Nem sempre queremos procurar, mas também nos cansamos muitas vezes de estar à espera.
domingo, 24 de janeiro de 2016
Canção de embalar
No dia 31 de Outubro de 2015 era para ter publicado aqui uma música. Não foi dia 30 de Outubro (data correcta), porque apenas fiquei a saber no dia seguinte. Na altura, não sabia bem o que escolher, mas dei agora com o rascunho desta mensagem e decidi recuperá-la.
Pode não ser bem o que as mães hoje cantam aos seus meninos, mas acho que mal não faz. Mais bonito que isto não é fácil de encontrar. Esta é para ti e para o teu menino.
2015
Sim, já passou quase um mês de 2016, sim, estes balanços fazem-se normalmente no final do ano em questão, mas olha, apesar de ter essa intenção, apenas agora se proporcionou. Como as listas já saíram todas, e eu não ouvi assim tantos álbuns novos em 2015, decidi fazer apenas um pequeno resumo do meu ano musical. Os meus destaques vão para:
- o regresso do Senhor Sufjan Stevens, 5 aninhos depois da sua última obra-prima "The Age of Adz" (que por sua vez também tinha saído 5 anos após a obra-prima "Come on Feel the Illinoise"), com um dos álbuns mais honestos que os meus ouvidos puderam escutar - "Carrie & Lowell". Álbum biográfico, analisando a relação conturbada com a sua mãe (que pelo relato não foi grande mãe), afecta-nos como um verdadeiro murro no estômago. Canções fabulosas como Should Have Know Better (e quem pode ficar indiferente a uma frase como "when I was three, three maybe four, she left us at the video store...", ver o resto da música para entenderem a criatura espantosa que deve ser este senhor), a magistral The Only Thing (sim, todos vocês sabem como facilmente atribuo o título de melhor de sempre a uma canção, e apesar de o achar sempre, considero facilmente esta canção mesmo uma das mais belas canções compostas na história humana - já aqui escrevi sobre isto), onde desde a letra ("Do I care if I survive this? Bury the dead where they're found. In a veil of great surprises: I wonder did you love me at all?") aos arranjos, tudo se conjuga para a tornar inesquecível, No Shade in the Shadow of the Cross, Fourth of July, Blue Bucket of Gold...enfim, o álbum é fantástico. Quem ainda não o ouviu, façam-me esse favor. Depois não precisam de agradecer.
- Currents, o terceiro álbum dos Tame Impala. Os Tame Impala não são apenas compostos pelo Kevin Parker, mas todos sabemos que ele é o motor daquilo. E ao terceiro álbum, e se embora a forma de compor se mantém lá toda, assim como o psicadelismo, a sonoridade tornou-se diferente. Alguns acharam de mau gosto, que se tornou azeiteiro, que se vendeu. Eu gostei. A música ficou mais dançável, mais suave, mais melosa também. Mas a identidade, a essência mantém-se intacta. E continua a ter apontamentos de génio. Ouça-se The Less I Know the Better, Let It Happen, Yes I'm Changing ou New Person/Same Old Mistakes (diálogo fenomenal sobre as vicissitudes de estar apaixonado de novo, após uma verdadeira desilusão amorosa). Não é um álbum imediato, mas depois de se estranhar, entranha-se. Vemo-nos dia 8 de Julho no Alive.
- A minha Courtney Barnett. Sometimes I Sit and I Think, Sometimes I Just Sit. Não o fazemos todos? Possuidora da minha idade (mais coisa menos coisa), já no EP ela parecia entender-me. Continua a entender-me. E confirmou a grande escritora de canções que é. Depreston é uma canção honesta, sobre as dificuldades actuais da juventude. Pedestrian at Best é rock do bom ("put me on a pedestal and I''ll only disappoint you, Tell me I'm exceptional, I promise to exploit you"), Boxing Day Blues, Nobody Really Cares if I Don't Go to the Party, An Illustration of Loneliness...Estreia em álbum mais que superada. Também nos vemos dia 8 de Julho.
Mais coisas havia a referir (Hop Along, Kurt Vile, Waxahatchee, Father John Misty, Tobias Jesso Jr.) mas não vos quero maçar muito.
