segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Meia-noite em Paris

Não costumo me deixar amedrontar por notícias de atentados, ameaças, sequestros, etc. No fundo, acho que por nunca me ter tocado pessoalmente, nunca ter sofrido na pele. Claro que fico horrorizado por tais barbáries, chocado por alguém ter o sangue frio para tais actos, na maior parte dos casos, contra inocentes. Mas, e talvez esteja a ser demasiado frio, até insensível, nunca me tinha tirado o sono. Incomodava-me, mas deixava-me dormir.

O atentado da passagem sexta-feira veio alterar isso. Confesso que este foi talvez, até hoje, o atentado que mais me marcou. Não me sai da cabeça. Porquê? Apesar de ainda não se saber muito bem o porquê de terem sido escolhidos aqueles locais, como o Bataclan, e não um qualquer outro espaço, se foi facto aleatório, se não, não consigo deixar de pensar que uma carnificina foi levada a cabo numa sala de espectáculos, num concerto. Não consigo deixar de me identificar com eles. Também eu frequento muitos concertos, festivais, eventos relacionados com música. Até tenho este meu pseudo-blog que vive muito à base da minha paixão pela música. No fundo, a música, os concertos, são aquilo que me deixa de sorriso de orelha a orelha, ouvir aquela música, aquela banda, aquele acorde, aquele sussurro, o carácter efémero, e por isso irrepetivel que cada concerto tem. 

Na sexta-feira quiseram por isso em causa. Foi em Paris, é certo, mas podia ter sido noutro lado qualquer, num qualquer concerto onde eu estivesse presente (nem sequer conta para o caso, mas já estive à porta do Bataclan, e até já vi os Eagles of Death Metal, que de metal nada têm). Foi mais do que um atentado contra a França, ou mesmo contra o Ocidente. Não foi certamente apenas a procura de locais ao acaso, onde houvesse gente para matar. Foi contra o seu modo de vida (que não é perfeito), a sua juventude, a sua "normalidade". Quis passar-se uma mensagem. E, consequentemente, também se atacou a música. E eu não consigo deixar de pensar nisso.

No sábado, por coincidência, passou no Lisbon&Estoril Film Festival o Meia-noite em Paris. Já tinha a intenção de o ir ver (pode não ser o melhor filme de sempre, mas é um dos meus preferidos, e não me canso de o ver). Foi, de certa forma, uma maneira de homenagear Paris e as suas vítimas, que, no fundo, somos todos nós. E não deixava de sorrir ao ver o quão bela é aquela cidade.

Tal como no Casablanca, também eu não quero deixar de dizer "We will always have Paris". E digo-o de forma saudosa.

PS: vale a pena ler a crônica da Lia Pereira no site da Blitz. Motivou-me a escrever este post.

sábado, 31 de outubro de 2015

Coração de Metal

Ainda não tinha dito nada, mas também não valia grande pena porque os bilhetes já estão esgotados, e quem não comprou, também dificilmente os conseguirá comprar. A senhora Chan Marshall, que actua sob o nome de Cat Power, essa senhora que tem tanto de angelical como de problemática, toca hoje no CCB, em Lisboa. É a primeira vez que a vou ver. E estou entusiasmado. Não que espere o melhor concerto de sempre (ela durante muito tempo só tinha concertos desastrosos - efeitos do álcool, drogas e demais problemas da sua vida), mas ela anda de melhor com a vida. Ainda assim, espero que se lembre do seu passado. Como desta, por exemplo:

PS: Não a vou pedir em casamento. Ela anda farta de ser enganada pelos homens. Não que eu te fosse enganar, mas...

O Sequeira no lugar certo

É mais ou menos este o nome da campanha levada a cabo pelo Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em parceria com outras instituições, como o jornal Público, por exemplo. Visa reunir 600 000 euros para adquirir uma obra-prima do pintor Domingos Sequeira. E eu acho-a uma campanha fantástica. Porquê? Porque acho que uma campanha pública de angariação de fundos com vista à aquisição de uma obra de arte para um museu público (que se pretende que seja de todos) é de louvar. Faz-nos sentir parte de um mesmo objectivo, sem ser egoísta: estamos a contribuir (cada um com aquilo que pode e acha que deve dar) todos para o mesmo. E, quando atingido o objectivo, vai fazer com que cada um, ao passar por aquela obra, diga: ajudei a comprar este quadro!


Podem fazê-lo de várias maneiras, mas está tudo explicadinho no site: sequeira.publico.pt. É dar uma vista de olhos, para ficarem a saber mais.

Haverá sempre aqueles que dirão: tanta gente a passar fome, cm necessidade, refugiados, etc. (este etc. não pretende diminuir a dimensão destes problemas), e estão é preocupados em comprar um quadro. Não deixa de ter a sua razão. Mas será que ajudam activamente pessoas nessas condições? E depois, se cada um dos cidadãos nacionais contribuísse, daria um encargo de 6 (seis) cêntimos a cada um. Penso que não fariam falta a ninguém.

Eu já contribui, e senti-me contente por o fazer. Do que estão à espera?

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Ferro e Vinho Acima das Montanhas

O titulo deste post é parvo, eu sei, mas não havia nada melhor à mão. Acho que já muita gente deve saber que Iron&Wine vai, finalmente, estrear-se em Portugal. O projecto desse mago que é Sam Beam será apresentado em Lisboa, no Tivoli, a 1 de Novembro (será coincidência ser Dia de Todos os Santos?) e, no dia seguinte, no Porto, na Casa da Música. Ou então não sabem, e ficam a saber. Porque é que isto devia ser notícia de abertura de todo e qualquer noticiário, jornal, revista, etc.? Porque é um dos melhores singer-songwriters (percebo bué de música, eu) que já existiram. Não acreditam? Basta um exemplo:

Upward Over the Mountain consta do seu primeiro álbum "The Creek Drank the Cradle" e é essa musica banal presente no video abaixo. Tão banal que é capaz de ser uma das melhores canções de todos os tempos. Escutai-a e tirai as vossas conclusões.


So may the sunrise bring hope where it once was forgotten


Como se isso não bastasse, Iron&Wine é tão mau músico que, ao vivo, e como se não bastasse a música já ser banal, ainda consegue torná-la nesta coisa (que quando a ouvi pensei estar a ouvir outra música, e os pelinhos arrepiaram-se outra vez - sim, acontece-me muita vez ao ouvir música):



Pois, vá, com banda a acompanhar e outros arranjos, até eu consigo tocar qualquer coisa. Aposto que ele sozinho, só com guitarra, não se deve desenrascar. Já agora, tirem as vossas conclusões (e não se deixem influenciar pelo segundo comentário dos utilizadores do Youtube que diz "this one's called 'one of the best songs ever written'"):


E este post não foi pensado para sair assim, mas acabou por sair. Apeteceu-me. Sim, se Deus quiser, lá estarei para ver este gajo. Obrigado por o trazerem cá, numa sala a condizer. Se quiserem, façam o teste com outras músicas, para não acharem que este está viciado. The Trapeze Singer, por exemplo. Ou a The Sea & The Rhythm. Ou a versão para a Such Great Heights, dos Postal Service. Ou...

Iota (um bocadinho muito pequeno) pt. 2

Já foi no dia 8, eu nada digo desde o dia 20.08, foi depois anunciado um concerto "surpresa" no dia 9 (aí sim, na verdadeira ZdB), mas não consigo ficar calado. A Angel Olsen deu um concerto do caraças, a sua voz é portentosa e magnífica (diria até que tem o seu quê de fadista), a banda e
mais do que competente, e, já disse que quando ela canta, devia ser proibido todo e qualquer som que não o da sua voz? Não. Então digo agora: devia ser proibido todo e qualquer som que não a voz da Angel Olsen quanto ela canta.

A "sala" (pátio) que alberga a Trienal de Arquitectura de Lisboa (o mesmo espaço onde Rodrigo Amarante tocou o ano passado) estava cheio, noite amena, tudo sentadinho à espera da estreia desta Menina Senhora em Portugal (na verdade, em Lisboa, pois dois dias antes tocou em Guimarães). Atrasou-se ligeiramente, mas nada de grave. Não, não deixou Hi-Five (a canção sobre a solidão mais festiva de todos os tempos) para o fim (serviu-a logo como segunda música) e foi intervalando o primeiro com o segundo álbum. Houve Lights Out, Forgiven/Forgotten, Sweet Dreams, Unfucktheworld, Acrobat, etc.

Ao contrário do que eu estava à espera, o público não se mostrou muito conversador. Ela bem tentou, lançou piadas sobre outros concertos, onde as pessoas pedem "toca aquela, despacha-te, tenho de apanhar o autocarro", etc, e onde ela disse "se vives para o autocarro, apanha a m**** do autocarro", mas o público não se mostrou muito caloroso. Isso não a esmoreceu. Quando canta, desliga do resto. E como ela sabe cantar os sentimentos humanos, o amor (sempre o amor), a solidão. Gostei do facto de não se restringir, de todo, aos álbuns, sendo inventiva ao vivo, com mais electricidade, mais rapidez (sem ser, contudo, apressada).

Para o fim, e após saírem os restantes elementos da banda que a acompanhava, fica em palco, sozinha com a sua guitarra, meia luz, e lá vem essa canção maior que a vida que é Iota. E posso dizer, como não me aconteceu assim tantas vezes, que ao vivo, em completo silêncio (mais uma vez, parabéns a todos os que lá estiveram, pois sabiam ao que iam), é ainda melhor do que em disco. E os pelinhos do braço lá se arrepiaram todos, e nunca vou conseguir voltar a ouvir a música sem pensar que ao vivo é ainda melhor.

Ainda havia espaço para uma magistral interpretação de White Fire (fantástico como consegue aguentar uma canção daquelas, com tantos silêncios, espaços, sem nunca a deixar cair). Teria sido o fim do concerto, não fossem os presentes insistirem e ela voltar, agora já com banda, para fechar com uma última canção.

Não deu para a pedir em casamento (até porque sei qual seria a resposta), mas deu para me dar muito boas recordações, e para acrescentar mais uns momentos à lista dos melhores de sempre. Obrigado Angel! Por mim, estás à vontade, eu agora só ando de comboio!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Golden Hair



Isto não foi ontem em Paredes de Coura, mas podia ter sido. Aposto que houve sensações semelhantes. Eu só ouvi pela rádio, e foi como se lá tivesse estado. Magnífico foi de certeza. Parece que em 2016 voltam cá. Pode ser que desta dê para ir.

P.S.: Às vezes, diz-se muita coisa estando calado.

