sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

2014


2014 está quase a acabar. A história é sempre a mesma - parece que passou a correr. Sim, parece. Teve coisas boas, coisas más, coisas interessantes, coisas desanimadoras. Coisas. Ninguém sabe se lá chega, mas toda a gente espera que 2015 possa ser melhor. Eu também espero, sinceramente. Para todos.

Já quase toda a gente decidiu quais foram os melhores álbuns, músicas, concertos e afins de 2014. Eu acho que não tenho autoridade nenhuma para dizer quais foram os melhores álbuns do ano (embora saiba perfeitamente quais são, os do ano e os de sempre...), por isso deixo apenas as minhas escolhas deste ano.

Álbuns que não me saem da cabeça desde que os ouvi

1. "Lost in the Dream" - The War on Drugs
Não o guardei, mas lembro-me perfeitamente de ler o artigo que o Ípsilon fez na altura, aquando do lançamento. Começavam por imaginar como seria juntar guitarradas mais "azeiteiras" dos Dire Straits, com fases não tão boas do Bruce Springsteen, com Fleetwood Mac, e mais umas quantas coisas.  À partida, tinha tudo para correr mal, para ser um álbum de gosto duvidoso. Mas não. É um álbum sublime. Na minha óptica, é algo como Bruce Springsteen meets My Bloody Valentine meets Bob Dylan. É fabuloso. São canções com sentido de estádio, com camadas e camadas de som por trás, com letras intimistas, cantadas por alguém que não é cantor, o que só acrescenta profundidade à coisa. Desde que o ouvi pela primeira vez, na Radar, acho que o oiço, em partes, ou na totalidade, quase todos os dias. "Red Eyes" é a melhor canção comercial de sempre, "An Ocean in Between the Waves", com quase 8 minutos, é hipnotizante (por mim podiam ser mais 8, que de cansativa não tem nada), e "Burning", a canção que para mim devia concluir o álbum, onde Adam expia todos os seus demónios, uma canção de esperança pessoal para alguém que tem dificuldade em viver com esperança. Um clássico imediato.

2. "Are We There" - Sharon Van Etten
Está em n.º 2, mas podia estar em n.º 1. A ordem não é importante. É simplesmente um álbum do coração. A Sharon canta sempre com a faca na garganta, sempre dividida entre a sua vida pessoal e a sua vida profissional (não são elas quase impossíveis de separação?). Este seu quarto álbum é, provavelmente, o seu melhor, à custa da preferência pela vida profissional. Canta todos os seus desamores, a incompreensão por parte do seu parceiro, o amor. Sempre o amor. É um álbum de canções de fazer chorar qualquer um, de canções de fazer gritar qualquer um, de canções de hipnotizar qualquer um. "Your Love is Killing Me" é capaz de ser a canção mais pesada que Sharon já fez, e cantada por outra pessoa seria apenas uma canção a pedir melodramismos, provavelmente nem sentidos. Na voz de Sharon, é a canção de desamor mais forte de sempre, e a mais sincera. Mas no mesmo patamar tem "Our Love", "Afraid of Nothing", "Break Me" ou "Every Time the Sun Comes Up". Também o ouvi pela primeira vez na Radar, e desde aí, também não passa um único dia sem ouvir pelo menos uma das suas músicas. Sharon, casa comigo. Eu dou-te liberdade para continuares a cantar.

3. "Cavalo" - Rodrigo Amarante
Não sei se se pode chamar música brasileira ao que o Rodrigo Amarante tem feito. Desde que deixou os Los Hermanos, passou a ser um cidadão do mundo. Little Joy, Orquestra Imperial, Devendra Banhart, entre outros, são apenas algumas das ocupações do Rodrigo. Mas nenhuma suplanta a obra-prima que criou com este "Cavalo". Cantado em inglês, português e francês, não se resume ao violão, mas tem caixas de ritmos, teclados, alguma percursão, e, acima de tudo, letras fenomenais. É um álbum melancólico, introspectivo, cantado com voz levemente embriagada. "Tardei" é bem capaz de ser uma das mais belas canções escritas em português ("Tardei, tardei, tardei, mas cheguei enfim..."), mas o mesmo se podia aplicar a "Irene" ("Saudade, eu te matei de fome..."). "Maná" é samba para os nossos ouvidos e "Hourglass" é Amarante a brincar à pop de laivos electrónicos. Resumindo, é um álbum do caraças.

4. "Here and Nowhere Else" - Cloud Nothings
É um álbum de porrada. Ponto. Sim, já não é o punk do antigamente, aqui e ali adocicado com toques pop, mas não deixa de ser um álbum de porrada. O anterior "Attack on Memory" já o ameaçava ser, mas é com este que Dyla Baldi concretiza o que andava à procura a já algum tempo. "I'm Not Part of Me" é a melhor canção sobre uma relação mal acabada de sempre, para ser cantada a plenos pulmões e aos encontrões a outros, "Psychic Trauma" é curta e grossa, começando lenta, para depois fazer dos 0-100 em 3 segundos, e não mais tirar o pé do acelerador, "Pattern Walks" tem uma linha de baixo como à muito não se via, e um anti-refrão pegadiço ("Pattern walks, pattern walks, pattern walks in the moon tonight...", um baterista incansável durante todo o álbum. Enfim, a juventude a cantar a desgraça do seu dia a dia. Porrada da boa, digamos.

5. "Held in Splendour" - Quilt
Quem são os Quilt? Nem eu sei ainda muito bem. Têm dois álbuns, são americanos, e conheci-os através do Ípsilon. E a vocalista é tão bonita que me faz ser tendencioso. E são a minha nova banda favorita, É um álbum com sons de antigamente, cheio de electricidade, folk psicadélica, rock. Um docinho, digamos. Canções cheias de brilho, reluzentes, bonitas. A voz melodiosa da vocalista, guitarradas a acelerar por aí a fora, bateria a marcar o ritmo como um relógio. Um disco dos 60's nos 10's. E são tantas e boas canções, que destaco a "Tie Up the Tides", a lembrar-nos que somos todos crianças, e que devemos viver o nosso próprio tempo ("Ohh Child, you keep living that way, in your own time"), "A Mirror", que me faz querer saber tocar guitarra, "Saturday Bride", com avanços e recuos, e o pezinho sempre a bater, e tantas outras. Vemo-nos por aí, sim, dudes?


Mais bandas mereciam aqui um destaque, como a Angel Olsen, Future Islands, B Fachada, Sun Kill Moon, Real Estate, Capicua, Sensible Soccers, Batida, Parquet Courts, entre muitos outros. Um obrigado para eles.


Canções que entram directamente para a galeria de "As melhores de sempre"

Your Love is Killing Me - Sharon Van Etten
Burning - The War on Drugs
Future Islands - Spirit
Tie Up the Tides - Quilt
I'm Not Part of Me - Cloud Nothings
Springful - Adult Jazz
Queen - Perfume Genius
Black and White - Parquet Courts
Mr. Noah - Panda Bear
Tardei - Rodrigo Amarante
Real Estate - Talking Backwards
Angel Olsen - Hi-Five
Cornerstone - Benjamin Clementine


Concertos e momentos que até podem não ter sido os melhores de sempre, mas que entram para a minha galeria de memórias

Primavera Sound no Porto, ou como um festival pode ser um dos meus pontos altos do ano. De ano para ano fica cada vez melhor, a envolvente dá gosto só por si, o ruído publicitário é quase nulo (que festival tem por brindes um saco que é uma toalha de picnic, ou dá algodão doce?) e os momentos épicos são mais que muitos - conhecer o Rodrigo Amarante antes deste me embalar os ouvidos, quase verter uma lágrima ao ver os Neutral Milk Hotel, dançar com a lenda viva que é Caetano Veloso, os braços no ar e os "woo woo's" que o hip-hop do salvador Kendrick Lamar pediu, acompanhar as guitarradas do "Marquee Moon" dos Television com tiroliroliros, como se 2014 fosse 1977, desbundar desenfreadamente com os Pond e a Courtney Barnett, o ataque sonoro aos meus ouvidos de "Souvlaki Space Station" dos Slowdive (sim! os Slowdive!), a dança em Darkside, cantar como se fosse o Matt Berninger do principio ao fim ao som dos National, a "Breadcrumb Trail" dos Slint (sim! os Slint!) acompanhada só da cintura para cima, a porrada em Cloud Nothings a fechar 3 dias fantásticos como só o Primavera e o Porto nos sabem dar. Sim, o Primavera é o melhor festival do mundo. Em 2015, no que depender de nós, lá estaremos.

