Nem sempre queremos procurar, mas também nos cansamos muitas vezes de estar à espera.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
2014
2014 está quase a acabar. A história é sempre a mesma - parece que passou a correr. Sim, parece. Teve coisas boas, coisas más, coisas interessantes, coisas desanimadoras. Coisas. Ninguém sabe se lá chega, mas toda a gente espera que 2015 possa ser melhor. Eu também espero, sinceramente. Para todos.
Já quase toda a gente decidiu quais foram os melhores álbuns, músicas, concertos e afins de 2014. Eu acho que não tenho autoridade nenhuma para dizer quais foram os melhores álbuns do ano (embora saiba perfeitamente quais são, os do ano e os de sempre...), por isso deixo apenas as minhas escolhas deste ano.
Álbuns que não me saem da cabeça desde que os ouvi
1. "Lost in the Dream" - The War on Drugs
Não o guardei, mas lembro-me perfeitamente de ler o artigo que o Ípsilon fez na altura, aquando do lançamento. Começavam por imaginar como seria juntar guitarradas mais "azeiteiras" dos Dire Straits, com fases não tão boas do Bruce Springsteen, com Fleetwood Mac, e mais umas quantas coisas. À partida, tinha tudo para correr mal, para ser um álbum de gosto duvidoso. Mas não. É um álbum sublime. Na minha óptica, é algo como Bruce Springsteen meets My Bloody Valentine meets Bob Dylan. É fabuloso. São canções com sentido de estádio, com camadas e camadas de som por trás, com letras intimistas, cantadas por alguém que não é cantor, o que só acrescenta profundidade à coisa. Desde que o ouvi pela primeira vez, na Radar, acho que o oiço, em partes, ou na totalidade, quase todos os dias. "Red Eyes" é a melhor canção comercial de sempre, "An Ocean in Between the Waves", com quase 8 minutos, é hipnotizante (por mim podiam ser mais 8, que de cansativa não tem nada), e "Burning", a canção que para mim devia concluir o álbum, onde Adam expia todos os seus demónios, uma canção de esperança pessoal para alguém que tem dificuldade em viver com esperança. Um clássico imediato.
2. "Are We There" - Sharon Van Etten
Está em n.º 2, mas podia estar em n.º 1. A ordem não é importante. É simplesmente um álbum do coração. A Sharon canta sempre com a faca na garganta, sempre dividida entre a sua vida pessoal e a sua vida profissional (não são elas quase impossíveis de separação?). Este seu quarto álbum é, provavelmente, o seu melhor, à custa da preferência pela vida profissional. Canta todos os seus desamores, a incompreensão por parte do seu parceiro, o amor. Sempre o amor. É um álbum de canções de fazer chorar qualquer um, de canções de fazer gritar qualquer um, de canções de hipnotizar qualquer um. "Your Love is Killing Me" é capaz de ser a canção mais pesada que Sharon já fez, e cantada por outra pessoa seria apenas uma canção a pedir melodramismos, provavelmente nem sentidos. Na voz de Sharon, é a canção de desamor mais forte de sempre, e a mais sincera. Mas no mesmo patamar tem "Our Love", "Afraid of Nothing", "Break Me" ou "Every Time the Sun Comes Up". Também o ouvi pela primeira vez na Radar, e desde aí, também não passa um único dia sem ouvir pelo menos uma das suas músicas. Sharon, casa comigo. Eu dou-te liberdade para continuares a cantar.
3. "Cavalo" - Rodrigo Amarante
Não sei se se pode chamar música brasileira ao que o Rodrigo Amarante tem feito. Desde que deixou os Los Hermanos, passou a ser um cidadão do mundo. Little Joy, Orquestra Imperial, Devendra Banhart, entre outros, são apenas algumas das ocupações do Rodrigo. Mas nenhuma suplanta a obra-prima que criou com este "Cavalo". Cantado em inglês, português e francês, não se resume ao violão, mas tem caixas de ritmos, teclados, alguma percursão, e, acima de tudo, letras fenomenais. É um álbum melancólico, introspectivo, cantado com voz levemente embriagada. "Tardei" é bem capaz de ser uma das mais belas canções escritas em português ("Tardei, tardei, tardei, mas cheguei enfim..."), mas o mesmo se podia aplicar a "Irene" ("Saudade, eu te matei de fome..."). "Maná" é samba para os nossos ouvidos e "Hourglass" é Amarante a brincar à pop de laivos electrónicos. Resumindo, é um álbum do caraças.
4. "Here and Nowhere Else" - Cloud Nothings
É um álbum de porrada. Ponto. Sim, já não é o punk do antigamente, aqui e ali adocicado com toques pop, mas não deixa de ser um álbum de porrada. O anterior "Attack on Memory" já o ameaçava ser, mas é com este que Dyla Baldi concretiza o que andava à procura a já algum tempo. "I'm Not Part of Me" é a melhor canção sobre uma relação mal acabada de sempre, para ser cantada a plenos pulmões e aos encontrões a outros, "Psychic Trauma" é curta e grossa, começando lenta, para depois fazer dos 0-100 em 3 segundos, e não mais tirar o pé do acelerador, "Pattern Walks" tem uma linha de baixo como à muito não se via, e um anti-refrão pegadiço ("Pattern walks, pattern walks, pattern walks in the moon tonight...", um baterista incansável durante todo o álbum. Enfim, a juventude a cantar a desgraça do seu dia a dia. Porrada da boa, digamos.