P.S. 2: Ver minuto 4:02 do video. Sim, é estrondoso.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Os mesmos velhos erros



A realization is as good as a guess
And I know it seems wrong to accept
But you've got your demons, and she's got her regrets
But you've got your demons, and she's got her regrets

in New Person, Same Old Mistakes
Tame Impala

P.S.:
Ver toda a letra. Fenomenal.

P.S. 2:
Os Tame Impala são fenomenais. E eu não os vou ver.  Quem puder, não os perca.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Medusa



Por cada vítima acusada
E transformada em monstro
Em cada casa, cada caso,
cada cara e cada corpo
em mais um dedo apontado ao outro,
Cresce a ira da Medusa que me vês no rosto

in Medusa
Capicua  feat. Valete

A violência doméstica exposta sem eufemismos. Em bom português.

domingo, 19 de julho de 2015

A Sagração do Primavera - Dia 3

No terceiro e derradeiro dia do Primavera Sound 2015, versão Porto, voltei a não chegar muito cedo ao recinto. O almoço junto à Ribeira prolongou-se, o passeio pelo Porto também (voltei a entrar na Livraria Lello, e é sempre como se fosse a primeira vez que lá entro, a Rua das Flores está cada vez mais bonita...), e consequentemente, já não deu para ver Manel Cruz, nem o início do concerto de Thurston Moore Band, no palco ATP. Mas foi por ali que fiquei, e se é verdade que era um concerto da Thurston Moore Band, soou a Sonic Youth. O Steve Shelley também lá estava (depois de na véspera ter tocado com Sun Kill Moon), pelo que eram logo dois (ex?) Sonic Youth em palco, a Debbie Googe (dos My Bloody Valentine) também marcou presença, o que torna a "Band" numa superbanda. Apesar de curto, foi um óptimo concerto. Thurston mostrou porque é considerado um dos melhores guitarristas de todos os tempos. Deu para fritar um bocadinho os ouvidos, com muita distorção, muitos riffs, bom baixo, boa bateria. Foi uma excelente forma de eu estrear o ATP nesta edição, dado que ainda não tinha assistido a nenhum concerto ali este ano.

Não são, nem de perto nem de longe, algo que aprecie por aí além, mas a fama de darem excelentes concertos e de esta ser, supostamente, a farewell tour (eles que não existem assim há tanto tempo), fez com que seguisse para o palco Super Bock para ver os Foxygen. E, se não dou como perdido o tempo que ali estive, a verdade é que ainda hoje estou para compreender o que ali se passou. Show de variedades? Companhia circense? Peça de teatro? Simplesmente muita droga e álcool? Penso que de concerto teve muito pouco. Teve mais das outras coisas que referi. O vocalista canta e mexe-se (vive?) no fio da navalha, como se não houvesse parte da tarde, quanto mais amanhã. Ainda assim, não sei se é realmente um novo Iggy Pop meets David Bowie, se apenas um embuste. Não sei mesmo. Vira uma garrafa de whisky de uma vez, atira-se para o chão, entrega-se às primeiras filas, tudo isto enquanto três belas raparigas, saídas de uma qualquer claque de cheerladers dançam e fazem os coros. Lá pelo meio, um dos guitarristas e o baixista começam a jogar às cartas, enquanto depois o baterista e outro dos guitarristas resolvem uma discussão num duelo de espadachins. Depois saem todos de palco, enquanto é tocada a sua mais conhecida canção nas colunas do palco. Quem esperava ouvi-la tocada pela banda, apanhou um grande barrete, pois foi a única forma de a ouvir durante o concerto. Regressam passado pouco tempo, com novas roupas, sendo que o vocalista diz que vão tocar a última música, que mais não é que uma curta versão, completamente avacalhada de "Let it Be" dos Beatles. Depois as cheerleaders cansam-se, e dizem que estão fartas, e que têm o seu próprio show, e que o vão tocar. E depois sou eu que me canso, e que me vou embora. Vou comer qualquer coisa, que depois posso não ter tempo.

Nunca pensei que ele desse um concerto tão bom num contexto daqueles. Completamente sozinho em palco, munido apenas da sua guitarra e de uns quantos pedais, Damien Rice provou que não é simplesmente aquele da "Blowers Daughter" (apesar de muito boa gente apenas tenha ficado a saber que era ele que estava em palco quando a tocou), e que em palco, é muito mais pesado do que os seus discos aparentam. Num palco sem artifícios, vestido de maneira simples e ar de desleixado, lá entra com a sua guitarra, para deixar excelentes recordações aos que assistiram ao seu concerto, enquanto o sol se punha finalmente. Logo à segunda música atira-nos "9 Crimes", e que boa ela é escutada ao vivo. Recorrendo a loops da sua própria voz, prescinde da voz de Lisa Hannigan (que vira aqui à uns anos a abrir o palco secundário do Alive) e também do piano, e a canção não perde nem um dedo de toda a sua força. Antes pelo contrário, ganha toda uma nova vida. Fica muito mais rockeira, poderosa. Se não tocasse mais nada, teria sido um concerto enorme na mesma. Outra prova desta veia de distorção, de sons etéreos, é "I Remember", que mais uma vez eriça os pêlos do braço. Não se esqueceu de "Elephant" nem de "Cannonball", muito menos de "Blower's Daughter", e que apesar de radiofónica, nunca cansa. Antes pelo contrário, é fantástica. A terminar haveria ainda mais uma, "It Takes a Lot to Know a Man", mais uma como quem diz, pois ela é bastante comprida. E não é uma canção para agradar a quem gosta apenas da "Blower's Daughter". É sofrida, cheia de cicatrizes, cantada com garganta arranhada, guitarrada. Apenas a ouvi ao longe pois, depois de "Blower's Daughter", era altura de ganhar lugar na frente para ver, finalmente (episódio da minha vida já relatado neste blog), a estreia dos Death Cab for Cutie em Portugal.

O concerto nunca seria muito longo (uma hora sensivelmente), pelo que temia que preferissem mostrar o último álbum (que apesar de não ser mau, não é o seu melhor), em detrimento de antigas glórias. Mas os meus receios não se concretizariam. Só posso dizer, objectivamente, que para um concerto curto, foi sem dúvida perfeito. Foi memorável, e só me deixa triste, por saber que novas passagens por cá não serão fáceis. Começou com a fantástica linha de baixo de "I Will Possess Your Heart", e para mim, e pelo menos para toda a frente de palco, o concerto estava ganho. Posso não ver as coisas objectivamente, mas para mim, a banda entregava-se ao concerto, logo à partida, não como apenas mais um, mas como uma banda que toca sempre para sair vencedora. Ben Gibbard canta, toca, mexe-se como alguém que retira muito proveito por fazer música e tocá-la ao vivo, ao contrário de muitos outros (não os estou a criticar). Posso ser exagerado, mas representou para muito bom deslocado, como este escriba que vos fala, um modelo na sua juventude. As suas letras exprimiam as tristezas, desgostos, sonhos, de muito adolescente/pré-adulto. E depois muitos ciúmes, quando casou com a Zooey. Mas já está tudo bem, já estão divorciados. Obviamente que ficou muito por tocar (quem tem um álbum perfeito como Transatlanticism arrisca-se a isso), mas como posso ficar insatisfeito se houve "Grapefine Fires" (uma das melhores de Narrow Stairs), "Black Sun" (talvez a melhor do novo Kintsugi), "You're a Tourist" (talvez a melhor desse não-grande-coisa Codes&Keys)? Já para não falar da minha histeria ao ouvir "The New Year", cantada a plenos pulmões, como se fosse 2003, ano da graça de Transatlanticism? Nova viagem a Narrow Stairs para resgatar "Cath", e depois, para cumprir com alguns dos meus sonhos molhados, algo que nunca pensei ouvir. Essa mesmo, essa que dá nome a um dos meus álbuns favoritos de sempre - Transatlanticism. Simplesmente não tenho grandes palavras para descrever aquele belo momento, por isso recorro a uma que é muito utilizada: épica. Um dos concertos do festival, desta e de todas as edições.

Esta sequência infernal não tinha ainda terminado. Depois de Damien Rice e dos DCFC, havia ainda mais um sonho molhado - o regresso, 20 anos depois, dos Ride. Uma das bandeiras do shoegaze e da dream pop, talvez dos primeiros originadores da britpop (mas da boa, está bem?), estavam ali, sim, ali na minha frente (e não entendo porque havia tantas clareiras na colina...se calhar o público não sabia que tocavam ali), para me fritarem um bocadinho os ouvidos. Foi um concerto em formato best of, até porque não há coisas novas para tocar, mas houve muito Nowhere e Going Blank Again, os dois primeiros quase perfeitos álbuns duma carreira de quatro. Foi com "Leave Them All Behind" que começaram, com o som no ponto, um concerto celebratório, de sorriso na cara (a minha). Nem a minha "Polar Bear" se esqueceram de tocar. Houve "Dreams Burn Down", "Seagull", "Taste", entre muitas outras. E como é que alguém não consegue gostar dos Ride, depois de ouvir "Vapour Trail" ao vivo? Há regressos e regressos. Não sei se este é para durar, mas foi um regresso dos bons!

Dan Deacon até tomou o pequeno-almoço comigo no hotel onde fiquei, pelo que me senti na obrigação de ver o seu concerto. É um mestre de cerimónias atípico, bem cheiinho, vestido de calções e suspensórios, como se fosse uma criança pequena, e gosta de brincar com electrónicas. Infelizmente não conheço muita da sua obra, e na verdade o concerto também não me motivou a querer conhecer mais. É engraçado, para saltar e celebrar, mas não me marcou por aí além. Assumo que a culpa fosse minha, mas as pernas já acusavam algum cansaço, e ainda havia Ought às 02h00.

Estes, pelo contrário, foram tudo aquilo que esperava deles. Num ATP não muito composto (talvez pela hora avançada, mas também porque havia Underworld lá em baixo com uma proposta muito mais dançante), começaram o concerto logo a abrir, com "A Pleasant Heart", uma das minhas favoritas, canção urgente, de revolta, punk. A sequência foi perfeita, com "The Weather Song" ("tell me what the weather's like so I don't have to go outside") e "Today, More Than Any Other Way". Houve ainda tempo para mostrarem algumas canções que farão parte do novo álbum (previsto ainda para este ano), mas também para "Clarity!" e "Habit". A fechar o belo concerto de uma hora, "Gemini". Espero que possam voltar em breve, desta vez numa sala fechada, pequenina, como estas bandas merecem. Uma garagem seria perfeito.

Os Underworld ainda tocavam, Health haviam começado à pouco e Roman Flugel era só às 04h00. Nenhum me apelava ao coração, pelo que terminava assim em beleza mais uma edição do Primavera Sound. Três dias apenas que representam 365 de sorriso na cara (pelo menos sempre que falo dele). Obrigado, Primavera, por me fazeres feliz. Vemo-nos para o ano, se Deus quiser. Que o Inverno passe rápido.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Cigarettes&Loneliness à beira mar

Se vale a pena ir ao Alive? Acho que sim, quanto mais não seja para ouvir isto.



