segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Meia-noite em Paris

Não costumo me deixar amedrontar por notícias de atentados, ameaças, sequestros, etc. No fundo, acho que por nunca me ter tocado pessoalmente, nunca ter sofrido na pele. Claro que fico horrorizado por tais barbáries, chocado por alguém ter o sangue frio para tais actos, na maior parte dos casos, contra inocentes. Mas, e talvez esteja a ser demasiado frio, até insensível, nunca me tinha tirado o sono. Incomodava-me, mas deixava-me dormir.

O atentado da passagem sexta-feira veio alterar isso. Confesso que este foi talvez, até hoje, o atentado que mais me marcou. Não me sai da cabeça. Porquê? Apesar de ainda não se saber muito bem o porquê de terem sido escolhidos aqueles locais, como o Bataclan, e não um qualquer outro espaço, se foi facto aleatório, se não, não consigo deixar de pensar que uma carnificina foi levada a cabo numa sala de espectáculos, num concerto. Não consigo deixar de me identificar com eles. Também eu frequento muitos concertos, festivais, eventos relacionados com música. Até tenho este meu pseudo-blog que vive muito à base da minha paixão pela música. No fundo, a música, os concertos, são aquilo que me deixa de sorriso de orelha a orelha, ouvir aquela música, aquela banda, aquele acorde, aquele sussurro, o carácter efémero, e por isso irrepetivel que cada concerto tem. 

Na sexta-feira quiseram por isso em causa. Foi em Paris, é certo, mas podia ter sido noutro lado qualquer, num qualquer concerto onde eu estivesse presente (nem sequer conta para o caso, mas já estive à porta do Bataclan, e até já vi os Eagles of Death Metal, que de metal nada têm). Foi mais do que um atentado contra a França, ou mesmo contra o Ocidente. Não foi certamente apenas a procura de locais ao acaso, onde houvesse gente para matar. Foi contra o seu modo de vida (que não é perfeito), a sua juventude, a sua "normalidade". Quis passar-se uma mensagem. E, consequentemente, também se atacou a música. E eu não consigo deixar de pensar nisso.

No sábado, por coincidência, passou no Lisbon&Estoril Film Festival o Meia-noite em Paris. Já tinha a intenção de o ir ver (pode não ser o melhor filme de sempre, mas é um dos meus preferidos, e não me canso de o ver). Foi, de certa forma, uma maneira de homenagear Paris e as suas vítimas, que, no fundo, somos todos nós. E não deixava de sorrir ao ver o quão bela é aquela cidade.

Tal como no Casablanca, também eu não quero deixar de dizer "We will always have Paris". E digo-o de forma saudosa.

PS: vale a pena ler a crônica da Lia Pereira no site da Blitz. Motivou-me a escrever este post.

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