5. "Held in Splendour" - Quilt
Quem são os Quilt? Nem eu sei ainda muito bem. Têm dois álbuns, são americanos, e conheci-os através do Ípsilon. E a vocalista é tão bonita que me faz ser tendencioso. E são a minha nova banda favorita, É um álbum com sons de antigamente, cheio de electricidade, folk psicadélica, rock. Um docinho, digamos. Canções cheias de brilho, reluzentes, bonitas. A voz melodiosa da vocalista, guitarradas a acelerar por aí a fora, bateria a marcar o ritmo como um relógio. Um disco dos 60's nos 10's. E são tantas e boas canções, que destaco a "Tie Up the Tides", a lembrar-nos que somos todos crianças, e que devemos viver o nosso próprio tempo ("Ohh Child, you keep living that way, in your own time"), "A Mirror", que me faz querer saber tocar guitarra, "Saturday Bride", com avanços e recuos, e o pezinho sempre a bater, e tantas outras. Vemo-nos por aí, sim, dudes?
Mais bandas mereciam aqui um destaque, como a Angel Olsen, Future Islands, B Fachada, Sun Kill Moon, Real Estate, Capicua, Sensible Soccers, Batida, Parquet Courts, entre muitos outros. Um obrigado para eles.
Canções que entram directamente para a galeria de "As melhores de sempre"
Your Love is Killing Me - Sharon Van Etten
Burning - The War on Drugs
Future Islands - Spirit
Tie Up the Tides - Quilt
I'm Not Part of Me - Cloud Nothings
Springful - Adult Jazz
Queen - Perfume Genius
Black and White - Parquet Courts
Mr. Noah - Panda Bear
Tardei - Rodrigo Amarante
Real Estate - Talking Backwards
Angel Olsen - Hi-Five
Cornerstone - Benjamin Clementine
Concertos e momentos que até podem não ter sido os melhores de sempre, mas que entram para a minha galeria de memórias
Primavera Sound no Porto, ou como um festival pode ser um dos meus pontos altos do ano. De ano para ano fica cada vez melhor, a envolvente dá gosto só por si, o ruído publicitário é quase nulo (que festival tem por brindes um saco que é uma toalha de picnic, ou dá algodão doce?) e os momentos épicos são mais que muitos - conhecer o Rodrigo Amarante antes deste me embalar os ouvidos, quase verter uma lágrima ao ver os Neutral Milk Hotel, dançar com a lenda viva que é Caetano Veloso, os braços no ar e os "woo woo's" que o hip-hop do salvador Kendrick Lamar pediu, acompanhar as guitarradas do "Marquee Moon" dos Television com tiroliroliros, como se 2014 fosse 1977, desbundar desenfreadamente com os Pond e a Courtney Barnett, o ataque sonoro aos meus ouvidos de "Souvlaki Space Station" dos Slowdive (sim! os Slowdive!), a dança em Darkside, cantar como se fosse o Matt Berninger do principio ao fim ao som dos National, a "Breadcrumb Trail" dos Slint (sim! os Slint!) acompanhada só da cintura para cima, a porrada em Cloud Nothings a fechar 3 dias fantásticos como só o Primavera e o Porto nos sabem dar. Sim, o Primavera é o melhor festival do mundo. Em 2015, no que depender de nós, lá estaremos.
Rodrigo Amarante x2, no Primavera do Porto e no Palácio Sinel de Cordes, em Lisboa. Podiam ter sido dois concertos iguais, mas foram totalmente diferentes. O de Lisboa foi acústico, e foi como tê-lo no quintal a cantar para mim. A "Um Milhão" ainda hoje me está no ouvido. Foi um dos melhores concertos a que fui de sempre, com um público exemplar, e um artista que é um artista à antiga. Sem artifícios, apenas honestidade. Obrigado, ZdB, pela ocasião e o sítio especial.
Arcade Fire no Rock in Rio. Sim, foi no Rock in Rio e o som foi péssimo, ao ponto de quase o estragar. Mas isso não os impediu de darem uma lição de espectáculo, sem para isso necessitarem de ter coreografias, gajas semi-nuas ou vídeos chocantes. Basta-lhes as canções maiores que a vida, os coros em uníssono, a voz da Regine, os múltiplos instrumentos. A "Wake Up" a fechar. Sim, estava feliz naquele dia.
Vodafone Mexefest pela primeira vez. Estar frente a frente com a Sharon, a sua voz melodiosa, a sua presença encantadora, o seu humor, uma sequência de músicas brutal com "Give Out" pelo meio. Os Cloud Nothings pela segunda vez, sendo a sessão de porrada maior do que no Primavera, o gritar como se não houvesse amanhã, e com o bónus de ter a "No Future/No Past". O concerto de Capicua, a mostrar como as mulheres também podem cantar hip-hop sem terem de andar todas nuas, e como conseguem de ter mais conteúdo que a maior parte dos homens. Os King Gizzard & The Lizard Wizard em sessão xamã, a encantarem-nos enquanto levamos empurrões de todo o lado, ou como não é preciso ácidos para triparmos. A editora Príncipe a martelar-nos as ancas. As salas fantásticas que não fazia ideia que existiam, e que só por si merecem uma visita (Sociedade de Geografia de Lisboa, Palácio Foz, Casa do Alentejo, Ateneu de Lisboa). A repetir.