PS: mesmo sendo o cartaz mais desinteressante desde que o Alive é Alive.
PS2: mas que música do caraças!

terça-feira, 30 de junho de 2015

A Sagração do Primavera - Dia 2

Para muito boa gente, o Primavera só começa verdadeiramente no 2º dia. É, por natureza, o dia em que o festival realmente opera a todo o vapor (não é o meu caso). O palco ATP e o Pitchfork entram ao serviço, a programação começa mais cedo, acaba mais tarde, já temos de fazer escolhas e decidir que bandas vamos perder, sente-se a correria, etc. E sim, sente-se a felicidade no ar.

Ao contrário da véspera, cheguei ao Parque da Cidade cedinho. Não houve passeata pelo Porto (as pernas estavam um bocadinho fatigadas, estava calor, e a moleza apertou, mas ainda deu para ficar a conhecer o Mercado do Bom Sucesso, que está engraçadito), pelo que estávamos fresquinhos para o longo dia que se seguiria. E para além disso, havia Banda do Mar a abrir o dia, o que é sinónimo de obrigatoriedade de estar presente. Quanto mais não fosse porque a Mallu Magalhães hipnotiza. Raios partam o Marcelo. Mas vá, desisto só porque o Marcelo é um porreiro (e também porque eu não teria hipóteses). E falando sobre o concerto, muitos eram os presentes ao mesmo, mesmo que a hora fosse "madrugadora", não só de corpo presente, mas conhecedores da banda. E não há como não gostar da Banda do Mar, uma banda que é, acima de tudo, um hino ao amor e à amizade. E dá para sentir como o Marcelo e a Mallu gostam um do outro, e como o Fred Ferreira gosta deles os dois, e eles os dois do Fred. A música final, que teve de ser encurtada dado o extinguir do tempo (também ninguém os mandou chegarem atrasados), foi disso prova, com o Marcelo a ir buscar a Mallu, e a irem todos, abraçarem-se junto do Fred. E pareceu genuíno, e fofinho e piroso, como estas coisas devem ser. Eu fiquei de sorriso na cara. O som não estava muito afinado, mas deu para o Marcelo provar o  quão bom guitarrista é, e para sentir a voz doce da Mallu. Também eles estavam rendidos ao Primavera, elogiando o espaço, as pessoas, o Sol que brilhava, enfim, tudo aquilo que é o Primavera. E "mesmo que não venha mais ninguém, ficamos só eu e você(s), sempre fomos bons a conversar".

Terminada a Banda do Mar, fomos espreitar Giant Sand. Confesso que sou um desconhecedor da banda, que certamente terá agradado a todos os apreciadores de Americana e Country. Howe Gelb, o mentor da banda, já cá anda há uns aninhos, e sabe o que faz. Simplesmente não me diz grande coisa, e por isso não fiquei até ao fim, até porque havia que ganhar lugar para assistir a um acontecimento histórico, daqueles de um dia dizer aos filhos e netos: "O pai/o avô estava lá e viu a Patti Smith tocar o Horses na íntegra. Isto é verídico."

E acho que foi perfeito. Do coração, acho que foi o melhor concerto que alguma vez vi no Primavera. E entra para o meu top de melhores de sempre. A encosta estava cheia, o que nunca tinha visto às 7 da tarde, multidão atenta, apercebida de que ali estava um one-time event (porra, sou mesmo poliglota). Patti Smith & Band a tocarem Horses na íntegra. Começamos com as míticas palavras Jesus died for somebody sins, but not mine dessa canção maior que a vida que é Gloria, e logo a multidão está na mão. Todos saltamos, braços de punho fechado no ar, enquanto soletramos G-L-O-R-I-A aiaiaiaiaiaia Gloriaaaa, (e estou neste momento a sentir os arrepios que senti na altura). Patti esbraceja, gesticula, mexe a cintura, e nem sequer nos vem à memória que tem quase 70 anos. Passamos a Redondo Beach, com o seu quê de ska, e depois dos momentos que nunca me esquecerei, quando a spoken word de Patti Smith (acho que lhe posso chamar assim) nos enfeitiça, e nos coloca os pelinhos todos do braço mais que eriçados, e olhamos para os desconhecidos à nossa volta, e todos olham para os seus braços, e sorrimos uns para os outros, e vemos que causou o mesmo efeito a todos. E estamos todos de sorriso na cara, e estamos todos num comício de um partido perfeito, e iremos todos mudar o mundo.

É a próprio Patti quem vira o vinil para o lado B, e atira-se a Kimberly, e a banda que a acompanha mostra como é fantástica (alguns andam com Patti desde o início). Mais à frente seguiria esse mito que é Land, dividida em três actos, sendo os meus preferidos o Horses (e todos cantamos, meio em sussurro, Horsess, Horsess, Horsess, à medida que a canção vai acelerando. A canção segue até ir parar a partes de Gloria, e o concerto está nesta fase no seu auge, e continuamos de punho no ar, e saltamos, e cantamos Glooooooriaaaaa. Ela não se iria embora sem antes nos dar Because the Night e People Have the Power. E lembra-nos que sim, que somos nós que temos o poder, que não os podemos deixar ganhar nem controlarem a nossa vida, e sim, Patti, eu voto em ti. E depois toda a banda se coloca à frente do palco, e agradecem, e aplaudem, e a Patti já tinha dito que estava a adorar este festival, e que esperava sinceramente que a convidassem mais vezes, porque queria cá vir todos os anos.

O Primavera poderia ter acabado depois deste concerto, que eu estaria em êxtase. Mas Primavera é Primavera, e tem sempre muito para dar. Seguia-se a primeira decisão do festival: José González ou Twerps? Bem, deu para ver as duas primeiras músicas do José (e fiquei com pena, mas é mais provável tu voltares cá num futuro próximo, do que os Twerps), e seguimos para o Ptichfork para vermos os australianos Twerps. Começou com pouca gente, e no fim estava praticamente cheio. Como diriam depois, era a primeira digressão pela Europa, e simultaneamente, o último concerto da tour, e eles próprios explicavam que tinham adorado, mas que não sabiam se voltariam a conseguir cá voltar. Por isso tocaram com quem sabe que vai ficar uns tempos sem o fazer. O som não esteve tão mal como é costume no Pitchfork, e foi fixe ouvir aquelas guitarras cristalinas. Tocaram muita coisa do novo álbum, como I Don't Mind, Stranger, Back to You, Simple Feelings, enquanto as vozes vão rodando entre rapaz e rapariga (ela sisuda, ele com cara de ser o dude mais bacano do mundo). Bem dispostas, explicam que o baixista vai sair disparado assim que acabar o concerto para ir ver os Replacements. E apontam para os bacanos que estão ao meu lado (os Viet Cong, que tinham acabado de tocar no ATP) com um "woooow, I know you you!!" de sorriso na cara. Logo vem um bacano tirar uma fotografia com os gajos da banda. São pequenas coisas destas que fazem do Primavera O festival.

Nós não iríamos ver os Replacements. Tocavam à mesma hora de Sun Kill Moon. Fomos tentar jantar (mas as filas eram muitos e decidimos voltar mais tarde) e voltámos para o Pitchfork para ganhar lugar. Mark Kozelek é um cantor de culto. Não é uma pessoa de trato fácil, gosta de chocar com as suas declarações, mas é um dos melhores cantautores de sempre. O seu último álbum Benji é uma preciosidade. É um contador de histórias (pessoais, na maior parte dos casos), atormentado por alguns fantasmas, problemas pessoais, etc. A morte, por exemplo, está muito presente no seu último álbum. Começa por dizer que está muito inchado porque nas últimas 24 horas comeu 20 pratos de caldo verde (a sua editora é a Caldo Verde records) e que Portugal é, sem dúvida, um dos seus locais preferidos para tocar (este é do coração, ele não bajula ninguém). Acompanhado por duas baterias (uma delas tocada por esse Sr. chamado Steve Shelley, dos Sonic Youth) e por Neil Halstead (sim, o Sr. dos Slowdive) na guitarra, cedo se percebeu que não seria um concerto convencional, não seria a cópia ao vivo dos álbuns. Começa com Mariette e depois com Micheline, vociferando, gritando, sentindo-se toda a tensão que deve ir naquela cabeça. Se há coisa de que não pode ser acusado, é a de cantar em piloto automático. Kozelek sente cada uma das palavras das suas canções. Richard Ramirez Died Today From Natural Causes é disso exemplo. Com muito mais bateria do que em álbum, quase que se transforma numa canção hardcore (pelo menos nas vozes), mas sem perder a aura de fantástica canção que é. Nela participou também, na guitarra, Vasco Pinheiro, dos portugueses Blind Zero, ele que já acompanhou Kozelek várias vezes como guitarrista em anteriores digressões. Depois um momento que, apesar de engraçado, é prova do "faço o que eu quiser" de Kozelek: não descansa enquanto a, supostamente, sua amiga Yasmine Hamdan (que tinha aberto o ATP nesse dia) não vem a palco para cantar com ele I Got You Babe de Sonny&Cher, ela que, coitada, mal fala inglês, e nem sequer conhecia a música. Foi esquisito, mas engraçado. Tocou a música dedicada ao seu amigo Benjamin Gibbard (dos Death Cab, depois também lá iremos), Ben's My Friend. Tocou a Dogs (que fala sem pudores das suas primeiras experiências sexuais) e depois Carissa, talvez o ponto alto do concerto, tocante mesmo, onde conta como Carissa, sua prima, morreu, precisamente da mesma forma que o seu tio. The Possum foi igualmente fantástica, e o concerto terminaria com a nova música cujo titulo é demasiado extenso e não me apetece estar aqui a escrevê-lo. Não sem antes mandar a piada "Quem é a banda que está a tocar e a assinar o som do meu concerto?", ao que a assistência segurou o fôlego, para ver o que sairia dali, ao que ele próprio respondeu "Just kidding, relax", numa clara referência à situação passada com os War on Drugs, o ano passado. Voltou a dizer que tinha adorado estar ali connosco, que é sempre um prazer vir a Portugal. Para nós também foi. Não direi que foi um concerto fenomenal (apesar de muito bom), muito menos consensual, mas foi talvez o melhor exemplo do que todos os concertos deveriam ser: vindos do coração. O dele foi-o.