Em termos de música ao vivo:
- Presenciar a festa irrepetivel que Konono n.º 1 e Batida montaram no Lux. Quase que me sentia em Kinshasa sem fazer ideia do que Kinshasa seja - ainda tenho a electricidade toda no corpo e a minha anca não para de se mexer;
- A peregrinação anual ao Parque da Cidade para a celebração do Primavera Sound e tudo o que de lá trago todos os anos. As saudades começam na viagem para o Porto. Ouvir a Senhora Patti Smith a discursar como se estivéssemos no CBGB, sentir-me parte de qualquer coisa que não sei explicar. Estou a escrever e arrepio-me todo do que vivi nessa tarde. Ver tocado o Horses na íntegra, sem parecer datado, é algo para contar aos netos (se os chegar a ter). Nunca pensar conseguir ver os RIDE ao vivo. Foi como se nunca tivessem parado. Vapour Trail, Polar Bear, Leave Them All Behind, Dreams Burn Down...ai que distorção tão boa. O festão que os JUNGLE montaram a fechar a 2ª noite. Cada vez que penso, dou por mim de braços no ar, a dançar que nem um maluco. Memorável. Finalmente ver os Death Cab for Cutie. E recear que já viessem fora de prazo, mas a provarem precisamente o contrário. E fecharem o concerto com a Transatlanticism (suspirei agora). Belle and Sebastian. E tanta outras coisas. Sun Kill Moon (weird mas bom), Ought (e imaginar o outro cromo a querer fazer crowd surf e a vazar uma vista ao outro, e este a ficar cheio de sangue e os amigos a cagarem para ele e a continuarem a curtir o som), Antony & The Johnsons, FKA Twigs, Twerps, Damien Rice, Thurston Moore...Já não falta tudo;
- O sentir que o Alive (parece que mudou um pouco de direcção para 2016) está demasiado grande para mim, que o seu palco principal tem dado cabo do que podiam ser momentos únicos, mas que continua a ter sempre uma mão cheia de boas propostas. Mumford&Sons provaram-me que se tornaram maiores do que realmente são (mas o primeiro álbum ainda deixa uma saudade). James Blake já merecia uma vinda em nome próprio a Portugal (consegue transformar electrónica cerebral em electrónica dançável de qualidade) após mais um grande concerto. Future Islands e as suas Spirit e Vireo's Eye (ainda melhor do que em álbum) a fecharem o concerto. Capicua e Batida a mostrarem como são mesmo bons. Mogwai a fritarem-me os ouvidos todos (tão bom!), sem descanso algum para se deliciarem com Just Like Honey dos Jesus & Mary Chain. A tristeza por Chet Faker não ter sido tão bom quanto queria, não por sua culpa, mas por ali não ser o sítio certo. Mas Disclosure a compensarem, transformando o recinto numa discoteca com bola de espelhos imaginária. Não foi um Alive mau de todo;
- Ter visto as minhas Angel Olsen e Cat Power pela primeira vez ao vivo;
- O portento que foi a estreia de Iron&Wine. Memorável por tudo: a sessão de discos pedidos (não é que lhe pedi três e ele as tocou?), começar com a Upward Over the Mountain, entoar a Trapeze Singer daquela maneira, praticamente à capela (eu queria que lá tivessem estado para perceberem o quão especial foi), a sua simpatia, e tudo o resto que se seguiu depois;
- Os Beach House, não muitos dias depois do que aconteceu em Paris.
Certamente que me estou a esquecer de muita coisa, e a não conseguir expressar da melhor maneira o que vivi, ou porque foi ou não especial para mim. São apenas algumas das memórias que guardarei de 2015. No fundo, a vida não é isso, memórias?
2016 já está em velocidade de cruzeiro. Acompanhem-no. Promete ter muita e boa música.
- o regresso do Senhor Sufjan Stevens, 5 aninhos depois da sua última obra-prima "The Age of Adz" (que por sua vez também tinha saído 5 anos após a obra-prima "Come on Feel the Illinoise"), com um dos álbuns mais honestos que os meus ouvidos puderam escutar - "Carrie & Lowell". Álbum biográfico, analisando a relação conturbada com a sua mãe (que pelo relato não foi grande mãe), afecta-nos como um verdadeiro murro no estômago. Canções fabulosas como Should Have Know Better (e quem pode ficar indiferente a uma frase como "when I was three, three maybe four, she left us at the video store...", ver o resto da música para entenderem a criatura espantosa que deve ser este senhor), a magistral The Only Thing (sim, todos vocês sabem como facilmente atribuo o título de melhor de sempre a uma canção, e apesar de o achar sempre, considero facilmente esta canção mesmo uma das mais belas canções compostas na história humana - já aqui escrevi sobre isto), onde desde a letra ("Do I care if I survive this? Bury the dead where they're found. In a veil of great surprises: I wonder did you love me at all?") aos arranjos, tudo se conjuga para a tornar inesquecível, No Shade in the Shadow of the Cross, Fourth of July, Blue Bucket of Gold...enfim, o álbum é fantástico. Quem ainda não o ouviu, façam-me esse favor. Depois não precisam de agradecer.
- Currents, o terceiro álbum dos Tame Impala. Os Tame Impala não são apenas compostos pelo Kevin Parker, mas todos sabemos que ele é o motor daquilo. E ao terceiro álbum, e se embora a forma de compor se mantém lá toda, assim como o psicadelismo, a sonoridade tornou-se diferente. Alguns acharam de mau gosto, que se tornou azeiteiro, que se vendeu. Eu gostei. A música ficou mais dançável, mais suave, mais melosa também. Mas a identidade, a essência mantém-se intacta. E continua a ter apontamentos de génio. Ouça-se The Less I Know the Better, Let It Happen, Yes I'm Changing ou New Person/Same Old Mistakes (diálogo fenomenal sobre as vicissitudes de estar apaixonado de novo, após uma verdadeira desilusão amorosa). Não é um álbum imediato, mas depois de se estranhar, entranha-se. Vemo-nos dia 8 de Julho no Alive.