Rodrigo Amarante x2, no Primavera do Porto e no Palácio Sinel de Cordes, em Lisboa. Podiam ter sido dois concertos iguais, mas foram totalmente diferentes. O de Lisboa foi acústico, e foi como tê-lo no quintal a cantar para mim. A "Um Milhão" ainda hoje me está no ouvido. Foi um dos melhores concertos a que fui de sempre, com um público exemplar, e um artista que é um artista à antiga. Sem artifícios, apenas honestidade. Obrigado, ZdB, pela ocasião e o sítio especial.

Arcade Fire no Rock in Rio. Sim, foi no Rock in Rio e o som foi péssimo, ao ponto de quase o estragar. Mas isso não os impediu de darem uma lição de espectáculo, sem para isso necessitarem de ter coreografias, gajas semi-nuas ou vídeos chocantes. Basta-lhes as canções maiores que a vida, os coros em uníssono, a voz da Regine, os múltiplos instrumentos. A "Wake Up" a fechar. Sim, estava feliz naquele dia.

Vodafone Mexefest pela primeira vez. Estar frente a frente com a Sharon, a sua voz melodiosa, a sua presença encantadora, o seu humor, uma sequência de músicas brutal com "Give Out" pelo meio. Os Cloud Nothings pela segunda vez, sendo a sessão de porrada maior do que no Primavera, o gritar como se não houvesse amanhã, e com o bónus de ter a "No Future/No Past". O concerto de Capicua, a mostrar como as mulheres também podem cantar hip-hop sem terem de andar todas nuas, e como conseguem de ter mais conteúdo que a maior parte dos homens. Os King Gizzard & The Lizard Wizard em sessão xamã, a encantarem-nos enquanto levamos empurrões de todo o lado, ou como não é preciso ácidos para triparmos. A editora Príncipe a martelar-nos as ancas. As salas fantásticas que não fazia ideia que existiam, e que só por si merecem uma visita (Sociedade de Geografia de Lisboa, Palácio Foz, Casa do Alentejo, Ateneu de Lisboa). A repetir.

Os Sobreviventes, no Lux, pela mão do B Fachada, Francisca Cortesão e João Correia, a celebrar, a 25 de Abril de 2014, 40 anos de 25 de Abril. Foi como se eu lá também estivesse em 1974.

Cass McCombs na ZdB, num concerto surpresa dias depois de ter tocado no Alive. Foram 2h30 de génio musical, a percorrer os seus inúmeros álbuns, com direito a participação especial de Norberto Lobo, a "Harmonia" sussurrada para uma sala cheia, a improvisos vários, com um calor do caraças. Um concerto porque se quer tocar e não porque se tem de tocar. Foi como se tivéssemos nos anos 90, num concerto de banda de garagem.


Notícias em 2014 que terão consequências em 2015

Não há como não destacar - o Super Bock Super Rock vai deixar de ser no Meco. Quem, como eu, prometeu que nunca mais lá ia enquanto fosse naquele sítio, apesar de ter sido sempre muito tentado (The Shins, Cat Power, Lana del Rey, The Killers, Tame Impala...) só pode ser boa notícia. Vamos ver se a emenda não é pior que o soneto, mas para já é uma boa notícia. Para os meus gostos, não começam por aí além (pois acho que não será o melhor cartão de visita Florence&The Machine ser apresentada como cabeça-de-cartaz, e eu até gosto moderadamente dela, mas...), mas já ganharam pontos do meu lado.

O Alive a anunciar Jesus and Mary Chain a tocarem na íntegra o "Psychocandy", ou como me obrigarem a lá ir, mesmo que o resto não interesse ao menino Jesus. O resto continua meio esquisito, como o Alive nos habituou nos últimos tempos. Ora anunciam Future Islands, ora Sheppard (quem?). Ora chutam Dead Combo, ora Kodaline (quem?). Mas é esperar para ver. Se conseguirem um palco secundário como o que apresentaram num dos dias deste ano (The War on Drugs, Cass McCombs, Chet Faker, Paus, Nicolas Jaar...), já não é mau.

Sobre o Primavera falaremos mais tarde, mas para já, com apenas dois nomes, e já nem posso esperar.

As Sleater-Kinney a lançarem novo álbum 10 anos depois do último e brilhante "The Woods". E aposto que nos fazem uma visita. José Gonzalez a fazer o mesmo (e este vem mesmo cá em Fevereiro). The XX. Radiohead. Belle&Sebastian. Bons motivos não devem faltar para ouvir música.


No que toca à música, todos os anos deixam saudades. 2014 não é excepção. Foi ano de boa colheita, não foi?

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Burguesinhas

Sempre gostei de "desvirtuar" as letras das minhas músicas preferidas, tentando fazer com que parecessem ser escritas para mim. Na verdade, acho que faço isso com quase tudo. Gosto de colocar palavras na boca das outras pessoas, normalmente para tentar ouvir aquilo que quero (e na maior parte das vezes, nem são coisas boas). É um dos muitos defeitos que tenho.

Hoje desvirtuo a última estrofe da "Re: Stacks", que de certeza não foi escrita pelo Justin a pensar nas minhas burguesas. Acho que de alguma forma, nunca lhes terei dito tudo aquilo que elas merecem ouvir, e sempre achei que os outros conseguem pôr melhor por palavras aquilo que quero dizer. Obrigado fofinhas.



This is not the sound of a new man or a crispy realization
It's the sound of the unlocking and the lift away
Your love will be safe with me...
in Re.: Stacks
Bon Iver

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Vodafone Mexefest 2014 - Uma espécie de Primavera no Inverno - Parte 2

Depois de um primeiro dia com excelentes concertos, seguia-se um segundo dia que, para mim, se resumia ao facto de actuar a Sharon Van Etten.

Dia 2 - 29 de Novembro

Planeava chegar mais cedo do que acabei por chegar. Escusado será dizer que não consegui ver a Johanna Glaza na Igreja de São Luís dos Franceses, e segundo o que soube esteve completamente lotada. Ainda, pensava eu, chegava a tempo de ver Os Modernos (que mais não são que uns Capitão Fausto ainda mais galhofeiros e sem dois elementos) no Ginásio do Ateneu, mas o concerto acabou pelo menos 20 minutos antes do que estava mencionado no programa (talvez devido à narsa que apanharam na véspera...). Não havia tempo para ir ver mais nada antes da Sharon, e decidi seguir para o Coliseu uns 20 minutos antes da hora prevista para o início. Acho que fiz bem, pois deu para descansar as pernas e ganhar um bom lugar para ver o concerto que mais queria.