Fomos novamente jantar, e as filas mantinham-se. Mas era agora o já não seria. Isso fez com que perde-se os primeiros dois minutos do concerto dos Belle&Sebastian e que ficasse no pior local de sempre na lateral, sem praticamente me conseguir mexer, encostado às árvores, perto de um local de passagem. Mas são os Belle&Sebastian, e até numa cama de hospital seriam bons de ver ao vivo. E foram-no. Sempre dedicados, alegres em palco, sente-se que são a banda mais fofinha do mundo (até no 500 Dias com Summer eles são lembrados). E tocaram muitas coisas antigas, o que é sempre um regalo para nós, fãs, que não os temos por cá muitas vezes à década (era a 4ª vez, apenas, numa banda com 20 anos de carreira, pelo menos). I'm a Cuckoo, com aqueles assobios, Lord Anthony, com a ajuda de uma rapariga do público, que o pintava enquanto o Stuart cantava, I Didn't See it Coming, e a sequência imbatível que foi If you Find Yourself Caught in Love, The Boy With the Arab Strap (com invasão de palco, e a canção mais alegre do mundo, que todos deveriam poder sorrir ao som de) e, porra, nunca pensei de a ouvir ao vivo, Sleep the Clock Around. Ainda tive esperança que viesse a Electronic Renaissance, mas depois disto, estão mais que desculpados. Eles desabafaram, dizendo que gostavam de tocar mais tempo, mas apenas uma hora lhes tinha sido dada. Nós também queríamos.

O Primavera iria depois parar para ver o concerto mais que especial de Antony & The Johnsons. Era o segundo dos dois únicos concertos que a Antony (fico sempre com dúvidas se é a ou o) daria este ano, propositadamente preparados para os dois Primaveras, ambos com orquestras locais. Seriam acompanhados por muito estranhas, mas simultaneamente belas, imagens de um filme mudo japonês (acho que aquilo tem um nome próprio, mas não sei qual é). Foi a primeira vez que o Primavera parou por completo para que toda a gente pudesse ver um artista. Foi também sua exigência, até porque a sua música precisa de silêncio e, pelo menos de onde eu estava, esse silêncio foi dado. O concerto conseguiu atingir momentos magníficos (a voz dela é indescritível, fenomenal), mesmo que, ao contrário do que é habitual, ela não estivesse ao piano. Começou com a lindíssima Thank You For Your Love, uma forma indirecta de nos agradecer a nossa presença. Lançou cedo também Cripple and the Starfish (um dos pontos álbuns, e eu nem gosto dela por aí além) e Another World. Passou por todos os seus álbuns, até pela sua participação na muito dançável Blind dos Hercules and Love Affair, com uma roupagem clássica, sendo uma das mais ovacionadas. Outros dos momentos que mais gostei foi Epilepsy is Dancing e You Are My Sister (e sim, pensei nela também). Terminaria com a tocante Hope There's Someone, que ouvi praticamente toda de olhos fechados, a fechar cerca de hora e um quarto de concerto. O concerto não deixa de ter sido especial, mas faltou-lhe alguma coisa para ser mágico (acima de tudo factores externos). Notou-se que muita gente começou a sentir cansaço com o tipo de registo (ainda para mais já era depois da meia-noite), pelo que a hora não terá sido a melhor. Também o local, sujeito a ruído, prejudica sempre a actuação, e até o som não estava muito alto (penso que a pedido da banda). Podia ter sido mágico, mas não lhe tirou a etiqueta de especial.

E depois foi a correria. Ariel Pink, Run the Jewels ou JUNGLE, tudo a começar à 01h40, em três palcos diferentes? Para mim restavam Run the Jewels e JUNGLE. Run the Jewels tinham argumentos fortes (e provavelmente nunca mais cá voltam), mas JUNGLE não me largavam e só diziam "anda ver-nos, vais gostar, vais ver, não te vais arrepender". E foi o melhor concerto modo festa que poderia ter tido. Nem vou escrever muito, até porque a maior parte de vocês já deve ter parado a meio, mas foi simplesmente do caraças. Ao ponto de a banda não conseguir esconder que não estava à espera de um público assim. Só faltou a bola de espelhos. A dança esteve lá toda. Não demorarão a voltar, aposto.

A sagração do segundo dia de Primavera ainda continuou para alguns, pois ainda havia Movement e Marc Piñol, mas sou da opinião que, depois da sobremesa, já não se deve comer mais nada. Eu já estava de barriga cheia.





segunda-feira, 22 de junho de 2015

A Sagração do Primavera - Dia 1

Desde já pedir desculpa a todos os que ansiosamente aguardavam por este artigo. Tive tantos pedidos (tudo para cima de mais de, sei lá, um pedido!) que tive que aceder. É que tenho andado em depressão pós-festival. Sim, já estou a ressacar pelo Primavera de 2016. E a verdade é que já falta menos de um ano! 9, 10 e 11 de Junho 2016. Se lá chegarmos, lá estaremos. Será, então, uma mão cheia de Primaveras (e, ouro sobre azul, apenas é preciso meter um dia de férias).

A edição deste ano, para muito "entendido" de música, talvez fosse a menos apelativa. Não tinha uma Bjork como em 2012 (que viria a cancelar duas semanas antes do festival), uns Blur ou um Nick Cave como em 2013, ou uns National, como o ano passado. Mas quem vai ao Primavera, na maior parte dos casos, vai pelo cartaz como um todo, e não apenas por vendedores de bilhetes (não os estou a criticar, hein!, sem dois ou três bons cabeças-de-cartaz, os festivais não acontecem). E por isso o festival (e não foi tanga, pois sentiu-se isso) atingiu novo recorde de assistência.

Este ano decidi ir na véspera. Havia Primavera nas Fontaínhas, com Cícero e Regula, e se já não cheguei a tempo de Cícero, valeu pelo lindo miradouro que ali descobri. Um recanto, com uma vista magnífica das pontes, que vale a pena visitar (e acho que não vem nos guias turísticos!). O pôr-do-sol é do caraças! Quando lá cheguei, e vi aquilo cheio de gente, arrepiei-me todo e pensei: porra, é Primavera, caraças!!! Sorriso na cara durante vários dias. Valeu pela experiência, Regula está em alta e dá um concerto muito competente, mesmo que não o oiça no dia a dia. Uma boa forma de entrar no espírito do Primavera, servindo como recepção aos visitantes (e faz com que muitos prolonguem a estadia no Porto, antecipando-a) mas também de lembrar aos portuenses que o Primavera também é para eles (é uma ocasião gratuita).

Mas o Primavera a sério só começava no dia seguinte. O primeiro dia talvez fosse, comparativamente a outros anos, e também com base nos meus gostos pessoais, o menos entusiasmante. Mas isso não quer dizer que não fosse interessante. Afinal, tinha a estreia em Portugal de FKA Twigs, por exemplo, os agora-já-não-são-tão-bons-mas-os-primeiros-discos-eram-bons-como-o-caraças Interpol ou os sempre bailáveis mas não azeiteiros Caribou. E tem apenas dois palcos em funcionamento, intercalados, o que evita ter de fazer escolhas e assim podemos ver tudo calmamente, sem ter de andar a correr de palco para palco, o que para mim é uma mais valia (para outros será uma desvantagem). Este ano isto não foi 100% assim, pois Patti Smith, na que supostamente seria uma actuação acústica e de spoken word, tocava no palco Pitchfork, pleno de cadeiras, ao mesmo tempo que Mac DeMarco no palco NOS. Mas como tocaria no dia seguinte outra vez, era um concerto mais para aficcionados, não obrigando a uma verdadeira escolha aos restantes.

Não fui muito cedo, como noutros anos. Não propositadamente, mas porque passear no Porto é fixe e a gente perde-se no meio daquelas ruas castiças. Trocada a pulseira sem nenhuma fila, entramos no recinto e, à primeira vista, tudo se mantinha na mesma (isto é mais do que positivo). Checamos logo a barraca do merchandise, e tem muita coisa fixe, mas deixamos para depois. Vemos que os pequenos stands da EDP e da Toyota têm meninas bonitas, e aceitamos as suas ofertas (pipocas e chá). Ainda me pediram o n.º de telemóvel e tudo! Mas era capaz de ser só para efeitos de marketing... Uma pequena alteração no espaço, na minha óptica muito positiva, pois permite a melhor circulação do trânsito, foi a deslocação do espaço VIP para a direita do Parque. Boa decisão.

Bruno Pernadas já tinha ido, e Cinerama já tocavam há meia hora. Chegamo-nos à frente do palco, sentadinhos na relva, som muito alto, e dada algum desconhecimento, meu e da maioria, não entusiasmou por aí além. Mikal Cronin foi o primeiro verdadeiro concerto do Primavera. E saiu logo vencedor. Boas descargas de electricidade, canções orelhudas, que nunca se tornam demasiado fáceis, alguma distorção, e era difícil começar melhor este Primavera. Seguia-se Mac DeMarco ou Patti Smith. Optei por ver um bocadinho de Mac DeMarco, já que Patti Smith tocaria a sério no dia seguinte. E deu para reconfirmar que Mac tem uma verdadeira legião de fãs, canções soalheiras (mas que me soam um bocadinho repetitivas) e que é um grande entertainer. Deu para ver que os elementos da banda que o acompanha são tão malucos quanto ele, que gostam muito de festa e de se divertirem. Não fiquei até ao fim, pois já tinha fome, e a sequência de concertos que se seguiria era forte.

Era a estreia de FKA Twigs em Portugal. Álbum do ano para muito boa gente e possuidora de um som, não revolucionário, mas suficientemente inovador, era um dos concertos mais aguardados. A sua música vive muito de pausas, ritmos lentos, sons graves, e ao vivo isso sente-se. Segundo os relatos, em festival não é tão forte quando numa sala fechada, mas a mim convenceu-me minimamente. É verdade que não é um concerto celebratório (os jogos de luzes são fortes, sente-se muito o baixo, praticamente vive dos mesmos sons), a pedir palminhas, mas é contemplativo (ela dança muito, e bem, de forma sensual), conceptual, diria até que, mais que um concerto, é uma performance. Pede-se um concerto em sala para tirar a prova dos nove. De referir ainda que, a certas alturas, achei que íamos começar todos a procriar, tal a carga sexual da sua música/performance (sem se tornar fácil, como as Miley Cyrus desta vida).