Os Sobreviventes, no Lux, pela mão do B Fachada, Francisca Cortesão e João Correia, a celebrar, a 25 de Abril de 2014, 40 anos de 25 de Abril. Foi como se eu lá também estivesse em 1974.
Cass McCombs na ZdB, num concerto surpresa dias depois de ter tocado no Alive. Foram 2h30 de génio musical, a percorrer os seus inúmeros álbuns, com direito a participação especial de Norberto Lobo, a "Harmonia" sussurrada para uma sala cheia, a improvisos vários, com um calor do caraças. Um concerto porque se quer tocar e não porque se tem de tocar. Foi como se tivéssemos nos anos 90, num concerto de banda de garagem.
Notícias em 2014 que terão consequências em 2015
Não há como não destacar - o Super Bock Super Rock vai deixar de ser no Meco. Quem, como eu, prometeu que nunca mais lá ia enquanto fosse naquele sítio, apesar de ter sido sempre muito tentado (The Shins, Cat Power, Lana del Rey, The Killers, Tame Impala...) só pode ser boa notícia. Vamos ver se a emenda não é pior que o soneto, mas para já é uma boa notícia. Para os meus gostos, não começam por aí além (pois acho que não será o melhor cartão de visita Florence&The Machine ser apresentada como cabeça-de-cartaz, e eu até gosto moderadamente dela, mas...), mas já ganharam pontos do meu lado.
O Alive a anunciar Jesus and Mary Chain a tocarem na íntegra o "Psychocandy", ou como me obrigarem a lá ir, mesmo que o resto não interesse ao menino Jesus. O resto continua meio esquisito, como o Alive nos habituou nos últimos tempos. Ora anunciam Future Islands, ora Sheppard (quem?). Ora chutam Dead Combo, ora Kodaline (quem?). Mas é esperar para ver. Se conseguirem um palco secundário como o que apresentaram num dos dias deste ano (The War on Drugs, Cass McCombs, Chet Faker, Paus, Nicolas Jaar...), já não é mau.
Sobre o Primavera falaremos mais tarde, mas para já, com apenas dois nomes, e já nem posso esperar.
As Sleater-Kinney a lançarem novo álbum 10 anos depois do último e brilhante "The Woods". E aposto que nos fazem uma visita. José Gonzalez a fazer o mesmo (e este vem mesmo cá em Fevereiro). The XX. Radiohead. Belle&Sebastian. Bons motivos não devem faltar para ouvir música.
No que toca à música, todos os anos deixam saudades. 2014 não é excepção. Foi ano de boa colheita, não foi?
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Burguesinhas
Sempre gostei de "desvirtuar" as letras das minhas músicas preferidas, tentando fazer com que parecessem ser escritas para mim. Na verdade, acho que faço isso com quase tudo. Gosto de colocar palavras na boca das outras pessoas, normalmente para tentar ouvir aquilo que quero (e na maior parte das vezes, nem são coisas boas). É um dos muitos defeitos que tenho.
Hoje desvirtuo a última estrofe da "Re: Stacks", que de certeza não foi escrita pelo Justin a pensar nas minhas burguesas. Acho que de alguma forma, nunca lhes terei dito tudo aquilo que elas merecem ouvir, e sempre achei que os outros conseguem pôr melhor por palavras aquilo que quero dizer. Obrigado fofinhas.
This is not the sound of a new man or a crispy realization
It's the sound of the unlocking and the lift away
Your love will be safe with me...
Hoje desvirtuo a última estrofe da "Re: Stacks", que de certeza não foi escrita pelo Justin a pensar nas minhas burguesas. Acho que de alguma forma, nunca lhes terei dito tudo aquilo que elas merecem ouvir, e sempre achei que os outros conseguem pôr melhor por palavras aquilo que quero dizer. Obrigado fofinhas.
This is not the sound of a new man or a crispy realization
It's the sound of the unlocking and the lift away
Your love will be safe with me...
in Re.: Stacks
Bon Iver
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Vodafone Mexefest 2014 - Uma espécie de Primavera no Inverno - Parte 2
Depois de um primeiro dia com excelentes concertos, seguia-se um segundo dia que, para mim, se resumia ao facto de actuar a Sharon Van Etten.
Dia 2 - 29 de Novembro
Planeava chegar mais cedo do que acabei por chegar. Escusado será dizer que não consegui ver a Johanna Glaza na Igreja de São Luís dos Franceses, e segundo o que soube esteve completamente lotada. Ainda, pensava eu, chegava a tempo de ver Os Modernos (que mais não são que uns Capitão Fausto ainda mais galhofeiros e sem dois elementos) no Ginásio do Ateneu, mas o concerto acabou pelo menos 20 minutos antes do que estava mencionado no programa (talvez devido à narsa que apanharam na véspera...). Não havia tempo para ir ver mais nada antes da Sharon, e decidi seguir para o Coliseu uns 20 minutos antes da hora prevista para o início. Acho que fiz bem, pois deu para descansar as pernas e ganhar um bom lugar para ver o concerto que mais queria.