Às 21h30 lá se apagam as luzes e entra Sharon Van Etten e os quatro elementos da sua banda (três meninos e uma menina). Cedo deu para perceber que estava muita gente ali para a ver, tantos eram os piropos que lhe eram enviados. Também se conseguiu perceber que o concerto seria centrado no último (e belíssimo) álbum, Are We There. Tal como no álbum, começou com essa linda canção que é "Afraid of Nothing", com a sua voz doce, clemente, quase a pedir perdão. O Coliseu fez silêncio para ser embalado por ela. Seguiu com "Taking Chances", segunda canção do disco e primeiro single. Se em disco as suas canções são sobre dor, (des)amores, frustrações, ao vivo Sharon é uma rapariga muito bem disposta, expontânea e natural. Sempre com a resposta na ponta da língua, soube responder a todos os comentários. Quando alguém lhe diz "your love is killing me", título de uma das canções mais poderosas do ano, responde "I'm sorry!"; quando outro lhe diz "I wonna have your babies", ela responde "You want to have my babies? Is that scientifically possible? Wow Portugal is on the front!". Pergunta a todos se estão ali para a ver, e fica espantada quando um dos presentes tem escrito na cara o seu nome. Confessa que foi a primeira vez que lhe aconteceu, e que é uma "lucky girl" pela banda que tem.

No entanto, quando se atira às suas canções, logo ganha a seriedade que caracteriza a sua escrita e composição. Toca "Save Yourself", do seu segundo álbum, atinge um dos pontos altos do concerto com "Break Me" e toca uma canção inédita, que deverá sair como b-side num próximo single "I don't want to let you down", uma canção a lembrar as canções de "Tramp", com direito a solo de guitarra e tudo. Eu gostei. A sequência final foi avassaladora: "Give Out", "Your Love is Killing Me" e a terminar "Every Time the Sun Comes Up", a expor os conflitos entre amor e carreira. A sua voz esteve sempre no ponto, a banda e muito competente, e conseguiu sempre passar o sentimento das suas canções para o público. Cativou pela sua simpatia e simplicidade, pela sua beleza e genuinidade. Sharon, my dear, casas comigo?

Terminado o concerto de uma hora (ainda hoje não entendo o porquê de uma das cabeças de cartaz tocar tão pouco tempo), um Coliseu praticamente cheio esvaziou para os próximos concertos. Grande parte deve ter escolhido os Cloud Nothings, tal era o tamanho da fila para o Ginásio do Ateneu. Fiz uma coisa de que não me orgulho, e furei aquela fila toda. Devo, ainda assim, ter perdido umas três músicas, entre as quais "Stay Useless" e "Psychic Trauma", duas das minhas preferidas. Entrado no Ginásio, lá começou a sessão de espancamento dos meus ouvidos. A música dos Cloud Nothings já é de si agressiva; a acústica (ou falta dela) do Ginásio fez o resto. As vozes não se distinguiam, as guitarras estavam mais distorcidas e estridentes do que era suposto, entre outros problemas. Isso não conseguiu, ainda assim estragar o concerto. Um baterista incessante, um Dilan habituado a cantar das vísceras e um baixista muito competente fizeram deste segundo concerto em 2014 dos Cloud Nothings em Portugal (já tinham tocado no Primavera) um concerto novamente vencedor. Em relação ao anterior, apresentaram algumas alterações na setlist, por exemplo com a inclusão desse portento que é "No Future/No Past", cantado a plenos pulmões por muitos dos presentes. Não faltou também "Pattern Walks" e muito menos "I'm Not Part of Me", com uma sessão de mosh em simultâneo com um coro enorme de todos. Bandas destas podem vir as vezes que quiserem. Está ganho à partida.

Depois de Cloud Nothings, para onde ir? O objectivo era seguir para Palma Violets, na Estação do Rossio, mas os relatos de que estaria cheio acabaram por nos levar ao Palácio Foz, a fim de se visitar o local e dançar mais um pouco ao som dos ritmos africano de Meu Kamba Soundsystem. E ainda bem que assim foi. Ficou-se a conhecer mais um palácio (sim aquilo é mesmo um palácio, luxuosamente decorado e tudo!) e mais um projecto interessante, que revisita clássicos antigos e outros menos conhecidos de muita e boa música africana (funanás, sembas, kuduro...). Não ficámos até ao fim para ganhar local no Coliseu, para ver Wild Beasts. Não foi tanto por se querer ver a banda (a curiosidade havia, mas pouco mais que isso), mas mais por, durante cerca de uma hora, não haver alternativa à mesma. O Coliseu, como esperava, encheu por completo. O concerto acabou por ser interessante, apesar do péssimo som, mas deu para ver a admiração que existe por cá por estes ingleses. Com um som melancólico, algo de Depeche Mode e anos 80, e com duas vozes poderosas (uma mais grave, outra mais aguda), mostraram-se agradecidos pela recepção que tiveram, com muitos brindes com vinho e muitos "obrigados". Não deixa de ser digno de nota as inúmeras canções "conhecidas" que já têm, mesmo para os que, como eu, não os seguem.

Ainda daria para ver Dengue Dengue Dengue ou Branko, mas o cansaço era já algum e as pernas não estavam a colaborar para a dança. O meu Vodafone Mexefest chegava assim ao fim, depois de dois dias de muitos e bons concertos.

Vodafone Mexefest 2014 - Uma espécie de Primavera no Inverno - Parte 1

Foi a primeira vez que fui ao Vodafone Mexefest. Não que antes não quisesse ter ido, mas por uma razão ou outra nunca tinha sido possível. A edição deste ano, e sem ter presente a primeira edição ainda como Super Bock em Stock (se bem me lembro, conseguiu as estreias em Portugal de Walkmen, Lykke Li, Santigold, El Perro del Mar...), foi, na minha opinião, uma das melhores de sempre em termos de cartaz. Estava bem equilibrado em termos de nomes nacionais e internacionais, era ecléctico e tinha nomes "desconhecidos" e alguns já consagrados (dentro do meio). No meu caso, bastava saber que o cartaz contava com a Sharon. Aqui fica a minha visão da edição 2014.

Dia 1 - 28 de Novembro

Algo que fiquei a descobrir com o primeiro concerto a que assisti foi que o Mexefest é um festival que, para além dos nomes apresentados, vale pelas salas onde estes tocam. Subi ao 2º andar da Sociedade de Geografia de Portugal e logo fiquei maravilhado. Até podiam estar a tocar os Beatles que acho que não teria reparado, de tão bela que é a sala. Depois do impacto inicial, lá me sentei para ver Ana Cláudia. Não fosse o Mexefest e a sala em questão e provavelmente ainda levaria um tempinho a ouvir falar dela. Com um 1º álbum acabado de sair, "De Outono", Ana Cláudia é dona de uma voz doce, encorpada, e consegue mesclar batidas electrónicas com momentos de silêncio, a fazer lembrar um James Blake ou uma Bjork. As letras pareceram-me bastante interessantes, confirmou as influências de Bjork pela versão que dela fez e ainda me deu a conhecer a música "João e o Pé de Feijão" do brasileiro Cícero. A ouvir com mais atenção.