Com o estatuto de cabeça-de-cartaz, seguiam-se os Interpol. Turn on the Bright Lights é, sem dúvida, um dos melhores discos da primeira década do século XXI, mas os últimos álbuns não têm conseguido manter tão viva a chama e o interesse nos Interpol (e nem sequer são maus álbuns, apenas não tão extraordinários). Ainda assim, notava-se que muita gente estava ali para os ver. O ano passado, no Alive, diz que foram completamente desconsiderados e até maltratados (eu entendo, é complicado abrir para os Arctic Monkeys dos dias de hoje - a média de idades deve rondar os 15 anos). Ali, seria diferente. Na verdade, nunca foram a melhor banda ao vivo do mundo (mesmo que tenham andado a abrir concertos dos U2 aqui há tempos), mas o concerto foi competente (usa-se o competente para descrever um concerto quando o concerto não foi mau, mas também não foi a melhor coisa do mundo), e até eles se dão conta de que o passado foi mais marcante do que o presente. Qualquer aficcionado terá ficado satisfeito: houve Say Hello to the Angels, Evil, Leif Erikson, Slow Hands, PDA. Não conseguiram, no entanto, entusiasmarem-me por aí além, apesar de ser sempre bom recordar estas grandes canções (foi pena não tocarem a NYC). O som também não estava muito bom, demasiado baixo, na minha opinião. Não houve praticamente conversa (e muitos concertos precisam ser assim), mas houve direito a encore, com Stella Was a Diver and She Was Always Down e All the Rage Back Home, que foram duas excelentes formas de acabar o concerto. Não foi inesquecível, mas suficientemente competentes para não fazerem má figura.

Seguia-se The Juan Maclean, ou a melhor forma de um noctívago começar a noite. Som potente, a transformar o Parque da Cidade numa enorme pista de dança, ou como a música electrónica dançante não precisa de ser azeiteira nem ter gajos a atirar tartes à tromba do público. Só faltou a bola de espelhos. Caribou iria prolongar esta sensação, com um som milimétrico, banda extremamente sincronizada, muito ritmada, as canções a serem revistas de forma algo diferente do que em álbum. Foi um excelente concerto, com direito à grande canção que é Odessa e ao hit que deve deixar o David Guetta a pensar "gostava de saber fazer música como ele" que é Can't Do Without You. O muito público presente pareceu gostar, e eu também. Ainda houve Sun como encore, que nem ele devia estar à espera de fazer. Concerto ganhador, e provavelmente o grande vencedor do dia.

Dia 1, a mostrar que um Primavera não precisa de muito fogo-de-artifício para fazer uma grande festa.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Casa da Praia

Por hoje, só mais uma coisa: os Beach House regressam a Portugal em Novembro, para concertos em Lisboa e no Porto, dias 23 e 24 respectivamente. Os bilhetes são postos à venda 6ª feira. Contem com os meus 25 euros. Deviam equacionar fazer o mesmo. Nem que seja para ouvir a Victoria dizer "I'll take care of you, in a year or two".


Gostava que fosse já amanhã.

A caminho do Primavera

Sim, falta pouco mais de uma semana. Como sou um gajo previsível, já não penso em mais nada para aí há mais de duas semanas, como devem calcular. Já está tudo praticamente tratado. Estadia, viagem, companhia. Até horários já temos. Só falta ir.

Como não podia deixar de ser, e ainda para mais num festival eclético e para melómanos, existem algumas sobreposições. O ano passado, pessoalmente, sofri um bocadinho mais. Este ano sofro menos, mas ainda assim algumas dúvidas:

05 Junho
José González (20h10) vs Twerps (20h30)
Jungle (01h40) vs Run the Jewels (01h40)

06 Junho
Death Cab for Cutie (22h10) vs Ex Hex (22h30), embora esteja decidido que vai ser DCFC
Ride (23h20) vs The KVB (23h30), embora esteja decidido que vai ser Ride

Para muitos, pode ser uma desvantagem em relação a outros festivais, mas ter o primeiro dia apenas com dois palcos, alternados, é para mim uma satisfação. Podemos ver tudo, sem estar a pensar no que estamos a perder noutro palco qualquer. Este ano não é excepção. Dia 04 Junho é para ouvir tudo! E que bom vai ser ouvir o Sr. Mikal Cronin a rockar ao som disto:


I've been starting over for a long time
I'm not ready for another day
I fail at feeling new
The time is right, I'm only getting older
I'm not ready for the second wave
The weight of seeing through
in Weight
Mikal Cronin

Não deixem de ouvir a Piano Mantra!

domingo, 17 de maio de 2015

Mais suportável

"Mais de 40 anos depois de fundar uma das bandas de culto do punk, Chris Bailey acorda todos os dias impressionado por 'manter o entusiasmo passados todos estes anos'. É um homem com uma visão modesta do seu trabalho. 'Não é o trabalho mais importante do mundo. Por estes dias tendo a achar que as pessoas que constroem casas, as que cozem pão, os enfermeiros e os médicos são mais importantes. Mas é verdade que, sem música, o mundo seria muito menos agradável.' E, por isso, ele continua a querer contribuir para tornar a vida no planeta mais suportável."

in O que é afinal isso do Punk?
por Mário Lopes - Ípsilon , 24 Abril 2015

Sim, sem música a vida era menos suportável.

sábado, 16 de maio de 2015

Iota (um bocadinho muito pequeno)



if only we could turn ouservels around
and all the things we're looking for were found
if only we grew wiser with each breath
if only we could dance our way to death

if only all our dreams were coming true
maybe there'd be some time for me and you
if only all the world could sing along
in perfect rhythm to the perfect song
in Iota
Angel Olsen

Haverá forma mais bonita de descrever quão pequenina e miserável é a nossa vida?

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A caminho do Primavera

Quem for ao Primavera não deverá perder a oportunidade de presenciar a estreia dos Ought em Portugal. Não que eu saiba muito sobre estes senhores. Sei que são canadianos, que têm um par de discos lançados o ano passado, com um bom punhado de excelentes canções, que a voz do vocalista me faz lembrar a voz do Tom Verlaine dos Television, que têm aquela energia que temos quando temos 20 anos. São o que gosto de chamar de punks de camisa para dentro. Som visceral, ora rápido, ora lento, bateria repetitiva, guitarras ao alto, e um excelente frontman.

Não sei ainda em que palco tocam, mas apostaria no ATP. E acho que não haveria melhor palco para um concerto desta categoria. Certamente que haverá empurrões, braços no ar, saltinhos, euforia. Será uma festarola. Melhor só seria possível na Garagem da EPAL. Ou na ZdB. Quem faltar não percebe nada disto. A menos que toquem à mesma hora dos Ride. Ou dos Death Cab.

Já me estou a imaginar, a andar aos saltos, e a abanar a cabeça, ao som disto. Ah!

domingo, 3 de maio de 2015

Daquela vez em que eu...

2006, 26 Novembro, Coliseu dos Recreios. Talvez tenho sido o primeiro concerto "oficial" a que fui. E foi para ver os Gotan Project. E acho que dificilmente haveria melhor forma para começar.

São, digamos, uma fusão de tango com música electrónica, aquilo que alguns chamam de cibertango. Só escutado, mas acho que se consegue ter uma ideia. O nome "Gotan" vem da troca das sílabas da palavra Tango (Tan-go vai dar Go-tan - isto deve ter um nome mas eu não sei qual é). Passados 14 anos da edição do primeiro álbum, e 9 do segundo, e 4 do terceiro, chegamos à conclusão de que a fórmula não terá muito mais por onde evoluir, mas os dois primeiros álbuns, especialmente o primeiro (La Revancha del Tango), são qualquer coisa, daquelas de, quando ouvimos pela primeira vez, ficarmos "o que é isto? Isto é muito bom!!".

Não me lembro de como os descobri, mas não quis perder a oportunidade de os ver, ainda para mais estando a promover o segundo álbum Lunático.

Lembro-me que tinham estado em Portugal não à muito tempo. Mas de vez em quando (e acho que isso também deve acontecer noutros países), cai-nos no goto determinada banda/artista, sem motivos "objectivos". Os Gotan Project são um desses casos. Podiam vir duas ou três vezes por ano, que o concerto teria casa cheia.

Não me recordo se o concerto estava esgotado, mas que estava cheio estava. E eu não tinha bilhete. Mas ainda assim entrei pela porta principal. Na altura a minha prima namorava com aquele que hoje é o seu marido, que por acaso tinha (tem) um irmão que trabalhava no Coliseu. Lembro-me de lá chegarmos, e ele, como se não nos conhecesse, nos recebe como se fossemos uns VIP's quaisquer, encaminhando-nos para o elevador. Aí pica uns "bilhetes" em branco e diz-nos "vocês agora vão sempre em frente, que ninguém vos vai perguntar nada". E assim foi. Lá entrámos, sem qualquer problema, para uma das noites das quais nunca me hei de esquecer.

Nesse mesmo concerto, um dos pontos altos foi quando Sam the Kid (sim, esse mesmo) participa na "Mi Confesíon", quase levando o Coliseu abaixo. Sim, tango, música electrónica e hip-hop. Irresístivel.
Não é só a música que marca os seus concertos. São os vídeos a acompanhar as músicas, a indumentária, as vozes das senhoras que os acompanham, as danças. É um espectáculo que não precisa de fogo de artificio como outros precisam (para distrair da música fraca).

Voltei a ver os Gotan Project em 2008, desta vez no Campo Pequeno. Foram concertos diferentes (é algo que eles conseguem fazer como ninguém, mesmo que as músicas sejam as mesmas), mas ambos fantásticos. Foi como se aquilo se tivesse transformado numa pista de dança gigantesca. Já cá voltaram depois disso, mas por conflitos de agenda, de t€mpo, ou por qualquer outro motivo, não compareci. Prometo fazê-lo na próxima.

Haveria melhor forma de começar este vício de que um concerto "gratuito" dos Gotan Project?


Burn Your Fire for No Witness



Vai se estrear em Portugal em nome próprio em Setembro, a 05 em Guimarães, e a 08 em Lisboa, através da ZdB e logo num sítio como o Palácio Sinel de Cordes (Trienal de Arquitectura de Lisboa). Só vos peço que não comprem o bilhete enquanto eu não fizer. Custam 20 euros e estão à venda na Flur e na Tabacaria Martins.

PS: Vou aproveitar para a pedir em casamento.

A caminho do Primavera

De amanhã a um mês começa o Primavera. Maluquinhos como eu já só pensam: "Como vai estar o tempo?", "Quais serão os horários? Vou conseguir ver tudo o que quero?", "Será que há alguma surpresa de última hora?". É um Síndrome qualquer, ainda não totalmente estudado. Mas eu tenho a certeza que o tenho.

Um dos acontecimentos será sem dúvida o regresso dos Ride, 20 anos depois. Sim, eu era uma criança quando eles deixaram de tocar juntos e não fazia ideia de quem eram os Ride. Mas uns anos depois passei a saber. E estas reuniões servem para provar quão intemporais conseguem ser determinadas bandas. É a diferença em relação a outras reuniões, que mais não servem para alimentar o mercado do saudosismo. Os Ride são uma das melhores bandas britânicas dos últimos 30 anos e o seu Nowhere um dos discos essenciais para qualquer melómano. São parte do "movimento" que se convencionou chamar de shoegaze, a par dos My Bloody Valentine, dos Slowdive ou dos Lush, e que hoje meio mundo refere como influência.