Às 21h30 lá se apagam as luzes e entra Sharon Van Etten e os quatro elementos da sua banda (três meninos e uma menina). Cedo deu para perceber que estava muita gente ali para a ver, tantos eram os piropos que lhe eram enviados. Também se conseguiu perceber que o concerto seria centrado no último (e belíssimo) álbum, Are We There. Tal como no álbum, começou com essa linda canção que é "Afraid of Nothing", com a sua voz doce, clemente, quase a pedir perdão. O Coliseu fez silêncio para ser embalado por ela. Seguiu com "Taking Chances", segunda canção do disco e primeiro single. Se em disco as suas canções são sobre dor, (des)amores, frustrações, ao vivo Sharon é uma rapariga muito bem disposta, expontânea e natural. Sempre com a resposta na ponta da língua, soube responder a todos os comentários. Quando alguém lhe diz "your love is killing me", título de uma das canções mais poderosas do ano, responde "I'm sorry!"; quando outro lhe diz "I wonna have your babies", ela responde "You want to have my babies? Is that scientifically possible? Wow Portugal is on the front!". Pergunta a todos se estão ali para a ver, e fica espantada quando um dos presentes tem escrito na cara o seu nome. Confessa que foi a primeira vez que lhe aconteceu, e que é uma "lucky girl" pela banda que tem.
No entanto, quando se atira às suas canções, logo ganha a seriedade que caracteriza a sua escrita e composição. Toca "Save Yourself", do seu segundo álbum, atinge um dos pontos altos do concerto com "Break Me" e toca uma canção inédita, que deverá sair como b-side num próximo single "I don't want to let you down", uma canção a lembrar as canções de "Tramp", com direito a solo de guitarra e tudo. Eu gostei. A sequência final foi avassaladora: "Give Out", "Your Love is Killing Me" e a terminar "Every Time the Sun Comes Up", a expor os conflitos entre amor e carreira. A sua voz esteve sempre no ponto, a banda e muito competente, e conseguiu sempre passar o sentimento das suas canções para o público. Cativou pela sua simpatia e simplicidade, pela sua beleza e genuinidade. Sharon, my dear, casas comigo?
Terminado o concerto de uma hora (ainda hoje não entendo o porquê de uma das cabeças de cartaz tocar tão pouco tempo), um Coliseu praticamente cheio esvaziou para os próximos concertos. Grande parte deve ter escolhido os Cloud Nothings, tal era o tamanho da fila para o Ginásio do Ateneu. Fiz uma coisa de que não me orgulho, e furei aquela fila toda. Devo, ainda assim, ter perdido umas três músicas, entre as quais "Stay Useless" e "Psychic Trauma", duas das minhas preferidas. Entrado no Ginásio, lá começou a sessão de espancamento dos meus ouvidos. A música dos Cloud Nothings já é de si agressiva; a acústica (ou falta dela) do Ginásio fez o resto. As vozes não se distinguiam, as guitarras estavam mais distorcidas e estridentes do que era suposto, entre outros problemas. Isso não conseguiu, ainda assim estragar o concerto. Um baterista incessante, um Dilan habituado a cantar das vísceras e um baixista muito competente fizeram deste segundo concerto em 2014 dos Cloud Nothings em Portugal (já tinham tocado no Primavera) um concerto novamente vencedor. Em relação ao anterior, apresentaram algumas alterações na setlist, por exemplo com a inclusão desse portento que é "No Future/No Past", cantado a plenos pulmões por muitos dos presentes. Não faltou também "Pattern Walks" e muito menos "I'm Not Part of Me", com uma sessão de mosh em simultâneo com um coro enorme de todos. Bandas destas podem vir as vezes que quiserem. Está ganho à partida.
Depois de Cloud Nothings, para onde ir? O objectivo era seguir para Palma Violets, na Estação do Rossio, mas os relatos de que estaria cheio acabaram por nos levar ao Palácio Foz, a fim de se visitar o local e dançar mais um pouco ao som dos ritmos africano de Meu Kamba Soundsystem. E ainda bem que assim foi. Ficou-se a conhecer mais um palácio (sim aquilo é mesmo um palácio, luxuosamente decorado e tudo!) e mais um projecto interessante, que revisita clássicos antigos e outros menos conhecidos de muita e boa música africana (funanás, sembas, kuduro...). Não ficámos até ao fim para ganhar local no Coliseu, para ver Wild Beasts. Não foi tanto por se querer ver a banda (a curiosidade havia, mas pouco mais que isso), mas mais por, durante cerca de uma hora, não haver alternativa à mesma. O Coliseu, como esperava, encheu por completo. O concerto acabou por ser interessante, apesar do péssimo som, mas deu para ver a admiração que existe por cá por estes ingleses. Com um som melancólico, algo de Depeche Mode e anos 80, e com duas vozes poderosas (uma mais grave, outra mais aguda), mostraram-se agradecidos pela recepção que tiveram, com muitos brindes com vinho e muitos "obrigados". Não deixa de ser digno de nota as inúmeras canções "conhecidas" que já têm, mesmo para os que, como eu, não os seguem.
Ainda daria para ver Dengue Dengue Dengue ou Branko, mas o cansaço era já algum e as pernas não estavam a colaborar para a dança. O meu Vodafone Mexefest chegava assim ao fim, depois de dois dias de muitos e bons concertos.
