, Waxahatchee, Father John Misty, Tobias Jesso Jr.) mas não vos quero maçar muito.

Em termos de música ao vivo:

- Presenciar a festa irrepetivel que Konono n.º 1 e Batida montaram no Lux. Quase que me sentia em Kinshasa sem fazer ideia do que Kinshasa seja - ainda tenho a electricidade toda no corpo e a minha anca não para de se mexer;
- A peregrinação anual ao Parque da Cidade para a celebração do Primavera Sound e tudo o que de lá trago todos os anos. As saudades começam na viagem para o Porto. Ouvir a Senhora Patti Smith a discursar como se estivéssemos no CBGB, sentir-me parte de qualquer coisa que não sei explicar. Estou a escrever e arrepio-me todo do que vivi nessa tarde. Ver tocado o Horses na íntegra, sem parecer datado, é algo para contar aos netos (se os chegar a ter). Nunca pensar conseguir ver os RIDE ao vivo. Foi como se nunca tivessem parado. Vapour Trail, Polar Bear, Leave Them All Behind, Dreams Burn Down...ai que distorção tão boa. O festão que os JUNGLE montaram a fechar a 2ª noite. Cada vez que penso, dou por mim de braços no ar, a dançar que nem um maluco. Memorável. Finalmente ver os Death Cab for Cutie. E recear que já viessem fora de prazo, mas a provarem precisamente o contrário. E fecharem o concerto com a Transatlanticism (suspirei agora). Belle and Sebastian. E tanta outras coisas. Sun Kill Moon (weird mas bom), Ought (e imaginar o outro cromo a querer fazer crowd surf e a vazar uma vista ao outro, e este a ficar cheio de sangue e os amigos a cagarem para ele e a continuarem a curtir o som), Antony & The Johnsons, FKA Twigs, Twerps, Damien Rice, Thurston Moore...Já não falta tudo;
- O sentir que o Alive (parece que mudou um pouco de direcção para 2016) está demasiado grande para mim, que o seu palco principal tem dado cabo do que podiam ser momentos únicos, mas que continua a ter sempre uma mão cheia de boas propostas. Mumford&Sons provaram-me que se tornaram maiores do que realmente são (mas o primeiro álbum ainda deixa uma saudade). James Blake já merecia uma vinda em nome próprio a Portugal (consegue transformar electrónica cerebral em electrónica dançável de qualidade) após mais um grande concerto. Future Islands e as suas Spirit e Vireo's Eye (ainda melhor do que em álbum) a fecharem o concerto. Capicua e Batida a mostrarem como são mesmo bons. Mogwai a fritarem-me os ouvidos todos (tão bom!), sem descanso algum para se deliciarem com Just Like Honey dos Jesus & Mary Chain. A tristeza por Chet Faker não ter sido tão bom quanto queria, não por sua culpa, mas por ali não ser o sítio certo. Mas Disclosure a compensarem, transformando o recinto numa discoteca com bola de espelhos imaginária. Não foi um Alive mau de todo;
- Ter visto as minhas Angel Olsen e Cat Power pela primeira vez ao vivo;
- O portento que foi a estreia de Iron&Wine. Memorável por tudo: a sessão de discos pedidos (não é que lhe pedi três e ele as tocou?), começar com a Upward Over the Mountain, entoar a Trapeze Singer daquela maneira, praticamente à capela (eu queria que lá tivessem estado para perceberem o quão especial foi), a sua simpatia, e tudo o resto que se seguiu depois;
- Os Beach House, não muitos dias depois do que aconteceu em Paris.

Certamente que me estou a esquecer de muita coisa, e a não conseguir expressar da melhor maneira o que vivi, ou porque foi ou não especial para mim. São apenas algumas das memórias que guardarei de 2015. No fundo, a vida não é isso, memórias?

2016 já está em velocidade de cruzeiro. Acompanhem-no. Promete ter muita e boa música.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Meia-noite em Paris

Não costumo me deixar amedrontar por notícias de atentados, ameaças, sequestros, etc. No fundo, acho que por nunca me ter tocado pessoalmente, nunca ter sofrido na pele. Claro que fico horrorizado por tais barbáries, chocado por alguém ter o sangue frio para tais actos, na maior parte dos casos, contra inocentes. Mas, e talvez esteja a ser demasiado frio, até insensível, nunca me tinha tirado o sono. Incomodava-me, mas deixava-me dormir.

