terça-feira, 24 de março de 2015

Festa

Acho que toda a gente gosta de ir a festas, mesmo os que dizem que não gostam. Amanhã começa uma Festa que dura mais de uma semana: a Festa do Cinema Italiano 8 1/2. Tem por salão de baile as diversas salas do Cinema São Jorge e muitos serão os seus adereços. Eu gosto de lá ir.

Para começar, a estreia em Portugal de "O País das Maravilhas" de Alice Rohrwacher, já amanhã às 21h30. Para mim, apesar de todas as boas críticas e da interessante sinopse (esta palavra é mesmo muito à frente...), basta saber que a Monica Bellucci participa no filme...

Domingo é dia de (re)ver "Cinema Paradiso" (estou neste momento a dizer isto em italiano - Xinémá Párádizo, e não me canso de o dizer), numa cópia restaurada da versão original de 1988. É às 16h, e quem faltar não merece nada desta vida.

Não sei se vai dar, mas queria, também no domingo, de ver "Il treno va a Mosca", que com recurso a imagens de 1957, retrata os preparativos para uma viagem de um grupo de habitantes de uma pequena aldeia, inteiramente (ou quase) comunista, a Moscovo. Diz que é um retrato fiel do que significou o comunismo italiano e da Itália na década de 50.

Sergio Leone também vai ser homenageado. Vão ser exibidos alguns dos seus filmes. Destaque para "O Bom, o Mau e o Vilão", também em cópia restaurada. É na quarta, dia 01, às 21h00.

Os bilhetes a preço normal custam 4 euros (2,50 euros para menores de 25). Não é desculpa para não irem.
Mais informações aqui: http://www.festadocinemaitaliano.com/ 

segunda-feira, 23 de março de 2015

O bicho

"Úrsula perguntava-se se não seria preferível deitar-se de uma vez na sepultura e que lhe lançassem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para aguentar tantos sofrimentos e mortificações; e pergunta atrás pergunta ia atiçando a sua própria ofuscação e sentia uns desejos irreprimíveis de desatar a dizer asneiras como um forasteiro, conceder-se finalmente um momento de rebeldia, o momento tantas vezes ambicionado e outras tantas vezes adiado de enfiar a resignação por um certo sítio e mandar tudo à fava de uma vez por todas e despejar do coração os infinitos montões de palavras feias que tinha tido de engolir durante um século inteiro de conformação.
- Carago! - gritou.
Amaranta, que começava a meter a roupa no baú, julgou que tinha sido mordida por um lacrau.
- Onde está? - perguntou alarmada.
- O quê?
- O bicho! - esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs um dedo sobre o coração.
- Aqui - disse."
in Cem Anos de Solidão p. 202
Gabriel García Márquez

domingo, 22 de março de 2015

Dias perdidos


We were just wasting time
We were just wasting time
in Days
The Drums

Daquela vez em que eu...

Lembro-me que Novembro de 2010 foi um mês insano (a Radar apelidou-o disso mesmo - Novembro Insano) em termos de concertos em Portugal: Interpol, Walkmen, The Drums, Vampire Weekend, !!! (Chk Chk Chk), Black Rebel Motorcycle Club, Broken Social Scene, e mais um porradão deles. Dava para assistir a um concerto diferente todos os dias. Isto para quem tivesse tempo (€) para isto tudo. Alguns tinham sido anunciados com mais tempo, outros eram anunciados mais em cima da hora. Um desses casos foi Imogen Heap. Tocava mais para o fim do mês. Era a estreia em Portugal, e logo em dose dupla (Lisboa e Porto).

Na altura eu já não a ouvia com a regularidade de outros tempos, mas sempre a quis ver ao vivo. Speak for Yourself foi-me apresentado por uma série de TV que já aqui mencionei (sobre ricos e pobres, e essas coisas). Não deixando de ser acessível, mantinha-se muito independente na escrita e composição de canções, brincando com teclados, sintetizadores, autotune , electrónicas, fazendo um estilo muito próprio. "Hide & Seek", "The Moment I Said It", "Just for Now", "Let Go", "Speeding Cars" etc., eram tudo canções pop fantásticas. Comprei o bilhete na véspera, e lá me decidi a ir.