Todos os que, no dia 06 de Junho, estiverem no Porto, poderão flutuar ao som de "Polar Bear", "Kaleidoscop", "Decay" e especialmente (e de olhos fechados) de "Vapour Trail".



segunda-feira, 20 de abril de 2015

A única coisa

Certas músicas têm o poder de, quando as ouvimos pela primeira vez, fazerem com que larguemos o que estávamos a fazer para apenas nos concentrarmos na música. Mais ou menos como quando passa uma rapariga daquelas de uma num milhão, e apenas conseguimos olhar para ela (não lascivamente, está bem?). Normalmente são as mesmas músicas que fazem com que, enquanto as ouvimos, mais nada exista. Não intencionalmente. Apenas acontece. Somos apenas nós e a música. São músicas que expressam luz e escuridão de forma tão magnífica que nem sabemos bem o que dizer. Daquelas de fazer chorar. Mas não por ser lamechas. Apenas a carga emocional contida nela é tal que pode acontecer.

O Sufjan Stevens tem várias destas. Mas a que aqui deixo é digna de pertencer aos Direitos Humanos. Acho que todo e qualquer ser humano deveria, pelo menos uma vez na vida, poder escutá-la. Pode parecer estúpido o que estou para aqui a dizer, quando os naufrágios no Mediterrâneo passam a "mais um" (mesmo que esse mais um tenham sido quase 700 pessoas), um puto com 14 anos mata o professor e fere mais três pessoas por ter sido chamado à atenção devido a um atraso e um ataque numa Universidade no Quénia onde morrem 150 jovens não merece mais do que 60 segundos de reportagem no telejornal. Eu só gostava que nos déssemos todos bem. E que tudo fosse mais fácil.


Do I care if I survive this? Bury the dead where they're

The only reason why I continue at all
Faith in reason, I wasted my life playind dumb

Shoul I tear my eyes out now?
Everything I see returns to you somehow
Should I tear my heart out now?
Everything I feel returns to you somehow
in The Only Thing
Sufjan Stevens

Como já aqui disse, gosto de distorcer as letras das músicas para as aplicar àquilo que quero. Como faço com quase tudo o que me dizem. Faço-o também com esta. Tanto se me dá que me chamem de dramático, calimero, estranho ou anormal. E não, acho que não é uma música romântica. É do último álbum deste senhor: Carrie&Lowell. Toca em Barcelona e Madrid a 29 e 30 de Setembro. Portugal nada.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A caminho do Primavera

Uma das estreias em Portugal que o Primavera apresenta este ano é FKA Twigs. Não, será, certamente, uma desconhecida para muitos, dada a exposição que tem tido. Esta senhora inglesa é um daqueles casos que leva o R&B para um outro patamar. A sua voz doce, as batidas, o extremo sensualismo, são motivos mais do que suficientes para que várias publicações, como a Pitchfork, a Blitz, o Ípsilon, tenham considerado  o seu álbum de estreia como um dos melhores do ano passado. E nem é preciso perder outra coisa para a ver. Toca no primeiro dia, 04.06. Não há sobreposições. Obrigatório.

Ontem



Yesterday all my troubles seemed so far away
Now it looks as though they're here to stay
Oh, I believe in yesterday
in Yesterday
The Beatles

terça-feira, 7 de abril de 2015

A caminho do Primavera

Daqui a dois meses já o Primavera terá acabado. Saudosista que sou, ainda nem começou e eu já estou triste por estar a terminar. Para me ajudar a manter no rumo certo, e para pelo menos motivar alguém a  ouvir alguma das bandas (já nem digo ir...), acho que é meu dever tentar mostrar o quão fantástico está o cartaz.

Comecemos por Antony. O facto de, este ano, apenas tocar no Primavera (em Barcelona e no Porto), já é um forte motivo. Mas depois há a sua voz, o sentimento que coloca em cada música, a melancolia, as letras, o piano, etc. E ainda para mais traz os seus Johnsons. É capaz de haver margem para isto


e para isto



A não perder, Antony & the Johnsons, dia 05 Junho, no Primavera Sound do Porto.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Mercado de Música Independente

Hoje em dia cada vez conseguimos menos ser independentes, seja no que for. Mas podemos continuar a tentar, mesmo que seja em pequenas coisas. A música também continua a tentar resistir. Até porque o 25 de Abril está quase aí. Por isso, acho que devíamos todos visitar o primeiro Mercado de Música Independente, que vai ter lugar em Lisboa, de 24 a 26 de Abril de 2015, no Picadeiro Real do Antigo Colégio dos Nobres, no Museu de História Natural. Vão lá estar editoras nacionais como a Amor Fúria, a Flor Caveira, a Mbari, a Groovie Records, entre outras. Para além de a entrada ser livre (normalmente a primeira pergunta a ser feita), ainda oferece concertos gratuitos, como o do escocês Alasdair Roberts, no dia 24 (não é um gajo qualquer, está bem? É editado pela americana Drag City, convidada internacional e casa-mãe de "coisas" extraordinárias como Joanna Newsom, Bonnie "Prince" Billy, Bill Callahan ou Jessica Pratt), entre outros.

Fica o convite. É de divulgar.

Sábado - 25.04 - 11h-20h
Domingo - 26.04 - 12h-18h

88

terça-feira, 24 de março de 2015

Festa

Acho que toda a gente gosta de ir a festas, mesmo os que dizem que não gostam. Amanhã começa uma Festa que dura mais de uma semana: a Festa do Cinema Italiano 8 1/2. Tem por salão de baile as diversas salas do Cinema São Jorge e muitos serão os seus adereços. Eu gosto de lá ir.

Para começar, a estreia em Portugal de "O País das Maravilhas" de Alice Rohrwacher, já amanhã às 21h30. Para mim, apesar de todas as boas críticas e da interessante sinopse (esta palavra é mesmo muito à frente...), basta saber que a Monica Bellucci participa no filme...

Domingo é dia de (re)ver "Cinema Paradiso" (estou neste momento a dizer isto em italiano - Xinémá Párádizo, e não me canso de o dizer), numa cópia restaurada da versão original de 1988. É às 16h, e quem faltar não merece nada desta vida.

Não sei se vai dar, mas queria, também no domingo, de ver "Il treno va a Mosca", que com recurso a imagens de 1957, retrata os preparativos para uma viagem de um grupo de habitantes de uma pequena aldeia, inteiramente (ou quase) comunista, a Moscovo. Diz que é um retrato fiel do que significou o comunismo italiano e da Itália na década de 50.

Sergio Leone também vai ser homenageado. Vão ser exibidos alguns dos seus filmes. Destaque para "O Bom, o Mau e o Vilão", também em cópia restaurada. É na quarta, dia 01, às 21h00.

Os bilhetes a preço normal custam 4 euros (2,50 euros para menores de 25). Não é desculpa para não irem.
Mais informações aqui: http://www.festadocinemaitaliano.com/ 

segunda-feira, 23 de março de 2015

O bicho

"Úrsula perguntava-se se não seria preferível deitar-se de uma vez na sepultura e que lhe lançassem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para aguentar tantos sofrimentos e mortificações; e pergunta atrás pergunta ia atiçando a sua própria ofuscação e sentia uns desejos irreprimíveis de desatar a dizer asneiras como um forasteiro, conceder-se finalmente um momento de rebeldia, o momento tantas vezes ambicionado e outras tantas vezes adiado de enfiar a resignação por um certo sítio e mandar tudo à fava de uma vez por todas e despejar do coração os infinitos montões de palavras feias que tinha tido de engolir durante um século inteiro de conformação.
- Carago! - gritou.
Amaranta, que começava a meter a roupa no baú, julgou que tinha sido mordida por um lacrau.
- Onde está? - perguntou alarmada.
- O quê?
- O bicho! - esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs um dedo sobre o coração.
- Aqui - disse."
in Cem Anos de Solidão p. 202
Gabriel García Márquez

domingo, 22 de março de 2015

Dias perdidos


We were just wasting time
We were just wasting time
in Days
The Drums

Daquela vez em que eu...

Lembro-me que Novembro de 2010 foi um mês insano (a Radar apelidou-o disso mesmo - Novembro Insano) em termos de concertos em Portugal: Interpol, Walkmen, The Drums, Vampire Weekend, !!! (Chk Chk Chk), Black Rebel Motorcycle Club, Broken Social Scene, e mais um porradão deles. Dava para assistir a um concerto diferente todos os dias. Isto para quem tivesse tempo (€) para isto tudo. Alguns tinham sido anunciados com mais tempo, outros eram anunciados mais em cima da hora. Um desses casos foi Imogen Heap. Tocava mais para o fim do mês. Era a estreia em Portugal, e logo em dose dupla (Lisboa e Porto).

Na altura eu já não a ouvia com a regularidade de outros tempos, mas sempre a quis ver ao vivo. Speak for Yourself foi-me apresentado por uma série de TV que já aqui mencionei (sobre ricos e pobres, e essas coisas). Não deixando de ser acessível, mantinha-se muito independente na escrita e composição de canções, brincando com teclados, sintetizadores, autotune , electrónicas, fazendo um estilo muito próprio. "Hide & Seek", "The Moment I Said It", "Just for Now", "Let Go", "Speeding Cars" etc., eram tudo canções pop fantásticas. Comprei o bilhete na véspera, e lá me decidi a ir.

O concerto foi na Aula Magna, que cedo deu evidências de não encher. Estaria talvez meia sala. A cenografia já estava montada. Era simples, mas com muito bom gosto, com uma árvore branca no centro do palco, piano transparente e todos os instrumentos necessários em seu redor. A tela, bem como toda a iluminação, iria ao longo da noite embelezar as canções. Na 1ª e 2ª partes tocariam os projectos paralelos dos músicos que a acompanhavam nessa digressão. E seria ela a fazer questão de os introduzir. Em primeiro lugar tocava Ben Cristophers. Depois seriam os Geese (estes até me deixaram muito boa apresentação, e até comprei o 1º EP deles).

