Sim, já passou quase um mês de 2016, sim, estes balanços fazem-se normalmente no final do ano em questão, mas olha, apesar de ter essa intenção, apenas agora se proporcionou. Como as listas já saíram todas, e eu não ouvi assim tantos álbuns novos em 2015, decidi fazer apenas um pequeno resumo do meu ano musical. Os meus destaques vão para:
- o regresso do Senhor
Sufjan Stevens, 5 aninhos depois da sua última obra-prima "The Age of Adz" (que por sua vez também tinha saído 5 anos após a obra-prima "Come on Feel the Illinoise"), com um dos álbuns mais honestos que os meus ouvidos puderam escutar -
"Carrie & Lowell". Álbum biográfico, analisando a relação conturbada com a sua mãe (que pelo relato não foi grande mãe), afecta-nos como um verdadeiro murro no estômago. Canções fabulosas como
Should Have Know Better (e quem pode ficar indiferente a uma frase como "
when I was three, three maybe four, she left us at the video store...", ver o resto da música para entenderem a criatura espantosa que deve ser este senhor), a magistral
The Only Thing (sim, todos vocês sabem como facilmente atribuo o título de melhor de sempre a uma canção, e apesar de o achar sempre, considero facilmente esta canção mesmo uma das mais belas canções compostas na história humana - já aqui escrevi sobre isto), onde desde a letra ("
Do I care if I survive this? Bury the dead where they're found. In a veil of great surprises: I wonder did you love me at all?") aos arranjos, tudo se conjuga para a tornar inesquecível,
No Shade in the Shadow of the Cross,
Fourth of July,
Blue Bucket of Gold...enfim, o álbum é fantástico. Quem ainda não o ouviu, façam-me esse favor. Depois não precisam de agradecer.
-
Currents, o terceiro álbum dos
Tame Impala. Os Tame Impala não são apenas compostos pelo Kevin Parker, mas todos sabemos que ele é o motor daquilo. E ao terceiro álbum, e se embora a forma de compor se mantém lá toda, assim como o psicadelismo, a sonoridade tornou-se diferente. Alguns acharam de mau gosto, que se tornou azeiteiro, que se vendeu. Eu gostei. A música ficou mais dançável, mais suave, mais melosa também. Mas a identidade, a essência mantém-se intacta. E continua a ter apontamentos de génio. Ouça-se
The Less I Know the Better,
Let It Happen,
Yes I'm Changing ou
New Person/Same Old Mistakes (diálogo fenomenal sobre as vicissitudes de estar apaixonado de novo, após uma verdadeira desilusão amorosa). Não é um álbum imediato, mas depois de se estranhar, entranha-se. Vemo-nos dia 8 de Julho no Alive.
- A minha
Courtney Barnett.
Sometimes I Sit and I Think, Sometimes I Just Sit. Não o fazemos todos? Possuidora da minha idade (mais coisa menos coisa), já no EP ela parecia entender-me. Continua a entender-me. E confirmou a grande escritora de canções que é.
Depreston é uma canção honesta, sobre as dificuldades actuais da juventude.
Pedestrian at Best é rock do bom ("
put me on a pedestal and I''ll only disappoint you, Tell me I'm exceptional, I promise to exploit you"),
Boxing Day Blues,
Nobody Really Cares if I Don't Go to the Party,
An Illustration of Loneliness...Estreia em álbum mais que superada. Também nos vemos dia 8 de Julho.
Mais coisas havia a referir (
Hop Along,
Kurt Vile,
Waxahatchee,
Father John Misty,
Tobias Jesso Jr.) mas não vos quero maçar muito.
Em termos de música ao vivo:
- Presenciar a festa irrepetivel que
Konono n.º 1 e
Batida montaram no Lux. Quase que me sentia em Kinshasa sem fazer ideia do que Kinshasa seja - ainda tenho a electricidade toda no corpo e a minha anca não para de se mexer;
- A peregrinação anual ao Parque da Cidade para a celebração do
Primavera Sound e tudo o que de lá trago todos os anos. As saudades começam na viagem para o Porto. Ouvir a Senhora
Patti Smith a discursar como se estivéssemos no CBGB, sentir-me parte de qualquer coisa que não sei explicar. Estou a escrever e arrepio-me todo do que vivi nessa tarde. Ver tocado o
Horses na íntegra, sem parecer datado, é algo para contar aos netos (se os chegar a ter). Nunca pensar conseguir ver os
RIDE ao vivo. Foi como se nunca tivessem parado.
Vapour Trail,
Polar Bear,
Leave Them All Behind,
Dreams Burn Down...ai que distorção tão boa. O festão que os
JUNGLE montaram a fechar a 2ª noite. Cada vez que penso, dou por mim de braços no ar, a dançar que nem um maluco. Memorável. Finalmente ver os
Death Cab for Cutie. E recear que já viessem fora de prazo, mas a provarem precisamente o contrário. E fecharem o concerto com a
Transatlanticism (suspirei agora).
Belle and Sebastian. E tanta outras coisas.
Sun Kill Moon (weird mas bom),
Ought (e imaginar o outro cromo a querer fazer crowd surf e a vazar uma vista ao outro, e este a ficar cheio de sangue e os amigos a cagarem para ele e a continuarem a curtir o som),
Antony & The Johnsons,
FKA Twigs,
Twerps,
Damien Rice,
Thurston Moore...Já não falta tudo;
- O sentir que o Alive (parece que mudou um pouco de direcção para 2016) está demasiado grande para mim, que o seu palco principal tem dado cabo do que podiam ser momentos únicos, mas que continua a ter sempre uma mão cheia de boas propostas.
Mumford&Sons provaram-me que se tornaram maiores do que realmente são (mas o primeiro álbum ainda deixa uma saudade).
James Blake já merecia uma vinda em nome próprio a Portugal (consegue transformar electrónica cerebral em electrónica dançável de qualidade) após mais um grande concerto.
Future Islands e as suas
Spirit e
Vireo's Eye (ainda melhor do que em álbum) a fecharem o concerto.
Capicua e
Batida a mostrarem como são mesmo bons.
Mogwai a fritarem-me os ouvidos todos (tão bom!), sem descanso algum para se deliciarem com
Just Like Honey dos
Jesus & Mary Chain. A tristeza por
Chet Faker não ter sido tão bom quanto queria, não por sua culpa, mas por ali não ser o sítio certo. Mas
Disclosure a compensarem, transformando o recinto numa discoteca com bola de espelhos imaginária. Não foi um Alive mau de todo;
- Ter visto as minhas
Angel Olsen e
Cat Power pela primeira vez ao vivo;
- O portento que foi a estreia de I
ron&Wine. Memorável por tudo: a sessão de discos pedidos (não é que lhe pedi três e ele as tocou?), começar com a
Upward Over the Mountain, entoar a
Trapeze Singer daquela maneira, praticamente à capela (eu queria que lá tivessem estado para perceberem o quão especial foi), a sua simpatia, e tudo o resto que se seguiu depois;
- Os
Beach House, não muitos dias depois do que aconteceu em Paris.
Certamente que me estou a esquecer de muita coisa, e a não conseguir expressar da melhor maneira o que vivi, ou porque foi ou não especial para mim. São apenas algumas das memórias que guardarei de 2015. No fundo, a vida não é isso, memórias?
2016 já está em velocidade de cruzeiro. Acompanhem-no. Promete ter muita e boa música.