- A minha Courtney Barnett. Sometimes I Sit and I Think, Sometimes I Just Sit. Não o fazemos todos? Possuidora da minha idade (mais coisa menos coisa), já no EP ela parecia entender-me. Continua a entender-me. E confirmou a grande escritora de canções que é. Depreston é uma canção honesta, sobre as dificuldades actuais da juventude. Pedestrian at Best é rock do bom ("put me on a pedestal and I''ll only disappoint you, Tell me I'm exceptional, I promise to exploit you"), Boxing Day Blues, Nobody Really Cares if I Don't Go to the Party, An Illustration of Loneliness...Estreia em álbum mais que superada. Também nos vemos dia 8 de Julho.
Mais coisas havia a referir (Hop Along, Kurt Vile, Waxahatchee, Father John Misty, Tobias Jesso Jr.) mas não vos quero maçar muito.
Em termos de música ao vivo:
- Presenciar a festa irrepetivel que Konono n.º 1 e Batida montaram no Lux. Quase que me sentia em Kinshasa sem fazer ideia do que Kinshasa seja - ainda tenho a electricidade toda no corpo e a minha anca não para de se mexer;
- A peregrinação anual ao Parque da Cidade para a celebração do Primavera Sound e tudo o que de lá trago todos os anos. As saudades começam na viagem para o Porto. Ouvir a Senhora Patti Smith a discursar como se estivéssemos no CBGB, sentir-me parte de qualquer coisa que não sei explicar. Estou a escrever e arrepio-me todo do que vivi nessa tarde. Ver tocado o Horses na íntegra, sem parecer datado, é algo para contar aos netos (se os chegar a ter). Nunca pensar conseguir ver os RIDE ao vivo. Foi como se nunca tivessem parado. Vapour Trail, Polar Bear, Leave Them All Behind, Dreams Burn Down...ai que distorção tão boa. O festão que os JUNGLE montaram a fechar a 2ª noite. Cada vez que penso, dou por mim de braços no ar, a dançar que nem um maluco. Memorável. Finalmente ver os Death Cab for Cutie. E recear que já viessem fora de prazo, mas a provarem precisamente o contrário. E fecharem o concerto com a Transatlanticism (suspirei agora). Belle and Sebastian. E tanta outras coisas. Sun Kill Moon (weird mas bom), Ought (e imaginar o outro cromo a querer fazer crowd surf e a vazar uma vista ao outro, e este a ficar cheio de sangue e os amigos a cagarem para ele e a continuarem a curtir o som), Antony & The Johnsons, FKA Twigs, Twerps, Damien Rice, Thurston Moore...Já não falta tudo;
- O sentir que o Alive (parece que mudou um pouco de direcção para 2016) está demasiado grande para mim, que o seu palco principal tem dado cabo do que podiam ser momentos únicos, mas que continua a ter sempre uma mão cheia de boas propostas. Mumford&Sons provaram-me que se tornaram maiores do que realmente são (mas o primeiro álbum ainda deixa uma saudade). James Blake já merecia uma vinda em nome próprio a Portugal (consegue transformar electrónica cerebral em electrónica dançável de qualidade) após mais um grande concerto. Future Islands e as suas Spirit e Vireo's Eye (ainda melhor do que em álbum) a fecharem o concerto. Capicua e Batida a mostrarem como são mesmo bons. Mogwai a fritarem-me os ouvidos todos (tão bom!), sem descanso algum para se deliciarem com Just Like Honey dos Jesus & Mary Chain. A tristeza por Chet Faker não ter sido tão bom quanto queria, não por sua culpa, mas por ali não ser o sítio certo. Mas Disclosure a compensarem, transformando o recinto numa discoteca com bola de espelhos imaginária. Não foi um Alive mau de todo;
- Ter visto as minhas Angel Olsen e Cat Power pela primeira vez ao vivo;
- O portento que foi a estreia de Iron&Wine. Memorável por tudo: a sessão de discos pedidos (não é que lhe pedi três e ele as tocou?), começar com a Upward Over the Mountain, entoar a Trapeze Singer daquela maneira, praticamente à capela (eu queria que lá tivessem estado para perceberem o quão especial foi), a sua simpatia, e tudo o resto que se seguiu depois;
- Os Beach House, não muitos dias depois do que aconteceu em Paris.
Certamente que me estou a esquecer de muita coisa, e a não conseguir expressar da melhor maneira o que vivi, ou porque foi ou não especial para mim. São apenas algumas das memórias que guardarei de 2015. No fundo, a vida não é isso, memórias?
2016 já está em velocidade de cruzeiro. Acompanhem-no. Promete ter muita e boa música.
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