Depois de uma pausa para retemperar forças através de um panado no pão e uma imperial, que levou mais tempo que o pretendido, foi tempo de usufruir do serviço de shuttles que a organização colocou à disposição do público para subir até ao Cinema São Jorge. Era hora de Capicua. 2014 foi sem dúvida um ano de excepção para Ana Matos, verdadeiro nome de Capicua: lançou um belíssimo segundo álbum, teve concertos por todo o país, incluindo nos principais festivais, e conseguiu a proeza de ter um "hino" sabido por todos como "Vayorken". Este concerto seria, portanto, um culminar do seu ano. O concerto começa com uma gravação de Capicua a explicar a origem do álbum "Sereia Louca" (o tal sonho da sereia que queria comprar sapatos, e que lhe diz coisas estranhas ao ouvido), e lá entram Capicua, e os seus acompanhantes em palco M7 e D-One, para se atirarem a essa mesma canção. Com os visuais a serem feitos em tempo real (a ilustrar os temas das suas canções), Capicua atira-se sem dó nem piedade às suas músicas. Estas ora são baseadas na sua própria vida ("Casa no Campo", a bonita canção com "participação" especial de Elis Regina, e "Vayorken", são disso exemplos") ora em aspectos na ordem do dia-a-dia ("Jugular", "Medo do Medo" - dita sem necessidade de recuperar o fôlego - e "Pedras da Calçada" são monumentos à situação do nosso país, "A Mulher do Cacilheiro" expõe a vida difícil de uma mulher de modo magistral - é pura poesia). O concerto serviu também como forma de homenagear as mulheres, tal como já acontecia no álbum, e por isso o uso de pelo menos três bailarinas, ora a dançar ballet, dança mais contemporânea ou até a dança do varão. Pelo meio a participação no concerto de duas mulheres que também participaram no disco, e que duas mulheres! Primeiro foi Gisela João, em "Soldadinho", e depois Aline Frazão, em "Lupa". Donas de vozes do tamanho do mundo, só serviram para abrilhantar ainda mais o concerto. Capicua não é uma rapper qualquer, é uma rapper com bom gosto, verdadeira, sem necessidade de recurso a outros artifícios para se fazer ouvir. As suas músicas e letras falam por si, e o excelente concerto que deu também. A sala cheia do São Jorge foi prova disso. És a maior, Ana!

Avenida abaixo para o próximo concerto e o previsto seria Shura, na Casa do Alentejo. Acabei por ir parar ao Ginásio do Ateneu Comercial de Lisboa para ver a estreia de Pharoahe Monch em Portugal, rapper do underground americano dado aos problemas sociais, muito critico do circo que se tornou o hip-hop americano. Quem diria que na rua do coliseu havia um ginásio com cestos de basket e tudo, e com um mural gigante do MFA. Melhor local seria difícil para este concerto. O problema é que um espaço daqueles tem muitos (para ser meiguinho) problemas de som. Ele ecoa e é muito estridente, ou seja, não se percebeu grande coisa do que Pharoahe Monch disse. Dá para perceber que é um rapper a sério, a debitar rimas que saem de dentro, da sua vida (o senhor veio de Queens, NY), e que não se deixa comprar. A referir que o senhor DJ que o acompanha não lhe faz jus, quebrando muitas vezes o ritmo, muitos pregos, etc. Ainda assim, quem lá esteve (Fred Ferreira dos Orelhas Negra e afins andava por lá) sentiu-se num verdadeiro concerto de hip-hop, como ele era no início.

Não fiquei até ao fim, pois queria aproveitar a estreia de King Gizzard & The Lizard Wizard, na Garagem da EPAL. Mais uma vez, acho que melhor sitio não haveria para aquele concerto. Estes australianos (a Austrália dá cartas por estes dias com nomes fantásticos como Tame Impala e Pond) são talvez um cruzamento da vertente mais "alegre" dos Pond com o pé pesado dos Thee Oh Sees, com composições longas de psicadelismo e rock'n'roll, duas baterias perfeitamente sincronizadas, umas três guitarras, um baixo, e uma harmónica alterada. Foi um concerto daqueles transpirados, de air guitar, de fechar os olhos e embalar para Saturno, de mosh e algum crowdsurf. Foi, na minha opinião, um dos concertos do festival, e espero que voltem em breve.

A editora Príncipe engalanou-se e apresentou um showcase do melhor que tem trazido ao mundo - ritmos africanos actualizados para o século XXI, batidas incessantes, corpos irrequietos. O Salão Nobre do Ateneu transformou-se em discoteca (mas das requintadas!! o Salão e fantástico, com tectos ilustrados e um candeeiro de velas enorme) para todos aqueles que preferiram dançar ao invés de ouvir St. Vincent. Foram dois aspectos que, na minha opinião também caracterizaram o festival - a predominância das vozes femininas e a consagração da música de ritmos africanos. Só temos a ganhar com isso. Obrigada, DJ Marfox e amigos pelo excelente serão.

Ainda cheguei ao Coliseu a tempo de o ver praticamente lotado para ver St. Vincent. Foram apenas duas músicas a que assisti, mas deu para perceber que Annie Clark é ainda mais experimental e expansiva em palco do que em disco. Andava em pleno crowdsurf quando entrei. Não sei se teria gostado do concerto (as opiniões que ouvi vão do fenomenal ao "mete mais tabaco"), mas deu para perceber que ninguém lhe fica indiferente. Fica para uma próxima, Annie (não foi no Primavera, não foi no Mexefest, será noutro lado qualquer, com certeza).

A primeira noite chegava assim ao fim, com Capicua e King Gizzard a triunfarem nas minhas escolhas, com a celebração da editora Príncipe e a descoberta de salas fantásticas. Não deu para ver jj, Tune-Yards, Shura nem St. Vincent, mas como tudo na vida, o Mexefest também é feito de escolhas. Estas foram as minhas, e não me arrependo.

domingo, 23 de novembro de 2014

O B Fachada acha que a Liberdade não é um acessório e eu concordo com ele

O festival Rotas & Rituais deste ano, um festival de música e cinema organizado pela EGEAC (para mim, um excelente exemplo de empresa municipal cultural), teve por tema "A Liberdade não é um acessório". Podia parecer datado nos dias que correm, mas o mais triste é que não é. É um tema bem actual, até mesmo nas chamadas democracias ocidentais. Infelizmente apenas me apercebi do festival já tarde, e não fui a nenhuma das sessões (ainda por cima todas gratuitas!!). Fui, no entanto, ao concerto do B Fachada, com primeira parte da Lula Pena, no Cinema São Jorge. O preço era convidativo (8 euros), a sala também, e os artistas bastavam só por si a deslocação. Motivos de sobra para encontrar a sala praticamente cheia.

Não consigo perceber porque Lula Pena não é tão valorizada como devia. Cruza o fado com o samba e a MPB, é uma óptima guitarrista e é dona de uma linda voz. Foi a primeira vez que a vi ao vivo, e um concerto dela aquece os nossos corações. Tocou cerca de uma hora, e ainda deu para duas músicas em parceria com o B Fachada. Não houve sequer intervalo, e o B Fachada logo se atira a "Afro-Xula". Faz uma versão mais curta e mais despida da original, mas logo se percebeu, até pela temática do evento, que seria um Fachada mais virado para o seu lado contestatário, político e interventivo. Tocou praticamente todo o último álbum, ofereceu-nos dois miminhos como "Não pratico habilidades" e "Só te falta seres mulher", voltou para dois encores, incluindo "Tó-zé" terminando com uma versão curta de "Deus, Pátria, Família".

Não foi o melhor concerto de sempre, mas foi muito útil para analisar como Fachada está atento aos sinais dos tempos nacionais.

Fachada é capaz de frases como "a polícia fica louca, quando a canção cabe na boca" ("Dá mais música à bófia"), "gritavam das janelas: nem janeiras, quanto mais abril" ("Um fandango ensaiadinho") ou "chega de tiros para o ar com pistolas de cartão, tens liberdades no bolso e algemas na mão" ("Crus"), apenas para citar alguns exemplos. Pode ter aquele ar alucinado, mas é um dos melhores artistas portugueses de todos os tempos. Ainda bem que estás de volta.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Correrias

Não sei se a minha eventual (digo eventual porque ainda não comprei o bilhete) presença no Vodafone Mexefest 2014 conta como exercício físico, já que vou ter que andar a correr de um lado para o outro. Como faço pouco, vou dizer que conta. Os horários já saíram, as salas também, até já começaram os cancelamentos (os I Break Horses, por causa da greve da TAP já não vêm, o que neste caso, embora triste, me facilita, pois a substituição - Jay-Jay Johanson, não é uma prioridade), e por isso é altura de traçar um plano (mesmo que depois, provavelmente, acabe por não o cumprir).