O atentado da passagem sexta-feira veio alterar isso. Confesso que este foi talvez, até hoje, o atentado que mais me marcou. Não me sai da cabeça. Porquê? Apesar de ainda não se saber muito bem o porquê de terem sido escolhidos aqueles locais, como o Bataclan, e não um qualquer outro espaço, se foi facto aleatório, se não, não consigo deixar de pensar que uma carnificina foi levada a cabo numa sala de espectáculos, num concerto. Não consigo deixar de me identificar com eles. Também eu frequento muitos concertos, festivais, eventos relacionados com música. Até tenho este meu pseudo-blog que vive muito à base da minha paixão pela música. No fundo, a música, os concertos, são aquilo que me deixa de sorriso de orelha a orelha, ouvir aquela música, aquela banda, aquele acorde, aquele sussurro, o carácter efémero, e por isso irrepetivel que cada concerto tem. 

Na sexta-feira quiseram por isso em causa. Foi em Paris, é certo, mas podia ter sido noutro lado qualquer, num qualquer concerto onde eu estivesse presente (nem sequer conta para o caso, mas já estive à porta do Bataclan, e até já vi os Eagles of Death Metal, que de metal nada têm). Foi mais do que um atentado contra a França, ou mesmo contra o Ocidente. Não foi certamente apenas a procura de locais ao acaso, onde houvesse gente para matar. Foi contra o seu modo de vida (que não é perfeito), a sua juventude, a sua "normalidade". Quis passar-se uma mensagem. E, consequentemente, também se atacou a música. E eu não consigo deixar de pensar nisso.

No sábado, por coincidência, passou no Lisbon&Estoril Film Festival o Meia-noite em Paris. Já tinha a intenção de o ir ver (pode não ser o melhor filme de sempre, mas é um dos meus preferidos, e não me canso de o ver). Foi, de certa forma, uma maneira de homenagear Paris e as suas vítimas, que, no fundo, somos todos nós. E não deixava de sorrir ao ver o quão bela é aquela cidade.

Tal como no Casablanca, também eu não quero deixar de dizer "We will always have Paris". E digo-o de forma saudosa.

PS: vale a pena ler a crônica da Lia Pereira no site da Blitz. Motivou-me a escrever este post.

sábado, 31 de outubro de 2015

Coração de Metal

Ainda não tinha dito nada, mas também não valia grande pena porque os bilhetes já estão esgotados, e quem não comprou, também dificilmente os conseguirá comprar. A senhora Chan Marshall, que actua sob o nome de Cat Power, essa senhora que tem tanto de angelical como de problemática, toca hoje no CCB, em Lisboa. É a primeira vez que a vou ver. E estou entusiasmado. Não que espere o melhor concerto de sempre (ela durante muito tempo só tinha concertos desastrosos - efeitos do álcool, drogas e demais problemas da sua vida), mas ela anda de melhor com a vida. Ainda assim, espero que se lembre do seu passado. Como desta, por exemplo:

PS: Não a vou pedir em casamento. Ela anda farta de ser enganada pelos homens. Não que eu te fosse enganar, mas...

O Sequeira no lugar certo

É mais ou menos este o nome da campanha levada a cabo pelo Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em parceria com outras instituições, como o jornal Público, por exemplo. Visa reunir 600 000 euros para adquirir uma obra-prima do pintor Domingos Sequeira. E eu acho-a uma campanha fantástica. Porquê? Porque acho que uma campanha pública de angariação de fundos com vista à aquisição de uma obra de arte para um museu público (que se pretende que seja de todos) é de louvar. Faz-nos sentir parte de um mesmo objectivo, sem ser egoísta: estamos a contribuir (cada um com aquilo que pode e acha que deve dar) todos para o mesmo. E, quando atingido o objectivo, vai fazer com que cada um, ao passar por aquela obra, diga: ajudei a comprar este quadro!


Podem fazê-lo de várias maneiras, mas está tudo explicadinho no site: sequeira.publico.pt. É dar uma vista de olhos, para ficarem a saber mais.

Haverá sempre aqueles que dirão: tanta gente a passar fome, cm necessidade, refugiados, etc. (este etc. não pretende diminuir a dimensão destes problemas), e estão é preocupados em comprar um quadro. Não deixa de ter a sua razão. Mas será que ajudam activamente pessoas nessas condições? E depois, se cada um dos cidadãos nacionais contribuísse, daria um encargo de 6 (seis) cêntimos a cada um. Penso que não fariam falta a ninguém.

Eu já contribui, e senti-me contente por o fazer. Do que estão à espera?

segunda-feira, 5 de outubro de 2015