Entre Ben Cristophers e os Geese havia que preparar o palco e os instrumentos. Para fazer tempo, Imogen regressa ao palco, interage com o público, diz-se agrada de estar em Portugal, sempre brincalhona e bem disposta, e após um momento de silêncio,  perguntou se alguém tinha alguma questão. Ninguém se dignou a fazer nenhuma, e o silêncio continuava. Como pessoa que não tem nada a perder, decidi tentar a minha sorte. Perguntei-lhe se queria casar comigo. Eu, como já devem ter notado, tenho uma facilidade enorme em pedir "desconhecidas" em casamento (já as que conheço, nem em namoro, quanto mais em casamento...). Ela, como bem humorada que é, entrou na brincadeira. Disse que o namorado já tinha regressado a Inglaterra, que se calhar eu tinha uma hipótese. Ainda hoje estou à espera. Mas ficou o pedido. E para todos os efeitos, nunca ninguém recusou um pedido meu de casamento.


Por fim, lá se iniciou o concerto da Imogen, daqueles à antiga, que se prolongou por mais de 2 horas. Lembro-me que o som da Aula Magna estava impecável (como aliás está quase sempre), o público era conhecedor, e a voz da Imogen (apesar de muitas vezes propositadamente trabalhada) soava tão bem ao vivo como em disco.

Sempre simpática, não quis que o concerto fosse apenas uma sequência monótona de canções, com uns obrigados pelo meio. Todas elas eram introduzidas com o "once upon a time" e algum facto interessante relativo à escrita da canção, com muito humor pelo meio. A setlist do concerto era feita pelos fãs, permitindo que músicas menos tocadas ao vivo pudessem ter lugar, algumas que ela tinha até dificuldade em iniciar.

Foi um concerto para o qual fui sem grandes expectativas, mas que me arrebatou por completo. E onde quase conseguia noiva. Foi daquela vez em que eu quase me casei.

Depois deste concerto nunca mais cá regressou. Terá sido pelo meu pedido de casamento?

sexta-feira, 20 de março de 2015

Banda de música

"Algo semelhante aconteceu com os gramofones de cilindros que as alegres matronas de França trouxeram para substituir os realejos e que tão profundamente afectaram por algum tempo os interesses da banda de música. Ao princípio, a curiosidade multiplicou a clientela da rua proibida e até se soube de senhoras respeitáveis que se disfarçaram de vilões para verem de perto a novidade do gramofone, mas tanto e de tão perto o apreciaram, que depressa chegaram à conclusão que não era um moinho de sortilégio, como todos pensavam e as matronas diziam, mas sim um truque mecânico que não podia ser comparado a algo tão comovedor, tão humano e tão cheio de verdade quotidiana como uma banda de música."
in Cem Anos de Solidão p. 182
Gabriel García Márquez

Eu também acho.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Por que lutas?

"Uma noite perguntou ao coronel Gerineldo Márquez:
- Diz-me uma coisa, compadre: por que lutas?
- Porque tem de ser, compadre - respondeu o coronel Gerineldo Márquez. - Pelo grande Partido Liberal.
- Que sorte tens em sabê-lo - respondeu ele. - Eu, pela parte que me toca, só agora me apercebo que luto por orgulho.
- Isso é mau - disse o coronel Gerineldo Márquez."
in Cem Anos de Solidão, p. 113
Gabriel García Márquez

quinta-feira, 5 de março de 2015

Vinte e sete anos de solidão

"O tempo acalmou os seus imprudentes propósitos, mas agravou o seu sentimento de frustração. Refugiou-se no trabalho. Resignou-se a ser um homem sem mulher toda a vida para ocultar a vergonha da sua inutilidade."
in Cem Anos de Solidão
Gabriel Garcia Márquez

segunda-feira, 2 de março de 2015

Daquela vez em que eu...

Ainda me lembro das notícias que davam conta da possibilidade do Primavera Sound ter uma edição no Porto. Surgiram lá para Setembro de 2011, e logo os maluquinhos (como eu) que só ouvem música e bandas que ninguém conhece (ou pelo menos assim o gostam de pensar) ficaram impacientes e a salivar. O Primavera Sound é uma das referências mundiais (se não A referência) a nível de festivais, especialmente os que levam a programação muito a sério. Não havia como não ficar a salivar.

Em Outubro eram colocados os primeiros 1000 bilhetes à venda, que voaram em 24 horas. Em Novembro saíam os primeiros nomes, com, entre outros, Bjork logo à cabeça (e que haveria de cancelar umas semanas antes), Yo La Tengo e, cada vez que me lembro da minha reacção, JEFF MANGUM (o mentor dos Neutral Milk Hotel, adormecidos na altura desde 1998, e que eu nunca esperei ver ao vivo).  Meia-dúzia de dias depois, eram anunciados os Walkmen e os Shellac. Um dia depois saíam WILCO (2ª vinda a Portugal), The Drums, Washed Out, e eu só pensava onde é que o cartaz iria parar. Era cada tiro, cada melro. Dias depois a bomba que me vez adiantar o valor do bilhete com mais de seis meses de antecedência: Death Cab for Cutie! (estreia absoluta em Portugal), Explosions in the Sky (regresso passado uns 9 anos), The XX, Beach House...

O cartaz não estava minimamente fechado mas esta primeira edição, para mim, já prometia ser memorável. Os Death Cab for Cutie (DCFC) estreariam-se finalmente em Portugal! Uma banda com uns 15 anos de carreira, álbuns memoráveis, a referência de qualquer xoninhas que acha que ninguém gosta dele (que melhor banda para eu ter por referência?), pela primeira vez aqui pelo burgo! E os Explosions in the Sky, para eu poder extravasar a ouvir músicas cheias de "esperança e positivismo" como "Greet Death", "The Birth and Death of the Day", "The Moon is Down", entre tantas outras! E os Wilco! E os Walkmen! E os Yo La Tengo! Tudo bandas que me conhecem melhor do que os meus melhores amigos! Ainda me lembra de andar histérico em casa, a pegar em todos os CD's de bandas que lá iam, e correr para a minha mãe e dizer (era a melhor forma de explicar o meu contentamento): "Mãe!!! Vão lá estes todos!!" E os CD's quase que não me cabiam nas mãos.

Escusado será dizer que comprei o bilhete, ainda com um preço especial. Foram 75 euros, dados em Dezembro de 2011, sem qualquer pestanejamento.

Os meses foram passando, o cartaz foi sendo encerrado (e lá me deram mais bónus como M83, The Rapture, Linda Martini, The War on Drugs, I Break Horses, Atlas Sound...), a impaciência positiva aumentando. Mas o Primavera Sound também tem, dado os enormes cartaz que constrói, algum histórico de cancelamentos. Primeiro foram os Death Grips e os Ultramagnetic MC's, depois foi a Bjork (estava, se bem me lembro, com uma infecção na garganta, que a levou a cancelar diversos concertos). Não me fizeram grande moça, confesso. Estava no estrangeiro quando fiquei a saber que os Explosions in the Sky também não estariam (devido a doença grave da mãe de um dos senhores). Fiquei chateado, mas o cartaz era bom demais para ser desastroso. Fariam falta, mas quando lá estivesse nem me lembraria deles.

O festival começou, tudo corria bem, até que chegou o 3º dia de concertos (último no Parque da Cidade). Choveu torrencialmente o dia todo. Apanhei, sem dúvida alguma, a maior molha da minha vida, para conseguir entrada para a Casa da Música (o concerto do Jeff Mangum seria lá, e a entrada era limitada). Mas consegui (e valeu a pena)!

Perdi os primeiros concertos do dia (para conseguir os tais bilhetes), mas também não me fez grande moça (queria ter visto Gala Drop, mas paciência). Era dia de DCFC! Arranquei para o palco, para conseguir um bom lugar (já lá estavam bastantes com o mesmo objectivo que eu). Já referi que choveu sem parar durante todo o dia? Tinha abrandado naquela altura, mas, e que erro de principiante!, o palco era descoberto por trás, o que significa que estava completamente alagado. Lá estávamos nós, a ver os senhores da organização a tentarem remediar a situação, colocando a cobertura atrás, secando o piso, varrendo a água...

Aproximava-se a hora prevista para o concerto, e logo se percebeu que iria começar atrasado (e continuava aquela chuva miudinha, dita molha-parvos - compreendo agora a alcunha). Passaram 10 minutos após a hora marcada, 15 minutos, 20 minutos e nada. Eu percebi que não haveria concerto, pelo menos não ali, e eu estava fulo, tal como tantos outros. Não era tanto por não haver concerto, mas sim pela situação em si. Havia previsão de chuva, não acautelaram a situação (resguardando a parte de trás do palco - os outros palcos estavam a funcionar bem) e sentiamo-nos enganados, pois ninguém se dignava a explicar que, dadas as circunstâncias, não poderia haver concerto. Como muitas vezes faço, baixei os braços e arranquei para o palco ATP, onde iriam tocar os I Break Horses (que dada a hora dos DCFC não conseguiria ver). O som não estava muito bom, e a própria sonoridade da banda pede uma sala onde não se percam os pequenos pormenores (escusado será dizer que não gostei muito do concerto). Fiquei depois a saber que finalmente alguém se tinha chegado à frente do palco onde os DCFC deveriam tocar para "anunciar" que não haveria concerto, como se ainda houvesse alguma esperança. Não, não foi grande dia. Para além de toda esta situação, o facto de estar encharcado (e depois até parou de chover), o anoitecer, o ter os ténis todos rotos e cheios de água e lama, o cansaço, fez com que não aproveitasse o resto do dia (ainda vi os Kings of Convenience, os The XX, The Weeknd, Washed Out). Foi um dia marcante, mas não de forma positiva.

Foi assim que a estreia em Portugal dos Death Cab for Cutie se limitou ao soundcheck (que sei de fonte segura que fizeram). A primeira edição, por excelente que tenha sido, será sempre marcada por aquele dia em que eu apanhei uma molha do caraças e ainda assim não vi os DCFC. O concerto, esse, mantém-se adiado até Junho, três anos depois do previsto.

É isto que faz do Primavera um festival especial - assim que houve oportunidade (mesmo que tenham sido 3 anos depois, e isso explica-se até porque os DCFC tocam poucas vezes na Europa), a organização faz questão de cumprir o que se propôs inicialmente (e daí que toquem apenas no Porto e não em Barcelona). Os Explosions in the Sky vieram no ano a seguir, sem terem qualquer tour marcada na Europa, e este ano os DCFC iniciam a tour por cá (aposto que não era isso o previsto).

Não, Primavera, daquela vez em que eu não vi os DCFC não abalou minimamente a nossa relação.

Deixo-vos a actuação deles no David Letterman, a mostrar o novo single. O novo album sai no final deste mês. E esta música promete. Vamos ver.