O concerto foi na Aula Magna, que cedo deu evidências de não encher. Estaria talvez meia sala. A cenografia já estava montada. Era simples, mas com muito bom gosto, com uma árvore branca no centro do palco, piano transparente e todos os instrumentos necessários em seu redor. A tela, bem como toda a iluminação, iria ao longo da noite embelezar as canções. Na 1ª e 2ª partes tocariam os projectos paralelos dos músicos que a acompanhavam nessa digressão. E seria ela a fazer questão de os introduzir. Em primeiro lugar tocava Ben Cristophers. Depois seriam os Geese (estes até me deixaram muito boa apresentação, e até comprei o 1º EP deles).

Entre Ben Cristophers e os Geese havia que preparar o palco e os instrumentos. Para fazer tempo, Imogen regressa ao palco, interage com o público, diz-se agrada de estar em Portugal, sempre brincalhona e bem disposta, e após um momento de silêncio,  perguntou se alguém tinha alguma questão. Ninguém se dignou a fazer nenhuma, e o silêncio continuava. Como pessoa que não tem nada a perder, decidi tentar a minha sorte. Perguntei-lhe se queria casar comigo. Eu, como já devem ter notado, tenho uma facilidade enorme em pedir "desconhecidas" em casamento (já as que conheço, nem em namoro, quanto mais em casamento...). Ela, como bem humorada que é, entrou na brincadeira. Disse que o namorado já tinha regressado a Inglaterra, que se calhar eu tinha uma hipótese. Ainda hoje estou à espera. Mas ficou o pedido. E para todos os efeitos, nunca ninguém recusou um pedido meu de casamento.


Por fim, lá se iniciou o concerto da Imogen, daqueles à antiga, que se prolongou por mais de 2 horas. Lembro-me que o som da Aula Magna estava impecável (como aliás está quase sempre), o público era conhecedor, e a voz da Imogen (apesar de muitas vezes propositadamente trabalhada) soava tão bem ao vivo como em disco.

Sempre simpática, não quis que o concerto fosse apenas uma sequência monótona de canções, com uns obrigados pelo meio. Todas elas eram introduzidas com o "once upon a time" e algum facto interessante relativo à escrita da canção, com muito humor pelo meio. A setlist do concerto era feita pelos fãs, permitindo que músicas menos tocadas ao vivo pudessem ter lugar, algumas que ela tinha até dificuldade em iniciar.

Foi um concerto para o qual fui sem grandes expectativas, mas que me arrebatou por completo. E onde quase conseguia noiva. Foi daquela vez em que eu quase me casei.

Depois deste concerto nunca mais cá regressou. Terá sido pelo meu pedido de casamento?

sexta-feira, 20 de março de 2015

Banda de música

"Algo semelhante aconteceu com os gramofones de cilindros que as alegres matronas de França trouxeram para substituir os realejos e que tão profundamente afectaram por algum tempo os interesses da banda de música. Ao princípio, a curiosidade multiplicou a clientela da rua proibida e até se soube de senhoras respeitáveis que se disfarçaram de vilões para verem de perto a novidade do gramofone, mas tanto e de tão perto o apreciaram, que depressa chegaram à conclusão que não era um moinho de sortilégio, como todos pensavam e as matronas diziam, mas sim um truque mecânico que não podia ser comparado a algo tão comovedor, tão humano e tão cheio de verdade quotidiana como uma banda de música."
in Cem Anos de Solidão p. 182
Gabriel García Márquez

Eu também acho.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Por que lutas?