Tomei por objectivo, para além de ver a Sharon van Etten e os Cloud Nothings, passar por quase todas as salas, que por si só valem o bilhete. Estou a falar da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Casa do Alentejo ou do Palácio Foz, entre outros. São locais raramente acessíveis ao público, tirando a Casa do Alentejo, mas fantásticos. No 1º dia tenho o roteiro plenamente definido, vai dar para ir a vários desses sítios, sem sentir estar a perder alguma coisa noutro sítio. A única dúvida para já é entre Kindness (no Rossio) ou King Gizzard & The Lizard Wizard (na Garagem da EPAL)? Talvez me decida pelos segundos, mas logo se vê.

No 2º dia, é que é mais difícil. É muito bonito dizer que é um festival para a descoberta, para nos pôr a mexer, e essas coisas todas muito bonitas. Mas e quando se tem Adult Jazz, Curtis Harding, Perfume Genius, Palma Violets, Sharon van Etten, Cloud Nothings, já para não referir os portugueses (que nestas condições, e desculpem-me por isso, são relegados para 2º plano, pelo simples facto de que os conseguiremos ver muito em breve, e, em caso de dúvida, nem hesitarei), tudo no mesmo dia, a coincidir ao mesmo tempo? Já não tem tanta graça. Acaba por ser positivo, pois é indicação de que o cartaz é bom, mas depois...

Na altura logo se vê.

Ainda assim, gostava que pensassem nestas quatro sugestões:

Shura na Casa do Alentejo - é ainda uma desconhecida, sem nenhum álbum editado, mas já com uns quantos singles com milhões de visualizações no youtube. Segue numa linha de FKA Twigs, Jessie Ware ou Rhye. É uma oportunidade única para a ver antes da explosão que se avizinha.

Johanna Glaza na Igreja de São Luís dos Franceses - também ainda não tem nenhum álbum editado, a informação sobre ela não abunda, mas faz lembrar Kate Bush, uma Joanna Newsom com menos harpa ou até Julia Holter. A sua canção "Shall I be a Saint" é fantástica (ver vídeo abaixo). Outro caso de descoberta antes do tempo.

Sharon van Etten no Coliseu dos Recreios - se eu só pudesse ouvir um dos concertos, não teria dúvidas na escolha. Seria o dela. Vem na altura certa, com o seu melhor álbum (o melhor do ano?), e numa sala especial como o Coliseu.

Cloud Nothings no Ateneu Comercial de Lisboa - este ano já cá estiveram, a fechar o Primavera Sound do Porto. Trazem um dos melhores álbuns do ano, fazem música sem espinhas, direitos ao assunto, e costumam partir tudo em palco. É capaz de sairmos do Ateneu a suar.

Se vai ser bom ou não, só no fim se vê. Mas a edição deste ano tem o mérito de me meter a correr de um lado para o outro. E parece que vai haver chocolate quente...

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

So you miss the good old days



A semana passada vi três filmes e não tinha planeado ver nenhum. E fiquei com saudades de tempos que não vivi. Acontece-me muitas vezes, na verdade. Sobre alguns costuma-se dizer que nasceram à frente do seu tempo. Eu acho que nasci para viver antes do meu tempo.

Provavelmente nunca teria visto nenhum destes filmes se não fosse o facto de existir um festival de cinema como o LEFFest (sigla de Lisbon & Estoril Film Festival). É um festival com uns seis ou sete anos de existência e desde o início quis ser o festival de cinema referência em Portugal. Se o tem conseguido ou não, os especialistas saberão melhor do que eu. Mas eu gosto do festival. Foi lá que tive a oportunidade de ver, entre outros, o "Hurt Locker", o "Fruitvale Station" e o "Guerra e Paz". Gosto especialmente dele por escolher, em secções paralelas, alguns filmes muito antigos, velhos e pálidos demais para voltarem aos cinemas ou para empatarem tempo na televisão. E ali não há pipocas, coca-colas ou gomas para me atrapalharem os ouvidos. É um festival para dar a ver, antes de entreter. Eu gosto.

Se os teria visto se não fossem sugestões do Wes Anderson? Não, provavelmente não. Se calhar, nem nunca teria ouvido falar deles. Mas não é essa a "função" dos festivais? Dar a conhecer? E perder a oportunidade de estar na mesma sala que o Wes, e poder ouvi-lo conversar com a assistência? Nem pensar!

Foi assim que fiquei a conhecer "Sadie McKee", um filme de 1934 (!) com a Joan Crawford, ou "O Ouro de Nápoles", do Vittorio de Sica, realizado em 1954, com vedetas como Toto, Sophia Loren ou Silvana Mangano. Escusado será dizer que são a preto e branco, sem efeitos especiais, e sem cenas de acção. São filmes que vivem das interpretações e dos diálogos, como penso que aconteceria com todo o cinema da altura. O próprio Wes tinha-os visto recentemente pela primeira vez. Parece-me que ele também é um saudosista como eu.

Já o terceiro filme vi por uma feliz coincidência. Era tarde, os meus quatro canais não passavam nada de jeito (como costuma ser a regra) e preparava-me para ver em DVD um episódio do Lost. Decidi ver a grelha da programação, e ia passar daí a dois minutos, na RTP2 (onde mais poderia ser?) "Um Rosto na Multidão". Decidi dar-lhe uma oportunidade. E acabei por o ver até ao fim, por o adorar, e por não deixar de pensar nele durante o dia seguinte. Fiquei a saber que era de 1957, que era do mesmo realizador de "Um Eléctrico chamado Desejo".

Não vou aqui apresentar os filmes (a wikipédia faz isso melhor do que eu), mas recomendo todos a poderem vê-los um dia. O Ouro de Nápoles é um filme como nunca tinha visto, uma celebração da cidade de Nápoles, composto por pequenas histórias, sem qualquer ligação entre elas, apenas tendo por pano de fundo a cidade de Nápoles. Sadie McKee mostra a força de uma mulher contra as contrariedades da vida, vingativa sem ser maldosa, desiludida mas nunca rancorosa. E "Um Rosto na Multidão" tem uma representação brutal de Andy Griffith, mulheres bonitas e talentosas como Patricia Neal e Lee Remick, e a melhor forma de mostrar que o poder corrompe.

Sim, fiquei com vontade de ver mais filmes desta era. Fiquei com saudades de ir ao cinema ao domingo ao tarde, ao cinema de rua, de viver rituais que nunca tive. Numa época em que tanto se fala que os cinemas estão a perder espectadores, em que as salas fora dos centros comerciais fecham e na falta de criatividade da maioria dos filmes, nada melhor do que regressar ao passado. Quem sabe pode salvar o presente.

P.S. Apaixonei-me instantaneamente por diversas mulheres nestes três filmes. Mesmo que ainda fossem vivas (bem, a Sophia Loren ainda é...), nenhuma me diria hipóteses:

Joan Crawford
Patricia Neal
Lee Remick
Sophia Loren
Silvana Mangano
Lianella Carell

Eu sei que só podia escolher uma, mas nunca conseguiria. Ainda bem que nunca me dariam essa hipótese :)

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A arte de envelhecer

Ontem o José Gonzalez anunciou as datas da sua próxima tour, ele que não edita um álbum em nome próprio desde 2007 (não que o que lançou com os Junip seja mau). Segundo o que está no seu site, vai passar por cá dia 19 de Fevereiro, no CCB, em Lisboa. O próximo álbum, a editar em dois dias antes, chamar-se-á Vestiges & Claws, e já tem capa, setlist e tudo. O primeiro avanço, "Every Age", é aquilo a que ele já nos habituou. A mim já me cativou. Zé, obrigadinho, sim?