PS: O Ben Gibbard era casado com a Zooey Deschanel. Aposto que foi ela que o pôs a andar. Bitch. Não perdes as manias do 500 Days of Summer. Ainda assim, aceito casar contigo, se quiseres.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Decisões



Why won't you make up your mind?
Give me a sign!
Why won't you make up your mind?
Give me a sign!
Am I wasting my time living in my head?
You'll be sorry when I make up mine instead
in Why Won't You Make Up Your Mind?
Tame Impala

Alternativo

"Smells Like Teen Spirit é um disco clássico de rock 'alternativo'. Isso requer algumas explicações: 'alternativo' é um termo de marketing destinado a satisfazer as exigências elitistas dos consumidores, ao mesmo tempo que alerta os gestores para o facto de as vendas poderem não igualar as extravagâncias ilimitadas do mainstream do mercado rock. Acima de tudo, o selo 'alternativo' é uma forma de controlo. Classifica um disco como demasiado ruidoso ou violento para estações de rock 'adultas', que podem saber lidar com os U2, mas não com a fúria das guitarras de uma juventude esfaimada. Mas o simples facto de um disco ser aceite para radiodifusão 'alternativa' ou emissão televisiva mostra que não é uma ameaça directa à filosofia estabelecida da estação. Os discos genuinamente subversivos - que não se moldam às expectativas dos públicos, ou que desafiam tabus estabelecidos, sejam eles sociais, sexuais ou políticos - não têm sequer o estatuto de alternativos; não passam, de todo, na rádio."
in Nirvana & O Som de Seattle p. 156
Brad Morrell

Acho que nunca tinha visto o conceito de 'alternativo' na música tão bem explicado como por este senhor. A explicação data de 1993 e, apesar de algumas alterações na forma de se fazer/ouvir música, mantém-se praticamente intacta. 

Eu nunca gostei do conceito 'alternativo'.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Estar à espera ou procurar


Este pseudo-blog faz hoje um ano, e tem hoje mais leitores do que quando começou. O crescimento deve andar na ordem dos 100%. Antes era só eu que o lia. Agora devem ser para cima de 4 pessoas.

Obrigado a vocês por perderem aqui um bocadinho da vossa vida (ninguém vos devolve esse tempo de vida, ok?). Vocês sabem quem são. :)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

No Shade in the Shadow of the Cross



Só sai em Março, mas já podemos ouvir a primeira canção do novo álbum de Sufjan "o melhor de todos os tempos" Stevens. Chama-se "No Shade in the Shadow of the Cross" e sim, é um regresso ao som mais folk e puro a que nos habituou (mas a vertente electrónica é igualmente boa!). É fantástica, silenciosa, triste. Acho que é fácil saber que estará nos melhores do ano (e automaticamente nos melhores de sempre).

Não temais!

O Primavera continuará a ser Primavera, pelo menos em 2015 (e 99% de certezas de que em 2016 também, e 2017...). Pelo menos para mim.

Não tem cabeças de cartaz dignos desse nome? Não, no modelo a que estamos habituados, não tem. Não tem propriamente nomes imediatos, de causarem falatório. Mas em 2015 (em especial, mas numa tendência que tem sido notória nos últimos anos), são cada vez menos as bandas capazes de assumir tal rótulo. Basta ver os cartazes da maior parte dos festivais europeus e americanos. Mas o Primavera nunca foi propriamente um festival que vivesse de headliners. Obviamente que é um festival, e por mais que seja feito por pessoas que vestem a camisola, que gostam de música acima de tudo, precisa de vender bilhetes. Ponto. E, tirando algumas excepções, não será com Einsturzende Neubauten ou Xylouris White que o conseguem. Mas com um grande leque de bandas de "2ª linha" (falamos em termos de exposição mediática, para mim são bandas de 1ª linha) talvez o consigam. E foi isso que fizeram na edição deste ano. Pode ser uma questão cerebral, mas fiquei contentissimo com o cartaz da edição do Porto, o que com a edição de Barcelona não aconteceu (fiquei apenas satisfeito), e os nomes do Porto estão praticamente todos em Barcelona! Mas a peneiração (esta palavra é capaz de não existir) foi tão bem feita, que o que calhou ao Porto é um conjunto forte, um cartaz sólido.

E há nomes para (quase) todos os gostos: desde os metaleiros Electriz Wizard e Pallbearer, aos delicados Antony e os seus Johnsons (concertos exclusivos e únicos em todo o ano para o Primavera), José Gonzaléz (que esgotou o concerto de Lisboa de dia 19.02) e Damien Rice (que pelas minhas contas apenas esteve em Portugal uma vez, a fazer a 1ª parte dos Lamb em 2003), dos dançáveis Caribou e Underworld (a recriarem, 20 anos depois, dubnobasswithmyheadman) aos históricos The Replacements, Patti Smith (em dose dupla) e os Ride. Já nem falo nos meus favoritos Belle & Sebastian e Death Cab for Cutie (que estarão no Porto e não em Barcelona), na malta nova (Ought, Mikal Cronin, Mac DeMarco, JUNGLE, Foxygen), no hip-hop do bom de Run the Jewels, entre muita outra coisa. Até as propostas nacionais são boas (Bruno Pernadas, Banda do Mar e Manel Cruz - sim, esse mesmo, dos Ornastos Violeta, que vai apresentar um concerto especial, que passará por toda a sua carreira). Propostas não faltam. E ainda há tempo suficiente para se estudar o que não se conhece.

Só nos resta celebrar haver um festival que, acima de outros interesses, pretende fazer dinheiro com cartazes consistentes. Não tem Black Keys e Strokes como Barcelona? Não, não tem. Paciência. Estiveram cá à pouco tempo. No meu caso, fico contente de olhar para o cartaz, e nunca ter conseguido ver nenhum dos nomes. Isso não acontece todos os dias.

Primavera, podem contar com esta andorinha!

O cartaz, em termos gráficos, até ficou engraçado (com o sol, e a relva em baixo, e tal). Mas a forma como colocaram os nomes...mehh

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Daquela vez em que eu...

A primeira vez que fui ao Alive foi em 2009, na sua 3ª edição. Tinha um objectivo muito definido - ver os Gaslight Anthem. Era a primeira (e mantém-se a única) vez que vinham a Portugal. Tinham lançado em 2008 o seu segundo álbum - The 59'Sound. Ainda hoje é um dos meus álbuns favoritos, e na altura então não me saía da cabeça. Cerca de um mês antes tinham tocado em Glastonbury, com o Bruce Springsteen a juntar-se a eles para tocar essa magnífica "59'Sound". Eu tinha a esperança irrealista de que ele viria cá fazer o mesmo.

As minhas primeiras dúvidas (embora eu soubesse que iria) em estar ou não presente colocaram-se quando saíram os horários. Os Gaslight tocariam no palco "secundário" (o que até era bom) e seriam os primeiros do dia, antes até de que uns gajos quaisquer que tinham ganho um qualquer programa, e que nunca ninguém mais ouviu falar. Bem esprimidinho, daria para uns 40 minutos de concerto. Compensava-me pagar 50 euros para ver 40 minutos de Gaslight? O resto do dia nem me interessava por aí além. Havia, que me interessasse minimamente, os Placebo, os Does It Offend you Yeah? (que ao vivo são péssimos - muita gritaria e pouca música), os Prodigy, os Kooks (que na altura ainda me diziam alguma coisa), Blasted Mechanism (sempre entusiasmantes ao vivo), mas nada que eu dissesse "40 minutos de Gaslight e isto e chega e sobra!". Mas eu tinha de ver os Gaslight.

Fui para lá, relativamente cedo, sem bilhete. Até começou bem - o bilhete custou-me € 30,00, em vez de € 50,00. A partir daí só podia ser bom.

O concerto começava às 17h00. Não eram muitos os presentes, e os que lá estavam, na maior parte dos casos, era gente como eu - estávamos ali para ver o quarteto que partilha a mesma cidade natal que o Boss. Ainda para mais todos tínhamos um bom lugar. Seria um concerto entre amigos.

O concerto, verdade seja dita, não foi o melhor de sempre, mas ainda assim longe de não valer a pena. Foi (o tempo não dava para mais) sempre a abrir, sem espaço para muita coisa. Mas teve muito bons apontamentos - a "59'Sound" esteve lá, a "Casanova, Baby", "Miles Davis & The Kool", "Great Expectations" ou a "Backseat" a fechar. Não houve muita conversa, mas eu também confesso que (tirando algumas excepções) muita da conversa tira espaço para mais músicas, e não acrescentam nada ao concerto.

Mas uma das minhas músicas favoritas dos Gaslight Anthem é a "1930". E eu queria mesmo ouvir essa música. Sabia que não a andavam a tocar com regularidade, mas em casos pontuais o faziam. E fanboy como sou (sim, qual é o problema? Desde que não seja de forma fanática...), imprimi numa folha A4, a bold, tamanho bem grande, os números "1930". Acho que se percebia a mensagem. Entre músicas, lá levantava eu a folhinha, na esperança de perceberem o quanto eu a queria ouvir.

Lá para o meio, o Brian Fallon (e não é que este gajo faz anos no mesmo dia que eu?), o vocalista, tira todas as minhas dúvidas, se estavam a fazer que não viam, ou se não queriam ver. "Sorry, man, we haven't played that for a while. Sorry. Maybe next time." Sim, não tocaram mesmo.

Se deixei de gostar deles? Não, claro que não. O facto de terem pedido desculpa e de se terem dirigido a mim (estupidez! o que estou para aqui a dizer?) para mim foi como se a tivessem tocado. E continuo à espera da "next time". Todos os anos espero que aconteça. Talvez seja este ano. Maybe.

Para mim, será sempre "daquela vez em que eu fui ao Alive ver os Gaslight e eles não acederam ao meu pedido para tocar a 1930".

Os Gaslight têm agora uns 4 ou 5 álbuns, mas os últimos não chegam (apesar de não serem maus) ao requinte dos dois primeiros. As letras são fantásticas, conseguem ter canções rápidas, lentas, lentas e rápidas na mesma música, no fundo são de New Jersey, como o Bruce. Podem dar-lhes uma oportunidade, por favor?
You said I love you more than the stars in the sky,
(Nobody does it like you anymore)
But your name just escapes me tonight.
in 1930
Gaslight Anthem

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Paris

"- Nós aqui não sabemos viver - dizia Piotr Oblonski. - Eu passei o Verão em Baden, e acredites ou não, sentia-me como um jovem. Via uma mulher jovem, e os pensamentos... Comemos, bebemos um pouco - e sentimos força, vigor. Cheguei à Rússia, tive de ir ver a minha mulher, e ainda por cima ao campo - bem, nem acreditas, ao fim de duas semanas vesti o roupão, deixei de mudar de roupa para o jantar. E as jovens, nem pensar! Tornei-me um autêntico velho. Só me resta a salvação da alma. Fui para Paris - de novo recuperei."

in Anna Karénina, p. 736
Lev Tolstoi