domingo, 24 de janeiro de 2016

2015

Sim, já passou quase um mês de 2016, sim, estes balanços fazem-se normalmente no final do ano em questão, mas olha, apesar de ter essa intenção, apenas agora se proporcionou. Como as listas já saíram todas, e eu não ouvi assim tantos álbuns novos em 2015, decidi fazer apenas um pequeno resumo do meu ano musical. Os meus destaques vão para:

- o regresso do Senhor Sufjan Stevens, 5 aninhos depois da sua última obra-prima "The Age of Adz" (que por sua vez também tinha saído 5 anos após a obra-prima "Come on Feel the Illinoise"), com um dos álbuns mais honestos que os meus ouvidos puderam escutar - "Carrie & Lowell". Álbum biográfico, analisando a relação conturbada com a sua mãe (que pelo relato não foi grande mãe), afecta-nos como um verdadeiro murro no estômago. Canções fabulosas como Should Have Know Better (e quem pode ficar indiferente a uma frase como "when I was three, three maybe four, she left us at the video store...", ver o resto da música para entenderem a criatura espantosa que deve ser este senhor), a magistral The Only Thing (sim, todos vocês sabem como facilmente atribuo o título de melhor de sempre a uma canção, e apesar de o achar sempre, considero facilmente esta canção mesmo uma das mais belas canções compostas na história humana - já aqui escrevi sobre isto), onde desde a letra ("Do I care if I survive this? Bury the dead where they're found. In a veil of great surprises: I wonder did you love me at all?")  aos arranjos, tudo se conjuga para a tornar inesquecível, No Shade in the Shadow of the Cross, Fourth of July, Blue Bucket of Gold...enfim, o álbum é fantástico. Quem ainda não o ouviu, façam-me esse favor. Depois não precisam de agradecer.

- Currents, o terceiro álbum dos Tame Impala. Os Tame Impala não são apenas compostos pelo Kevin Parker, mas todos sabemos que ele é o motor daquilo. E ao terceiro álbum, e se embora a forma de compor se mantém lá toda, assim como o psicadelismo, a sonoridade tornou-se diferente. Alguns acharam de mau gosto, que se tornou azeiteiro, que se vendeu. Eu gostei. A música ficou mais dançável, mais suave, mais melosa também. Mas a identidade, a essência mantém-se intacta. E continua a ter apontamentos de génio. Ouça-se The Less I Know the Better, Let It Happen, Yes I'm Changing ou New Person/Same Old Mistakes (diálogo fenomenal sobre as vicissitudes de estar apaixonado de novo, após uma verdadeira desilusão amorosa). Não é um álbum imediato, mas depois de se estranhar, entranha-se. Vemo-nos dia 8 de Julho no Alive.

- A minha Courtney Barnett. Sometimes I Sit and I Think, Sometimes I Just Sit. Não o fazemos todos? Possuidora da minha idade (mais coisa menos coisa), já no EP ela parecia entender-me. Continua a entender-me. E confirmou a grande escritora de canções que é. Depreston é uma canção honesta, sobre as dificuldades actuais da juventude. Pedestrian at Best é rock do bom ("put me on a pedestal and I''ll only disappoint you, Tell me I'm exceptional, I promise to exploit you"), Boxing Day Blues, Nobody Really Cares if I Don't Go to the Party, An Illustration of Loneliness...Estreia em álbum mais que superada. Também nos vemos dia 8 de Julho.

Mais coisas havia a referir (Hop Along, Kurt Vile, Waxahatchee, Father John Misty, Tobias Jesso Jr.) mas não vos quero maçar muito.

Em termos de música ao vivo:

- Presenciar a festa irrepetivel que Konono n.º 1 e Batida montaram no Lux. Quase que me sentia em Kinshasa sem fazer ideia do que Kinshasa seja - ainda tenho a electricidade toda no corpo e a minha anca não para de se mexer;
- A peregrinação anual ao Parque da Cidade para a celebração do Primavera Sound e tudo o que de lá trago todos os anos. As saudades começam na viagem para o Porto. Ouvir a Senhora Patti Smith a discursar como se estivéssemos no CBGB, sentir-me parte de qualquer coisa que não sei explicar. Estou a escrever e arrepio-me todo do que vivi nessa tarde. Ver tocado o Horses na íntegra, sem parecer datado, é algo para contar aos netos (se os chegar a ter). Nunca pensar conseguir ver os RIDE ao vivo. Foi como se nunca tivessem parado. Vapour Trail, Polar Bear, Leave Them All Behind, Dreams Burn Down...ai que distorção tão boa. O festão que os JUNGLE montaram a fechar a 2ª noite. Cada vez que penso, dou por mim de braços no ar, a dançar que nem um maluco. Memorável. Finalmente ver os Death Cab for Cutie. E recear que já viessem fora de prazo, mas a provarem precisamente o contrário. E fecharem o concerto com a Transatlanticism (suspirei agora). Belle and Sebastian. E tanta outras coisas. Sun Kill Moon (weird mas bom), Ought (e imaginar o outro cromo a querer fazer crowd surf e a vazar uma vista ao outro, e este a ficar cheio de sangue e os amigos a cagarem para ele e a continuarem a curtir o som), Antony & The Johnsons, FKA Twigs, Twerps, Damien Rice, Thurston Moore...Já não falta tudo;
- O sentir que o Alive (parece que mudou um pouco de direcção para 2016) está demasiado grande para mim, que o seu palco principal tem dado cabo do que podiam ser momentos únicos, mas que continua a ter sempre uma mão cheia de boas propostas. Mumford&Sons provaram-me que se tornaram maiores do que realmente são (mas o primeiro álbum ainda deixa uma saudade). James Blake já merecia uma vinda em nome próprio a Portugal (consegue transformar electrónica cerebral em electrónica dançável de qualidade) após mais um grande concerto. Future Islands e as suas Spirit e Vireo's Eye (ainda melhor do que em álbum) a fecharem o concerto. Capicua e Batida a mostrarem como são mesmo bons. Mogwai a fritarem-me os ouvidos todos (tão bom!), sem descanso algum para se deliciarem com Just Like Honey dos Jesus & Mary Chain. A tristeza por Chet Faker não ter sido tão bom quanto queria, não por sua culpa, mas por ali não ser o sítio certo. Mas Disclosure a compensarem, transformando o recinto numa discoteca com bola de espelhos imaginária. Não foi um Alive mau de todo;
- Ter visto as minhas Angel Olsen e Cat Power pela primeira vez ao vivo;
- O portento que foi a estreia de Iron&Wine. Memorável por tudo: a sessão de discos pedidos (não é que lhe pedi três e ele as tocou?), começar com a Upward Over the Mountain, entoar a Trapeze Singer daquela maneira, praticamente à capela (eu queria que lá tivessem estado para perceberem o quão especial foi), a sua simpatia, e tudo o resto que se seguiu depois;
- Os Beach House, não muitos dias depois do que aconteceu em Paris.

Certamente que me estou a esquecer de muita coisa, e a não conseguir expressar da melhor maneira o que vivi, ou porque foi ou não especial para mim. São apenas algumas das memórias que guardarei de 2015. No fundo, a vida não é isso, memórias?

2016 já está em velocidade de cruzeiro. Acompanhem-no. Promete ter muita e boa música.

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