Dia 2 - 29 de Novembro
Planeava chegar mais cedo do que acabei por chegar. Escusado será dizer que não consegui ver a Johanna Glaza na Igreja de São Luís dos Franceses, e segundo o que soube esteve completamente lotada. Ainda, pensava eu, chegava a tempo de ver Os Modernos (que mais não são que uns Capitão Fausto ainda mais galhofeiros e sem dois elementos) no Ginásio do Ateneu, mas o concerto acabou pelo menos 20 minutos antes do que estava mencionado no programa (talvez devido à narsa que apanharam na véspera...). Não havia tempo para ir ver mais nada antes da Sharon, e decidi seguir para o Coliseu uns 20 minutos antes da hora prevista para o início. Acho que fiz bem, pois deu para descansar as pernas e ganhar um bom lugar para ver o concerto que mais queria.
Às 21h30 lá se apagam as luzes e entra Sharon Van Etten e os quatro elementos da sua banda (três meninos e uma menina). Cedo deu para perceber que estava muita gente ali para a ver, tantos eram os piropos que lhe eram enviados. Também se conseguiu perceber que o concerto seria centrado no último (e belíssimo) álbum, Are We There. Tal como no álbum, começou com essa linda canção que é "Afraid of Nothing", com a sua voz doce, clemente, quase a pedir perdão. O Coliseu fez silêncio para ser embalado por ela. Seguiu com "Taking Chances", segunda canção do disco e primeiro single. Se em disco as suas canções são sobre dor, (des)amores, frustrações, ao vivo Sharon é uma rapariga muito bem disposta, expontânea e natural. Sempre com a resposta na ponta da língua, soube responder a todos os comentários. Quando alguém lhe diz "your love is killing me", título de uma das canções mais poderosas do ano, responde "I'm sorry!"; quando outro lhe diz "I wonna have your babies", ela responde "You want to have my babies? Is that scientifically possible? Wow Portugal is on the front!". Pergunta a todos se estão ali para a ver, e fica espantada quando um dos presentes tem escrito na cara o seu nome. Confessa que foi a primeira vez que lhe aconteceu, e que é uma "lucky girl" pela banda que tem.
No entanto, quando se atira às suas canções, logo ganha a seriedade que caracteriza a sua escrita e composição. Toca "Save Yourself", do seu segundo álbum, atinge um dos pontos altos do concerto com "Break Me" e toca uma canção inédita, que deverá sair como b-side num próximo single "I don't want to let you down", uma canção a lembrar as canções de "Tramp", com direito a solo de guitarra e tudo. Eu gostei. A sequência final foi avassaladora: "Give Out", "Your Love is Killing Me" e a terminar "Every Time the Sun Comes Up", a expor os conflitos entre amor e carreira. A sua voz esteve sempre no ponto, a banda e muito competente, e conseguiu sempre passar o sentimento das suas canções para o público. Cativou pela sua simpatia e simplicidade, pela sua beleza e genuinidade. Sharon, my dear, casas comigo?
Terminado o concerto de uma hora (ainda hoje não entendo o porquê de uma das cabeças de cartaz tocar tão pouco tempo), um Coliseu praticamente cheio esvaziou para os próximos concertos. Grande parte deve ter escolhido os Cloud Nothings, tal era o tamanho da fila para o Ginásio do Ateneu. Fiz uma coisa de que não me orgulho, e furei aquela fila toda. Devo, ainda assim, ter perdido umas três músicas, entre as quais "Stay Useless" e "Psychic Trauma", duas das minhas preferidas. Entrado no Ginásio, lá começou a sessão de espancamento dos meus ouvidos. A música dos Cloud Nothings já é de si agressiva; a acústica (ou falta dela) do Ginásio fez o resto. As vozes não se distinguiam, as guitarras estavam mais distorcidas e estridentes do que era suposto, entre outros problemas. Isso não conseguiu, ainda assim estragar o concerto. Um baterista incessante, um Dilan habituado a cantar das vísceras e um baixista muito competente fizeram deste segundo concerto em 2014 dos Cloud Nothings em Portugal (já tinham tocado no Primavera) um concerto novamente vencedor. Em relação ao anterior, apresentaram algumas alterações na setlist, por exemplo com a inclusão desse portento que é "No Future/No Past", cantado a plenos pulmões por muitos dos presentes. Não faltou também "Pattern Walks" e muito menos "I'm Not Part of Me", com uma sessão de mosh em simultâneo com um coro enorme de todos. Bandas destas podem vir as vezes que quiserem. Está ganho à partida.