"Uma noite perguntou ao coronel Gerineldo Márquez:
- Diz-me uma coisa, compadre: por que lutas?
- Porque tem de ser, compadre - respondeu o coronel Gerineldo Márquez. - Pelo grande Partido Liberal.
- Que sorte tens em sabê-lo - respondeu ele. - Eu, pela parte que me toca, só agora me apercebo que luto por orgulho.
- Isso é mau - disse o coronel Gerineldo Márquez."
in Cem Anos de Solidão, p. 113
Gabriel García Márquez

quinta-feira, 5 de março de 2015

Vinte e sete anos de solidão

"O tempo acalmou os seus imprudentes propósitos, mas agravou o seu sentimento de frustração. Refugiou-se no trabalho. Resignou-se a ser um homem sem mulher toda a vida para ocultar a vergonha da sua inutilidade."
in Cem Anos de Solidão
Gabriel Garcia Márquez

segunda-feira, 2 de março de 2015

Daquela vez em que eu...

Ainda me lembro das notícias que davam conta da possibilidade do Primavera Sound ter uma edição no Porto. Surgiram lá para Setembro de 2011, e logo os maluquinhos (como eu) que só ouvem música e bandas que ninguém conhece (ou pelo menos assim o gostam de pensar) ficaram impacientes e a salivar. O Primavera Sound é uma das referências mundiais (se não A referência) a nível de festivais, especialmente os que levam a programação muito a sério. Não havia como não ficar a salivar.

Em Outubro eram colocados os primeiros 1000 bilhetes à venda, que voaram em 24 horas. Em Novembro saíam os primeiros nomes, com, entre outros, Bjork logo à cabeça (e que haveria de cancelar umas semanas antes), Yo La Tengo e, cada vez que me lembro da minha reacção, JEFF MANGUM (o mentor dos Neutral Milk Hotel, adormecidos na altura desde 1998, e que eu nunca esperei ver ao vivo).  Meia-dúzia de dias depois, eram anunciados os Walkmen e os Shellac. Um dia depois saíam WILCO (2ª vinda a Portugal), The Drums, Washed Out, e eu só pensava onde é que o cartaz iria parar. Era cada tiro, cada melro. Dias depois a bomba que me vez adiantar o valor do bilhete com mais de seis meses de antecedência: Death Cab for Cutie! (estreia absoluta em Portugal), Explosions in the Sky (regresso passado uns 9 anos), The XX, Beach House...

O cartaz não estava minimamente fechado mas esta primeira edição, para mim, já prometia ser memorável. Os Death Cab for Cutie (DCFC) estreariam-se finalmente em Portugal! Uma banda com uns 15 anos de carreira, álbuns memoráveis, a referência de qualquer xoninhas que acha que ninguém gosta dele (que melhor banda para eu ter por referência?), pela primeira vez aqui pelo burgo! E os Explosions in the Sky, para eu poder extravasar a ouvir músicas cheias de "esperança e positivismo" como "Greet Death", "The Birth and Death of the Day", "The Moon is Down", entre tantas outras! E os Wilco! E os Walkmen! E os Yo La Tengo! Tudo bandas que me conhecem melhor do que os meus melhores amigos! Ainda me lembra de andar histérico em casa, a pegar em todos os CD's de bandas que lá iam, e correr para a minha mãe e dizer (era a melhor forma de explicar o meu contentamento): "Mãe!!! Vão lá estes todos!!" E os CD's quase que não me cabiam nas mãos.

Escusado será dizer que comprei o bilhete, ainda com um preço especial. Foram 75 euros, dados em Dezembro de 2011, sem qualquer pestanejamento.

Os meses foram passando, o cartaz foi sendo encerrado (e lá me deram mais bónus como M83, The Rapture, Linda Martini, The War on Drugs, I Break Horses, Atlas Sound...), a impaciência positiva aumentando. Mas o Primavera Sound também tem, dado os enormes cartaz que constrói, algum histórico de cancelamentos. Primeiro foram os Death Grips e os Ultramagnetic MC's, depois foi a Bjork (estava, se bem me lembro, com uma infecção na garganta, que a levou a cancelar diversos concertos). Não me fizeram grande moça, confesso. Estava no estrangeiro quando fiquei a saber que os Explosions in the Sky também não estariam (devido a doença grave da mãe de um dos senhores). Fiquei chateado, mas o cartaz era bom demais para ser desastroso. Fariam falta, mas quando lá estivesse nem me lembraria deles.