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sem título

"Ouvia dizer que era frequente as mulheres gostarem de homens feios e simples, mas não acreditava nisso porque julgava por si, visto que apenas podia amar mulheres bonitas, misteriosas e especiais"
p. 33

"-- Vês tu, - disse Stepan Arkáditch -- és um homem muito íntegro. Essa é a tua qualidade e o teu defeito. Tens um carácter íntegro e queres que a vida seja composta por fenómenos íntegros, mas isso não acontece. Desprezas a actividade do serviço público, porque querias que os actos correspondessem sempre aos objectivos, e isso não acontece. Também querias que a actividade de um homem tivesse sempre um objectivo, que o amor e a vida familiar fossem a mesma coisa. E isso não acontece. Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida se compõe de luz e de sombra.
Lévin suspirou e nada respondeu."
p. 51
in Anna Karénina
Lev Tolstoi

domingo, 19 de outubro de 2014

Revolta

"A revolta não é, de forma alguma, uma reacção automática, face à miséria e ao sofrimento enquanto tais; nenhuma pessoa se revolta face a uma doença incurável ou um terramoto ou face a condições sociais que lhe parecem impossíveis de modificar. É somente quanto temos boas razões para crer que essas condições podem ser modificadas e não o são que a revolta é assumida. Não manifestamos uma reacção de revolta senão quando o nosso sentimento de injustiça é escarnecido (...)."
Hannah Arendt

"A vitória pertencerá aos que provocarem a desordem sem a amar."
Guy Debord

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Burning



Wide awake
I rearrange the way I listen in the dark
Dreaming of starting up again
(...)
I'm just a burning man trying to keep the ship
From turning over again
Cross the rich derivate in your heart
Wide awake
To redefine the way you listen in the dark
Dreaming, starting
Like a stranded kid in a doorway
Just BURNING
in Burning
The War on Drugs

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Um Milhão

Peço desculpa se, depois de estar algum tempo sem dizer nada, coloco três posts (olha para mim, sou mesmo blogger) a falar de uma mesma pessoa. Mas é que este senhor, ou melhor, a sua música, não me sai da cabeça. E desde 6ª feira que esta, versão feita no Palácio Sinel de Cordes, me persegue. Se vos interessar, é dar uma escutadela e espreitar a letra, e depois fechar os olhos e ir por aí a fora, onde ela vos levar.

Para cada um, com um milhão,
Um milhão, sem um sequer.
in Um Milhão
Rodrigo Amarante e Los Hermanos

domingo, 12 de outubro de 2014

Palácio

Foi no dia 10 de Outubro que Rodrigo Amarante regressou a Portugal, depois de dois concertos (esgotados) na ZdB e da participação no Primavera, no Porto, em Junho passado. Podia ser só mais um concerto, mas não deixou de esgotar. Ao contrário da anterior passagem, o concerto iria assumir moldes diferentes, sendo apenas Rodrigo e o seu violão, em formato totalmente acústico. Quem lá não esteve não sabe o que perdeu.


O concerto estava inserido na comemoração dos 20 anos dessa verdadeira instituição que é a Galeria Zé dos Bois. Não se realizou, contudo no Aquário (como é tratada a sala de concertos da ZdB - os que já lá estiveram entendem o porquê da alcunha), mas teve por palco o pátio do Palácio Sinel de Cordes, junto ao Panteão. E não haveria melhor sitio para escutar novamente as belíssimas canções de Rodrigo Amarante, com especial destaque para o seu primeiro e muito elogiado álbum, Cavalo. A noite estava fresca (ainda assim amena para Outubro), a iluminação estava no ponto (o que significa a média luz), palco humilde, sem floreados, e o público sentado na calçada, à espera das 22h, hora marcada para o início.

Tal como canta numa das suas músicas, Rodrigo "tardou" ligeiramente a aparecer, pois o concerto começou com um atraso de 20 minutos. Quando entra em palco, com jeito de menino reguila, todos o aplaudem e retribuem as boas noites de Rodrigo. Começa então a cerca de hora e 10 de concerto, com Nada em Vão, canção que também abre o álbum. E não há que temer: o som está bom, não há telemóveis a bloquear e a distrair a visão, e o silêncio é digno de uma biblioteca. Rodrigo embala-nos com a sua voz ligeiramente embriagada. Segue-se Mon Nom, cantada em francês, e eis a primeira pausa. Agradece a todos, explica que quando toca em Portugal tem um significado especial, pois aqui as pessoas entendem-no, chegando ao ponto de dizer que até ele presta atenção às canções, recordando o porquê de ter escrito aquilo. Confessa-nos que esta é a sua primeira tour em acústico, que só o tinha feito duas vezes, uma em Paris e outra no Porto, e que no Porto tinha sido muito melhor que em Paris. Atira-se a Irene, talvez uma das mais bonitas canções cantadas em português das últimas décadas. Não é de estranhar os muitos aplausos que recebe. Diz que vai tocar algumas coisas novas e outras menos novas, mas pouco tocadas. E então puxa do seu legado dos Los Hermanos e toca Um Milhão, que é para mim a canção da noite. Segundo ele, apenas a tinha tocado três ou quatro vezes (Rodrigo, se puderes, toca-a só quando cá vieres, para não te cansares de a tocar tão bem). Passa ainda por O Cometa (outra linda canção), dedicada ao poeta Ericson Pires, falecido em 2012, aos 40 anos. Fala do seu amigo André Tentugal (dos We Trust), dos amigos que tem feito por cá, e agradece à ZdB por tudo o que tem feito por ele. O seu contributo para a Orquestra Imperial não é esquecido, tocando uma das músicas que fez para o colectivo (confesso que conheço pouco).

É feita nova pausa para explicar que esta digressão surgiu de um convite de Angel Olsen (e tu, quando é que cá vens?) para tocar na sua banda. Ele aceitou e fazia ao mesmo tempo as primeiras partes. Faz uma versão das suas músicas (unfucktheworld) e caminhamos para o final do concerto. Toca Tardei (uma das minhas preferidas), Hourglass e The Ribbon, e seria o fim. Agradece sentidamente a todos e tenta sair de palco. Mas rapidamente regressa. Acede ao meu pedido de tocar Maná (toda a gente ginga, e ele afirma que é por isso que toca) e termina com Evaporar, dos também seus Little Joy. Nova ovação, provando a grande relação que Portugal e Rodrigo Amarante têm.

Rodrigo Amarante tornou-se um dos meus cantores preferidos, e acho que não falho nada se o apelidar de génio. Poligota (cantou em português, inglês, francês e espanhol), conversador, brincalhão, verdadeiro, sabe jogar com as suas múltiplas facetas e os seus diversos projectos. Tornou o que seria apenas um regresso num dos melhores concertos do ano, memorável pela envolvente e pelos pequenos pormenores. Só faltou, para mim, o Não-pedido de Casamento. Mas o que é que isso importa se nos deu tudo aquilo? Não demores muito a voltar, está bem? Saravá!