Depois de Cloud Nothings, para onde ir? O objectivo era seguir para Palma Violets, na Estação do Rossio, mas os relatos de que estaria cheio acabaram por nos levar ao Palácio Foz, a fim de se visitar o local e dançar mais um pouco ao som dos ritmos africano de Meu Kamba Soundsystem. E ainda bem que assim foi. Ficou-se a conhecer mais um palácio (sim aquilo é mesmo um palácio, luxuosamente decorado e tudo!) e mais um projecto interessante, que revisita clássicos antigos e outros menos conhecidos de muita e boa música africana (funanás, sembas, kuduro...). Não ficámos até ao fim para ganhar local no Coliseu, para ver Wild Beasts. Não foi tanto por se querer ver a banda (a curiosidade havia, mas pouco mais que isso), mas mais por, durante cerca de uma hora, não haver alternativa à mesma. O Coliseu, como esperava, encheu por completo. O concerto acabou por ser interessante, apesar do péssimo som, mas deu para ver a admiração que existe por cá por estes ingleses. Com um som melancólico, algo de Depeche Mode e anos 80, e com duas vozes poderosas (uma mais grave, outra mais aguda), mostraram-se agradecidos pela recepção que tiveram, com muitos brindes com vinho e muitos "obrigados". Não deixa de ser digno de nota as inúmeras canções "conhecidas" que já têm, mesmo para os que, como eu, não os seguem.
Ainda daria para ver Dengue Dengue Dengue ou Branko, mas o cansaço era já algum e as pernas não estavam a colaborar para a dança. O meu Vodafone Mexefest chegava assim ao fim, depois de dois dias de muitos e bons concertos.
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Vodafone Mexefest 2014 - Uma espécie de Primavera no Inverno - Parte 1
Foi a primeira vez que fui ao Vodafone Mexefest. Não que antes não quisesse ter ido, mas por uma razão ou outra nunca tinha sido possível. A edição deste ano, e sem ter presente a primeira edição ainda como Super Bock em Stock (se bem me lembro, conseguiu as estreias em Portugal de Walkmen, Lykke Li, Santigold, El Perro del Mar...), foi, na minha opinião, uma das melhores de sempre em termos de cartaz. Estava bem equilibrado em termos de nomes nacionais e internacionais, era ecléctico e tinha nomes "desconhecidos" e alguns já consagrados (dentro do meio). No meu caso, bastava saber que o cartaz contava com a Sharon. Aqui fica a minha visão da edição 2014.
Dia 1 - 28 de Novembro
Algo que fiquei a descobrir com o primeiro concerto a que assisti foi que o Mexefest é um festival que, para além dos nomes apresentados, vale pelas salas onde estes tocam. Subi ao 2º andar da Sociedade de Geografia de Portugal e logo fiquei maravilhado. Até podiam estar a tocar os Beatles que acho que não teria reparado, de tão bela que é a sala. Depois do impacto inicial, lá me sentei para ver Ana Cláudia. Não fosse o Mexefest e a sala em questão e provavelmente ainda levaria um tempinho a ouvir falar dela. Com um 1º álbum acabado de sair, "De Outono", Ana Cláudia é dona de uma voz doce, encorpada, e consegue mesclar batidas electrónicas com momentos de silêncio, a fazer lembrar um James Blake ou uma Bjork. As letras pareceram-me bastante interessantes, confirmou as influências de Bjork pela versão que dela fez e ainda me deu a conhecer a música "João e o Pé de Feijão" do brasileiro Cícero. A ouvir com mais atenção.
Depois de uma pausa para retemperar forças através de um panado no pão e uma imperial, que levou mais tempo que o pretendido, foi tempo de usufruir do serviço de shuttles que a organização colocou à disposição do público para subir até ao Cinema São Jorge. Era hora de Capicua. 2014 foi sem dúvida um ano de excepção para Ana Matos, verdadeiro nome de Capicua: lançou um belíssimo segundo álbum, teve concertos por todo o país, incluindo nos principais festivais, e conseguiu a proeza de ter um "hino" sabido por todos como "Vayorken". Este concerto seria, portanto, um culminar do seu ano. O concerto começa com uma gravação de Capicua a explicar a origem do álbum "Sereia Louca" (o tal sonho da sereia que queria comprar sapatos, e que lhe diz coisas estranhas ao ouvido), e lá entram Capicua, e os seus acompanhantes em palco M7 e D-One, para se atirarem a essa mesma canção. Com os visuais a serem feitos em tempo real (a ilustrar os temas das suas canções), Capicua atira-se sem dó nem piedade às suas músicas. Estas ora são baseadas na sua própria vida ("Casa no Campo", a bonita canção com "participação" especial de Elis Regina, e "Vayorken", são disso exemplos") ora em aspectos na ordem do dia-a-dia ("Jugular", "Medo do Medo" - dita sem necessidade de recuperar o fôlego - e "Pedras da Calçada" são monumentos à situação do nosso país, "A Mulher do Cacilheiro" expõe a vida difícil de uma mulher de modo magistral - é pura poesia). O concerto serviu também como forma de homenagear as mulheres, tal como já acontecia no álbum, e por isso o uso de pelo menos três bailarinas, ora a dançar ballet, dança mais contemporânea ou até a dança do varão. Pelo meio a participação no concerto de duas mulheres que também participaram no disco, e que duas mulheres! Primeiro foi Gisela João, em "Soldadinho", e depois Aline Frazão, em "Lupa". Donas de vozes do tamanho do mundo, só serviram para abrilhantar ainda mais o concerto. Capicua não é uma rapper qualquer, é uma rapper com bom gosto, verdadeira, sem necessidade de recurso a outros artifícios para se fazer ouvir. As suas músicas e letras falam por si, e o excelente concerto que deu também. A sala cheia do São Jorge foi prova disso. És a maior, Ana!