O festival começou, tudo corria bem, até que chegou o 3º dia de concertos (último no Parque da Cidade). Choveu torrencialmente o dia todo. Apanhei, sem dúvida alguma, a maior molha da minha vida, para conseguir entrada para a Casa da Música (o concerto do Jeff Mangum seria lá, e a entrada era limitada). Mas consegui (e valeu a pena)!

Perdi os primeiros concertos do dia (para conseguir os tais bilhetes), mas também não me fez grande moça (queria ter visto Gala Drop, mas paciência). Era dia de DCFC! Arranquei para o palco, para conseguir um bom lugar (já lá estavam bastantes com o mesmo objectivo que eu). Já referi que choveu sem parar durante todo o dia? Tinha abrandado naquela altura, mas, e que erro de principiante!, o palco era descoberto por trás, o que significa que estava completamente alagado. Lá estávamos nós, a ver os senhores da organização a tentarem remediar a situação, colocando a cobertura atrás, secando o piso, varrendo a água...

Aproximava-se a hora prevista para o concerto, e logo se percebeu que iria começar atrasado (e continuava aquela chuva miudinha, dita molha-parvos - compreendo agora a alcunha). Passaram 10 minutos após a hora marcada, 15 minutos, 20 minutos e nada. Eu percebi que não haveria concerto, pelo menos não ali, e eu estava fulo, tal como tantos outros. Não era tanto por não haver concerto, mas sim pela situação em si. Havia previsão de chuva, não acautelaram a situação (resguardando a parte de trás do palco - os outros palcos estavam a funcionar bem) e sentiamo-nos enganados, pois ninguém se dignava a explicar que, dadas as circunstâncias, não poderia haver concerto. Como muitas vezes faço, baixei os braços e arranquei para o palco ATP, onde iriam tocar os I Break Horses (que dada a hora dos DCFC não conseguiria ver). O som não estava muito bom, e a própria sonoridade da banda pede uma sala onde não se percam os pequenos pormenores (escusado será dizer que não gostei muito do concerto). Fiquei depois a saber que finalmente alguém se tinha chegado à frente do palco onde os DCFC deveriam tocar para "anunciar" que não haveria concerto, como se ainda houvesse alguma esperança. Não, não foi grande dia. Para além de toda esta situação, o facto de estar encharcado (e depois até parou de chover), o anoitecer, o ter os ténis todos rotos e cheios de água e lama, o cansaço, fez com que não aproveitasse o resto do dia (ainda vi os Kings of Convenience, os The XX, The Weeknd, Washed Out). Foi um dia marcante, mas não de forma positiva.

Foi assim que a estreia em Portugal dos Death Cab for Cutie se limitou ao soundcheck (que sei de fonte segura que fizeram). A primeira edição, por excelente que tenha sido, será sempre marcada por aquele dia em que eu apanhei uma molha do caraças e ainda assim não vi os DCFC. O concerto, esse, mantém-se adiado até Junho, três anos depois do previsto.

É isto que faz do Primavera um festival especial - assim que houve oportunidade (mesmo que tenham sido 3 anos depois, e isso explica-se até porque os DCFC tocam poucas vezes na Europa), a organização faz questão de cumprir o que se propôs inicialmente (e daí que toquem apenas no Porto e não em Barcelona). Os Explosions in the Sky vieram no ano a seguir, sem terem qualquer tour marcada na Europa, e este ano os DCFC iniciam a tour por cá (aposto que não era isso o previsto).

Não, Primavera, daquela vez em que eu não vi os DCFC não abalou minimamente a nossa relação.

Deixo-vos a actuação deles no David Letterman, a mostrar o novo single. O novo album sai no final deste mês. E esta música promete. Vamos ver.


PS: O Ben Gibbard era casado com a Zooey Deschanel. Aposto que foi ela que o pôs a andar. Bitch. Não perdes as manias do 500 Days of Summer. Ainda assim, aceito casar contigo, se quiseres.