"Úrsula perguntava-se se não seria preferível deitar-se de uma vez na sepultura e que lhe lançassem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para aguentar tantos sofrimentos e mortificações; e pergunta atrás pergunta ia atiçando a sua própria ofuscação e sentia uns desejos irreprimíveis de desatar a dizer asneiras como um forasteiro, conceder-se finalmente um momento de rebeldia, o momento tantas vezes ambicionado e outras tantas vezes adiado de enfiar a resignação por um certo sítio e mandar tudo à fava de uma vez por todas e despejar do coração os infinitos montões de palavras feias que tinha tido de engolir durante um século inteiro de conformação.
- Carago! - gritou.
Amaranta, que começava a meter a roupa no baú, julgou que tinha sido mordida por um lacrau.
- Onde está? - perguntou alarmada.
- O quê?
- O bicho! - esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs um dedo sobre o coração.
- Aqui - disse."
in Cem Anos de Solidão p. 202
Gabriel García Márquez
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