Avenida abaixo para o próximo concerto e o previsto seria Shura, na Casa do Alentejo. Acabei por ir parar ao Ginásio do Ateneu Comercial de Lisboa para ver a estreia de Pharoahe Monch em Portugal, rapper do underground americano dado aos problemas sociais, muito critico do circo que se tornou o hip-hop americano. Quem diria que na rua do coliseu havia um ginásio com cestos de basket e tudo, e com um mural gigante do MFA. Melhor local seria difícil para este concerto. O problema é que um espaço daqueles tem muitos (para ser meiguinho) problemas de som. Ele ecoa e é muito estridente, ou seja, não se percebeu grande coisa do que Pharoahe Monch disse. Dá para perceber que é um rapper a sério, a debitar rimas que saem de dentro, da sua vida (o senhor veio de Queens, NY), e que não se deixa comprar. A referir que o senhor DJ que o acompanha não lhe faz jus, quebrando muitas vezes o ritmo, muitos pregos, etc. Ainda assim, quem lá esteve (Fred Ferreira dos Orelhas Negra e afins andava por lá) sentiu-se num verdadeiro concerto de hip-hop, como ele era no início.
Não fiquei até ao fim, pois queria aproveitar a estreia de King Gizzard & The Lizard Wizard, na Garagem da EPAL. Mais uma vez, acho que melhor sitio não haveria para aquele concerto. Estes australianos (a Austrália dá cartas por estes dias com nomes fantásticos como Tame Impala e Pond) são talvez um cruzamento da vertente mais "alegre" dos Pond com o pé pesado dos Thee Oh Sees, com composições longas de psicadelismo e rock'n'roll, duas baterias perfeitamente sincronizadas, umas três guitarras, um baixo, e uma harmónica alterada. Foi um concerto daqueles transpirados, de air guitar, de fechar os olhos e embalar para Saturno, de mosh e algum crowdsurf. Foi, na minha opinião, um dos concertos do festival, e espero que voltem em breve.
A editora Príncipe engalanou-se e apresentou um showcase do melhor que tem trazido ao mundo - ritmos africanos actualizados para o século XXI, batidas incessantes, corpos irrequietos. O Salão Nobre do Ateneu transformou-se em discoteca (mas das requintadas!! o Salão e fantástico, com tectos ilustrados e um candeeiro de velas enorme) para todos aqueles que preferiram dançar ao invés de ouvir St. Vincent. Foram dois aspectos que, na minha opinião também caracterizaram o festival - a predominância das vozes femininas e a consagração da música de ritmos africanos. Só temos a ganhar com isso. Obrigada, DJ Marfox e amigos pelo excelente serão.
Ainda cheguei ao Coliseu a tempo de o ver praticamente lotado para ver St. Vincent. Foram apenas duas músicas a que assisti, mas deu para perceber que Annie Clark é ainda mais experimental e expansiva em palco do que em disco. Andava em pleno crowdsurf quando entrei. Não sei se teria gostado do concerto (as opiniões que ouvi vão do fenomenal ao "mete mais tabaco"), mas deu para perceber que ninguém lhe fica indiferente. Fica para uma próxima, Annie (não foi no Primavera, não foi no Mexefest, será noutro lado qualquer, com certeza).
A primeira noite chegava assim ao fim, com Capicua e King Gizzard a triunfarem nas minhas escolhas, com a celebração da editora Príncipe e a descoberta de salas fantásticas. Não deu para ver jj, Tune-Yards, Shura nem St. Vincent, mas como tudo na vida, o Mexefest também é feito de escolhas. Estas foram as minhas, e não me arrependo.
Dia 1 - 28 de Novembro
Algo que fiquei a descobrir com o primeiro concerto a que assisti foi que o Mexefest é um festival que, para além dos nomes apresentados, vale pelas salas onde estes tocam. Subi ao 2º andar da Sociedade de Geografia de Portugal e logo fiquei maravilhado. Até podiam estar a tocar os Beatles que acho que não teria reparado, de tão bela que é a sala. Depois do impacto inicial, lá me sentei para ver Ana Cláudia. Não fosse o Mexefest e a sala em questão e provavelmente ainda levaria um tempinho a ouvir falar dela. Com um 1º álbum acabado de sair, "De Outono", Ana Cláudia é dona de uma voz doce, encorpada, e consegue mesclar batidas electrónicas com momentos de silêncio, a fazer lembrar um James Blake ou uma Bjork. As letras pareceram-me bastante interessantes, confirmou as influências de Bjork pela versão que dela fez e ainda me deu a conhecer a música "João e o Pé de Feijão" do brasileiro Cícero. A ouvir com mais atenção.
