Depois de um primeiro dia com excelentes concertos, seguia-se um segundo dia que, para mim, se resumia ao facto de actuar a Sharon Van Etten.
Dia 2 - 29 de Novembro
Planeava chegar mais cedo do que acabei por chegar. Escusado será dizer que não consegui ver a Johanna Glaza na Igreja de São Luís dos Franceses, e segundo o que soube esteve completamente lotada. Ainda, pensava eu, chegava a tempo de ver Os Modernos (que mais não são que uns Capitão Fausto ainda mais galhofeiros e sem dois elementos) no Ginásio do Ateneu, mas o concerto acabou pelo menos 20 minutos antes do que estava mencionado no programa (talvez devido à narsa que apanharam na véspera...). Não havia tempo para ir ver mais nada antes da Sharon, e decidi seguir para o Coliseu uns 20 minutos antes da hora prevista para o início. Acho que fiz bem, pois deu para descansar as pernas e ganhar um bom lugar para ver o concerto que mais queria.
Às 21h30 lá se apagam as luzes e entra Sharon Van Etten e os quatro elementos da sua banda (três meninos e uma menina). Cedo deu para perceber que estava muita gente ali para a ver, tantos eram os piropos que lhe eram enviados. Também se conseguiu perceber que o concerto seria centrado no último (e belíssimo) álbum, Are We There. Tal como no álbum, começou com essa linda canção que é "Afraid of Nothing", com a sua voz doce, clemente, quase a pedir perdão. O Coliseu fez silêncio para ser embalado por ela. Seguiu com "Taking Chances", segunda canção do disco e primeiro single. Se em disco as suas canções são sobre dor, (des)amores, frustrações, ao vivo Sharon é uma rapariga muito bem disposta, expontânea e natural. Sempre com a resposta na ponta da língua, soube responder a todos os comentários. Quando alguém lhe diz "your love is killing me", título de uma das canções mais poderosas do ano, responde "I'm sorry!"; quando outro lhe diz "I wonna have your babies", ela responde "You want to have my babies? Is that scientifically possible? Wow Portugal is on the front!". Pergunta a todos se estão ali para a ver, e fica espantada quando um dos presentes tem escrito na cara o seu nome. Confessa que foi a primeira vez que lhe aconteceu, e que é uma "lucky girl" pela banda que tem.
No entanto, quando se atira às suas canções, logo ganha a seriedade que caracteriza a sua escrita e composição. Toca "Save Yourself", do seu segundo álbum, atinge um dos pontos altos do concerto com "Break Me" e toca uma canção inédita, que deverá sair como b-side num próximo single "I don't want to let you down", uma canção a lembrar as canções de "Tramp", com direito a solo de guitarra e tudo. Eu gostei. A sequência final foi avassaladora: "Give Out", "Your Love is Killing Me" e a terminar "Every Time the Sun Comes Up", a expor os conflitos entre amor e carreira. A sua voz esteve sempre no ponto, a banda e muito competente, e conseguiu sempre passar o sentimento das suas canções para o público. Cativou pela sua simpatia e simplicidade, pela sua beleza e genuinidade. Sharon, my dear, casas comigo?
Terminado o concerto de uma hora (ainda hoje não entendo o porquê de uma das cabeças de cartaz tocar tão pouco tempo), um Coliseu praticamente cheio esvaziou para os próximos concertos. Grande parte deve ter escolhido os Cloud Nothings, tal era o tamanho da fila para o Ginásio do Ateneu. Fiz uma coisa de que não me orgulho, e furei aquela fila toda. Devo, ainda assim, ter perdido umas três músicas, entre as quais "Stay Useless" e "Psychic Trauma", duas das minhas preferidas. Entrado no Ginásio, lá começou a sessão de espancamento dos meus ouvidos. A música dos Cloud Nothings já é de si agressiva; a acústica (ou falta dela) do Ginásio fez o resto. As vozes não se distinguiam, as guitarras estavam mais distorcidas e estridentes do que era suposto, entre outros problemas. Isso não conseguiu, ainda assim estragar o concerto. Um baterista incessante, um Dilan habituado a cantar das vísceras e um baixista muito competente fizeram deste segundo concerto em 2014 dos Cloud Nothings em Portugal (já tinham tocado no Primavera) um concerto novamente vencedor. Em relação ao anterior, apresentaram algumas alterações na setlist, por exemplo com a inclusão desse portento que é "No Future/No Past", cantado a plenos pulmões por muitos dos presentes. Não faltou também "Pattern Walks" e muito menos "I'm Not Part of Me", com uma sessão de mosh em simultâneo com um coro enorme de todos. Bandas destas podem vir as vezes que quiserem. Está ganho à partida.
Depois de Cloud Nothings, para onde ir? O objectivo era seguir para Palma Violets, na Estação do Rossio, mas os relatos de que estaria cheio acabaram por nos levar ao Palácio Foz, a fim de se visitar o local e dançar mais um pouco ao som dos ritmos africano de Meu Kamba Soundsystem. E ainda bem que assim foi. Ficou-se a conhecer mais um palácio (sim aquilo é mesmo um palácio, luxuosamente decorado e tudo!) e mais um projecto interessante, que revisita clássicos antigos e outros menos conhecidos de muita e boa música africana (funanás, sembas, kuduro...). Não ficámos até ao fim para ganhar local no Coliseu, para ver Wild Beasts. Não foi tanto por se querer ver a banda (a curiosidade havia, mas pouco mais que isso), mas mais por, durante cerca de uma hora, não haver alternativa à mesma. O Coliseu, como esperava, encheu por completo. O concerto acabou por ser interessante, apesar do péssimo som, mas deu para ver a admiração que existe por cá por estes ingleses. Com um som melancólico, algo de Depeche Mode e anos 80, e com duas vozes poderosas (uma mais grave, outra mais aguda), mostraram-se agradecidos pela recepção que tiveram, com muitos brindes com vinho e muitos "obrigados". Não deixa de ser digno de nota as inúmeras canções "conhecidas" que já têm, mesmo para os que, como eu, não os seguem.
Ainda daria para ver Dengue Dengue Dengue ou Branko, mas o cansaço era já algum e as pernas não estavam a colaborar para a dança. O meu Vodafone Mexefest chegava assim ao fim, depois de dois dias de muitos e bons concertos.
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