Nota apenas para o excelente comportamento do público. Penso que apenas no concerto do Sufjan Stevens tinha tido um público tão atento e percebedor do que se ia ali fazer. Sério, que fosse sempre assim! De agradecer ainda à ZdB. Eles é que estão de parabéns e nós é que recebemos as prendas. Por favor continuem a fazer o que fazem tão bem.






sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Pontualidade no Palácio

O Rodrigo Amarante toca hoje no Palácio Sinel de Cordes. Vai-se falar de pontualidade. De certeza.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Primavera 2015

A Primavera de 2015 já tem datas. Como toda a gente sabe, durará 3 dias, de 04 a 06 de Junho. As primeiras 1000 andorinhas já têm entrada garantida, comprada hoje. Ainda nem pensei em nomes. Só sei que a deste ano foi no mês passado, e eu já tenho saudades de coisas como esta:

domingo, 13 de julho de 2014

Harmonia

Não fui ao Alive no dia em que devia. Ou melhor, era para ir, mas depois desisti. Acho que já não me enquadro naquilo. E nem é pelo cartaz (Cass McCombs, The War on Drugs, PAUS, Daughter, Chet Faker, Nicolas Jaar, tudo no mesmo palco e no mesmo dia só pode ser bom), é mesmo por quem lá anda. E acho que fiz bem. O Cass McCombs vai dar um concerto surpresa na ZdB, no dia 16.07, às 22h. É capaz de ainda haver harmonia em certas decisões que tomo.

Friend of mine

fades to black
does this belong to you?
I pull the knife from my back

in Harmonia

Cass McCombs

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A Primavera chegou (mesmo que chova)

Toda a gente sabe que a Primavera chega sempre em finais de Maio, princípios de Junho. A de 2014 começa oficialmente amanhã e dura 3 dias. E se chover (que choverá), saberá a maná. Ainda não começou, e eu já estou com saudades.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Festa na Bela Vista

Ontem os Arcade Fire fizeram de mim um homem (amostra, vá) feliz. Que tenha sido no Rock in Rio, e que esse facto tenha afastado muita gente de os ir ver, tanto me faz. São as bandas que me interessam; não onde tocam (embora pese o facto de isso poder afectar a sua prestação). E o facto de terem tocado num "festival" que pouco ou nada tem a ver com este tipo de sonoridades não afectou em nada o grande concerto que deram.

Podem desagradar a adeptos mais devotos da sonoridade original, ou aqueles que acham que por tocarem num festival "supermercado" como o Rock in Rio, se venderam. Mas quantas são as bandas que, sem perderem a identidade original, conseguem chegar a onde eles chegaram?

Um mestre de cerimónias (com uma voz meio manhosa) anuncia a entrada dos grandes Arcade Fire, enquanto um "boneco" Reflektor desce o slide. E uma data de gente entra em palco, para logo se atirarem a essa mesmo Reflektor. Multidão em êxtase desde o primeiro minuto. O último álbum tornou a música dos Arcade Fire dançável, o que Flashbulb Eyes continuou a comprovar. Era hora de seguir para onde tudo começou, e Neighborhood #3 (Power Out) e Rebellion (Lies), do álbum onde tudo começou (e um dos álbuns da minha vida), servidas com roupagens ligeiramente diferentes (mais a ver com Reflektor) levam a multidão (eu incluído) ao delírio. É preciso ser uma grande banda para servir duas das suas canções maiores logo ao início, sem que o concerto se esgote ai. E não se esgotou. Pouco conversadores (o que não significa indiferentes), Win Butler anuncia, em português, "uma canção sobre saudade", The Suburbs, tocada ao piano por Win e a abrandar um pouco o ritmo, a que se segue Ready to Start. Neon Bible não fica esquecido (apesar de pouco  utilizado) com My Body is a Cage. Regresso às origens com Neighborhood #1 (Tunnels), e a No Cars Go, anunciada assim mesmo como No Cars Go. E No Cars Go é bem capaz de ser uma das melhores canções de sempre. Aquele lado épico dos Arcade Fire, nunca escondido, atinge aqui um dos seus lados maiores, com a multidão (talvez a mais pequena de sempre do Rock in Rio) a entoar com a banda os uh uhhhs que nos arrepiam os pêlos dos braços. E depois é tempo para a Régine encantar com a sua voz e atitude de menina, a lembrar que podemos ser crianças para sempre se quisermos. O concerto entra na sua fase final, com We Exist e Afterlife, e a festa está mais que instalada. Os corpos balançam, as pernas saltam, as cabeças abanam, e queremos que aquilo dure para sempre. E assim continuam com It's Never Over (Oh Orpheus). Não há bola de espelhos por cima do público, mas eu dancei como se lá estivesse. Sprawll II (Mountains beyond Mountains), com o som no seu melhor estado (nota negativa para o mau som que assolou grande parte do concerto, ora estando baixo, como no início, ou a não deixar ouvir os pormenores das cordas e da percussão haitiana que os acompanha) e tempo para a Régine nos voltar a embalar, com a sua voz meiga. Foi a canção que mais me encantou, e nem sequer precisou de ser efusiva. Bastou ser genuína.

Os encores já não são o que eram. Agora não são mais do que uma formalidade, na maioria dos casos (pois estão previstos desde o principio). Mas os Arcade Fire fazem-no de forma diferente. Embora seja feita uma pausa, não saem de palco. Entra, até mais gente, quais cabeçudos do Carnaval de Torres, com  os rostos dos elementos da banda. E volta-se a fazer a festa. Here Comes the Night Time, a puxar até, a partes, ao kuduro, e voltamos todos a dançar. Até a Lorde andou em palco a divertir-se com os seus amigos. A terminar a cerca de 1h45 de concerto, a inevitável Wake Up, a ser cantada em uníssono, em perfeita comunhão entre banda e público. Nem todos o conseguimos, mas no que depender de mim, e com a ajuda dos Arcade Fire, vou querer seguir o conselho por eles dado na Wake Up: "Children, don't grow up!!".

Até à próxima, amigos.

PS: Só para expressar o meu contentamento por a música pop (não gosto de catalogar a música, mas assim fica mais fácil perceberem que falo da música mais associada aos sucessos radiofónicos) ter por estes dias alguém como Lorde que, dos seus 17 anos, é já uma senhora capaz de aguentar um palco daquele tamanho praticamente sozinha, sem para isso colocar a sua música em risco. Gosto de ti, Lorde.
 

domingo, 25 de maio de 2014

I think I'm going "Crazy"

Na 5ª feira passada saíram os horários do Primavera Sound do Porto (antes eu tratava-o pelo seu nome de baptismo, mas agora recuso-me a fazê-lo). E devo dizer que (e isto costuma acontecer quando os cartazes são bons e têm muita coisa que queremos ver) são os piores horários de sempre. Se não vejamos:

6ª feira

Television vs Warpaint (acho que ganham os Television)
Pond vs Slowdive vs Courtney Barnett (não faço ideia)
Pixies vs GYBE (boa pergunta, mas acho que Pixies)
Darkside vs Mogwai (Darkside, acho)

Sábado
The National vs Dum Dum Girls (The National, mas a pensar nas Dum Dum Girls)
St. Vincent vs Slint (desculpa, Annie)
Ty Segall vs !!! (Depende do tipo de festa que se queira, mas acho que Ty)

Mas a dúvida maior é mesmo Pond, Courtney Barnett ou isto:

Não se faz!

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Asas

Os Pond são australianos. São na maior parte das vezes apresentados simplesmente como "os gajos que tocavam com o Kevin Parker nos Tame Impala". Mas eu acho que são muito mais que isso. No dia 06 de Junho tocam no Optimus Primavera Sound. Se tocam isto não sei, mas espero bem que sim (e com o som bem alto!!).



Step up to my window
I nearly walk away
I know how far goes love
You should never give it up
Give it up
I am gonna... real you
Seem to let go to…

You should never get up
Time to get... real you
… close and nothing to...
You should never give it up
...me and you
in Moth Wings
Pond

sábado, 26 de abril de 2014

Nasci 14 anos depois do 25 de Abril de 1974, mas ontem, 40 anos depois desse dia, e pela mão d'0s Sobreviventes, versão Fachada, Minta & João Correia, senti-me como se também eu lá tivesse estado. Obrigado amigos!

domingo, 20 de abril de 2014

De certeza que foi há 40 anos?