Depois de uma pausa para retemperar forças através de um panado no pão e uma imperial, que levou mais tempo que o pretendido, foi tempo de usufruir do serviço de shuttles que a organização colocou à disposição do público para subir até ao Cinema São Jorge. Era hora de Capicua. 2014 foi sem dúvida um ano de excepção para Ana Matos, verdadeiro nome de Capicua: lançou um belíssimo segundo álbum, teve concertos por todo o país, incluindo nos principais festivais, e conseguiu a proeza de ter um "hino" sabido por todos como "Vayorken". Este concerto seria, portanto, um culminar do seu ano. O concerto começa com uma gravação de Capicua a explicar a origem do álbum "Sereia Louca" (o tal sonho da sereia que queria comprar sapatos, e que lhe diz coisas estranhas ao ouvido), e lá entram Capicua, e os seus acompanhantes em palco M7 e D-One, para se atirarem a essa mesma canção. Com os visuais a serem feitos em tempo real (a ilustrar os temas das suas canções), Capicua atira-se sem dó nem piedade às suas músicas. Estas ora são baseadas na sua própria vida ("Casa no Campo", a bonita canção com "participação" especial de Elis Regina, e "Vayorken", são disso exemplos") ora em aspectos na ordem do dia-a-dia ("Jugular", "Medo do Medo" - dita sem necessidade de recuperar o fôlego - e "Pedras da Calçada" são monumentos à situação do nosso país, "A Mulher do Cacilheiro" expõe a vida difícil de uma mulher de modo magistral - é pura poesia). O concerto serviu também como forma de homenagear as mulheres, tal como já acontecia no álbum, e por isso o uso de pelo menos três bailarinas, ora a dançar ballet, dança mais contemporânea ou até a dança do varão. Pelo meio a participação no concerto de duas mulheres que também participaram no disco, e que duas mulheres! Primeiro foi Gisela João, em "Soldadinho", e depois Aline Frazão, em "Lupa". Donas de vozes do tamanho do mundo, só serviram para abrilhantar ainda mais o concerto. Capicua não é uma rapper qualquer, é uma rapper com bom gosto, verdadeira, sem necessidade de recurso a outros artifícios para se fazer ouvir. As suas músicas e letras falam por si, e o excelente concerto que deu também. A sala cheia do São Jorge foi prova disso. És a maior, Ana!
Avenida abaixo para o próximo concerto e o previsto seria Shura, na Casa do Alentejo. Acabei por ir parar ao Ginásio do Ateneu Comercial de Lisboa para ver a estreia de Pharoahe Monch em Portugal, rapper do underground americano dado aos problemas sociais, muito critico do circo que se tornou o hip-hop americano. Quem diria que na rua do coliseu havia um ginásio com cestos de basket e tudo, e com um mural gigante do MFA. Melhor local seria difícil para este concerto. O problema é que um espaço daqueles tem muitos (para ser meiguinho) problemas de som. Ele ecoa e é muito estridente, ou seja, não se percebeu grande coisa do que Pharoahe Monch disse. Dá para perceber que é um rapper a sério, a debitar rimas que saem de dentro, da sua vida (o senhor veio de Queens, NY), e que não se deixa comprar. A referir que o senhor DJ que o acompanha não lhe faz jus, quebrando muitas vezes o ritmo, muitos pregos, etc. Ainda assim, quem lá esteve (Fred Ferreira dos Orelhas Negra e afins andava por lá) sentiu-se num verdadeiro concerto de hip-hop, como ele era no início.
Não fiquei até ao fim, pois queria aproveitar a estreia de King Gizzard & The Lizard Wizard, na Garagem da EPAL. Mais uma vez, acho que melhor sitio não haveria para aquele concerto. Estes australianos (a Austrália dá cartas por estes dias com nomes fantásticos como Tame Impala e Pond) são talvez um cruzamento da vertente mais "alegre" dos Pond com o pé pesado dos Thee Oh Sees, com composições longas de psicadelismo e rock'n'roll, duas baterias perfeitamente sincronizadas, umas três guitarras, um baixo, e uma harmónica alterada. Foi um concerto daqueles transpirados, de air guitar, de fechar os olhos e embalar para Saturno, de mosh e algum crowdsurf. Foi, na minha opinião, um dos concertos do festival, e espero que voltem em breve.
A editora Príncipe engalanou-se e apresentou um showcase do melhor que tem trazido ao mundo - ritmos africanos actualizados para o século XXI, batidas incessantes, corpos irrequietos. O Salão Nobre do Ateneu transformou-se em discoteca (mas das requintadas!! o Salão e fantástico, com tectos ilustrados e um candeeiro de velas enorme) para todos aqueles que preferiram dançar ao invés de ouvir St. Vincent. Foram dois aspectos que, na minha opinião também caracterizaram o festival - a predominância das vozes femininas e a consagração da música de ritmos africanos. Só temos a ganhar com isso. Obrigada, DJ Marfox e amigos pelo excelente serão.
Ainda cheguei ao Coliseu a tempo de o ver praticamente lotado para ver St. Vincent. Foram apenas duas músicas a que assisti, mas deu para perceber que Annie Clark é ainda mais experimental e expansiva em palco do que em disco. Andava em pleno crowdsurf quando entrei. Não sei se teria gostado do concerto (as opiniões que ouvi vão do fenomenal ao "mete mais tabaco"), mas deu para perceber que ninguém lhe fica indiferente. Fica para uma próxima, Annie (não foi no Primavera, não foi no Mexefest, será noutro lado qualquer, com certeza).
A primeira noite chegava assim ao fim, com Capicua e King Gizzard a triunfarem nas minhas escolhas, com a celebração da editora Príncipe e a descoberta de salas fantásticas. Não deu para ver jj, Tune-Yards, Shura nem St. Vincent, mas como tudo na vida, o Mexefest também é feito de escolhas. Estas foram as minhas, e não me arrependo.
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