No dia 25 de Abril de 2014 passam 40 anos do 25 de Abril de 1974. Em 1971 o Sérgio Godinho lançava o seu primeiro álbum, de seu nome "Os Sobreviventes". 40 anos depois, B Fachada, Minta Cortesão e João Correia recriaram esse mesmo álbum (em 2012). Eu não estava lá há 40 anos, mas dá-me a sensação que as coisas não mudaram assim tanto.

No dia 25 de Abril de 2014, B Fachada, Minta Cortesão e João Correia tocam "Os Sobreviventes" no Lux. Pode ser que o Sérgio Godinho apareça.



Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades para os outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força para pouco dinheiro
in Que força é essa?
B Fachada, Minta Cortesão e João Correia (original de Sérgio Godinho)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Amarrar as Marés

Os Quilt são a minha nova banda favorita. Ponto. Não tenho muito mais a dizer, mas isso também parece mal. Por isso informo que estes meninos e menina (Anna, queres casar comigo?) são de Boston, lançaram em Janeiro o seu 2º álbum, intitulado Held in Splendour, onde se encontram pérolas como a que está aqui em baixo, ou como A Mirror (para mim a canção do ano). Obrigado Ípsilon.



Oh child, you keep living that way
In your own time
in Tie up the Tides
Quilt

segunda-feira, 24 de março de 2014

Onde está a tua mente?

Os Pixies não precisam de apresentações. Qualquer pessoa, sabendo ou não, já ouviu, não uma, não duas, não três, mas diversas músicas dos Pixies. Esta que apresento é uma delas, e, mesmo não tendo tanto airplay como tem a Here Comes Your Man, nunca me canso de a ouvir, de tão hipnótica que é.



With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
But there's nothing in it
And you'll ask yourself

Where is my mind?


in Where is My Mind?
Pixies

terça-feira, 18 de março de 2014

Antigamente

Muita gente fala desta nova geração do fado, que há mais gente a prestar-lhe atenção, incluindo muita gente jovem. Talvez seja verdade, talvez não. A minha avó, as minhas tias, sempre lhe deram atenção. E na verdade, prestam menos atenção às novas fadistas, preferindo as velhas glórias fadistas. Fico contente de lhes mostrar isto, e de elas gostarem.



Não é fadista quem quer,
mas sim quem nasceu fadista.
in Antigamente
Gisela João

segunda-feira, 10 de março de 2014

Nada

Os Cloud Nothings confundem-se com Dylan Baldi, o mentor do projecto. É um rapaz que teve tomates para largar a faculdade e fazer música, porque sim. Escreveu um e-mail de 7 páginas aos pais e tudo (estudava fora).
Lançam em breve o que será o seu quarto álbum. Pela segunda vez, pelas minhas contas, estarão em Portugal, no Primavera. Também não os vou querer perder. E espero que toquem isto.



Give up
Come to
Know
We're through

No future, no past
No future, no past
No future, no past
No future, no past
in No Future/No Past
Cloud Nothings

quarta-feira, 5 de março de 2014

Avant Gardener

Não sei muita coisa sobre a menina Courtney Barnett. Sei que é australiana, que tem 25 ou 26 anos, que fundou a sua própria editora, que vem ao Primavera, e que eu não a vou querer perder.

Acho que ela me entende, e no entanto, nunca nos conhecemos.



I sleep in late
Another day
Oh what a wonder
Oh what a waste.
It’s a monday
It’s so mundane
What exciting things
Will happen today?
in Avant Garderner
Courtney Barnett

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Mercado e Lavadouro na Flandres

Hoje fui ao Museu Nacional de Arte Antiga, ver a exposição "Rubens, Brueghel, Lorrain - A Paisagem Nórdica do Museu do Prado". Estava espantado com um "simples" quadro de Jan Brueghel, o Velho, a meias com Joos de Momper, de seu título "Mercado e Lavadouro na Flandres", quadro este do qual nunca tinha ouvido falar. De um lado, o mercado. Do outro, a roupa a secar e a corar, como explicado na legenda do quadro. A separar estas duas situações, uma grande árvore. Eu estava fascinado.
A meu lado aproxima-se um senhor já algo idoso, perto dos seus 80 anos, barbas brancas, um pouco marreco. As suas palavras são: "Espectacular!". Fala baixinho, julgo que com a sua neta (confesso que também ela me chamou à atenção), dissertando um pouco sobre o quadro, as cores, a floresta, mas consigo apanhar outra expressão dele como "impressionante!". O quadro fascinou-me mas a alegria do senhor comoveu-me.


Não sendo nenhum entendido (nem pouco mais ou menos), não posso deixar de (independentemente da relevância dos quadros expostos) elogiar as entidades que trouxeram algo assim a Portugal. Parece-me ser um bom exemplo das chamadas parcerias público-privadas (ver em que bases aqui). Para quem gosta de museus, arte, pintura, falhar a exposição é dizer não a mais iniciativas destas (digo eu na minha radicalidade, pois a exposição ainda são 6 euros).
Sinto-me, no entanto, algo enganado, não pelo que é exposto, mas pelos três pintores escolhidos para lhe dar nome. De Lorrain, que eu contasse, estão lá apenas 2 quadros; de Rubens, apenas 1, a que se juntam 2 em parceria. Os Brueghel são os únicos (entre Velho e Novo) largamente representados. Mas percebo o recurso a estes 3 nomes: os restantes pintores retratados não são tão conhecidos, e dizer apenas que os quadros vinham do Prado podia não ser suficiente. Ainda assim, são 57 os quadros apresentados, e razões para contentamento não faltam.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Corda Bamba



So you're wishing that you never did
All the embarrassing things you've done
And you're wishing you could set it right
And you're wishing you could stay the night


in Tightrope
Yeasayer

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Lei da Conservação da Violência

"Mas existe uma lei que é simples - a lei da conservação da violência. Tão simples como a lei da conservação da energia. A violência é eterna, por mais que se faça para a liquidar, não desaparece, não diminui, apenas se modifica. Ora está na escravidão, ora na invasão tártaro-mongol. Ora se muda de continente para continente, ora se torna violência de classes, ora passa a ser racista, ora se transfere da esfera material para a religiosa, ora atinge as pessoas de cor, ora os escritores e artistas. Mas a quantidade geral da violência mantém-se sempre igual na terra (...)."

in Tudo Passa
Vassili Grossman

Podia dissertar sobre estas palavras, mas acho que não vale a pena. Elas falam por si.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Nascimento e a Morte do Dia


Os Explosion in the Sky são um grupo texano, etiquetado como post-rock. Alguns acusam-nos de os seus últimos álbuns serem mais do mesmo, guitarras ao alto, guitarras a baixo, de não serem tão aventureiros como os Mogwai, de não terem tantos drones como os GY!BE, etc, etc.

Mas poucas músicas podem, sem dizerem nada, dizer tanto como esta,. E sempre que a oiço, penso que a vida parece só trevas, como no início, mas se procurarmos bem, existe sempre alguma esperança. 
Recorro a um (bom) cliché para dar início a este blog:

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida...

Este blog é criado como meio de eu poder falar e simultaneamente me poder ouvir. Não espero que ninguém o leia, cite ou comente. Se alguém o fizer, é porque não ficou à espera, mas procurou.

Irá ser essencialmente sobre música. Não terão reviews nem será um blog de música convencional. Visa apenas eu citar músicas, contar histórias relacionadas com música e vez por outra partilhar a minha visão sobre determinado concerto a que assisti.

Poderão, ocasionalmente, encontrar referências a livros, filmes, séries e assuntos do dia-a-dia, que me dizem alguma coisa.

Espero que gostem (ou pelo menos não desgostem).