terça-feira, 30 de junho de 2015

A Sagração do Primavera - Dia 2

Para muito boa gente, o Primavera só começa verdadeiramente no 2º dia. É, por natureza, o dia em que o festival realmente opera a todo o vapor (não é o meu caso). O palco ATP e o Pitchfork entram ao serviço, a programação começa mais cedo, acaba mais tarde, já temos de fazer escolhas e decidir que bandas vamos perder, sente-se a correria, etc. E sim, sente-se a felicidade no ar.

Ao contrário da véspera, cheguei ao Parque da Cidade cedinho. Não houve passeata pelo Porto (as pernas estavam um bocadinho fatigadas, estava calor, e a moleza apertou, mas ainda deu para ficar a conhecer o Mercado do Bom Sucesso, que está engraçadito), pelo que estávamos fresquinhos para o longo dia que se seguiria. E para além disso, havia Banda do Mar a abrir o dia, o que é sinónimo de obrigatoriedade de estar presente. Quanto mais não fosse porque a Mallu Magalhães hipnotiza. Raios partam o Marcelo. Mas vá, desisto só porque o Marcelo é um porreiro (e também porque eu não teria hipóteses). E falando sobre o concerto, muitos eram os presentes ao mesmo, mesmo que a hora fosse "madrugadora", não só de corpo presente, mas conhecedores da banda. E não há como não gostar da Banda do Mar, uma banda que é, acima de tudo, um hino ao amor e à amizade. E dá para sentir como o Marcelo e a Mallu gostam um do outro, e como o Fred Ferreira gosta deles os dois, e eles os dois do Fred. A música final, que teve de ser encurtada dado o extinguir do tempo (também ninguém os mandou chegarem atrasados), foi disso prova, com o Marcelo a ir buscar a Mallu, e a irem todos, abraçarem-se junto do Fred. E pareceu genuíno, e fofinho e piroso, como estas coisas devem ser. Eu fiquei de sorriso na cara. O som não estava muito afinado, mas deu para o Marcelo provar o  quão bom guitarrista é, e para sentir a voz doce da Mallu. Também eles estavam rendidos ao Primavera, elogiando o espaço, as pessoas, o Sol que brilhava, enfim, tudo aquilo que é o Primavera. E "mesmo que não venha mais ninguém, ficamos só eu e você(s), sempre fomos bons a conversar".

Terminada a Banda do Mar, fomos espreitar Giant Sand. Confesso que sou um desconhecedor da banda, que certamente terá agradado a todos os apreciadores de Americana e Country. Howe Gelb, o mentor da banda, já cá anda há uns aninhos, e sabe o que faz. Simplesmente não me diz grande coisa, e por isso não fiquei até ao fim, até porque havia que ganhar lugar para assistir a um acontecimento histórico, daqueles de um dia dizer aos filhos e netos: "O pai/o avô estava lá e viu a Patti Smith tocar o Horses na íntegra. Isto é verídico."

E acho que foi perfeito. Do coração, acho que foi o melhor concerto que alguma vez vi no Primavera. E entra para o meu top de melhores de sempre. A encosta estava cheia, o que nunca tinha visto às 7 da tarde, multidão atenta, apercebida de que ali estava um one-time event (porra, sou mesmo poliglota). Patti Smith & Band a tocarem Horses na íntegra. Começamos com as míticas palavras Jesus died for somebody sins, but not mine dessa canção maior que a vida que é Gloria, e logo a multidão está na mão. Todos saltamos, braços de punho fechado no ar, enquanto soletramos G-L-O-R-I-A aiaiaiaiaiaia Gloriaaaa, (e estou neste momento a sentir os arrepios que senti na altura). Patti esbraceja, gesticula, mexe a cintura, e nem sequer nos vem à memória que tem quase 70 anos. Passamos a Redondo Beach, com o seu quê de ska, e depois dos momentos que nunca me esquecerei, quando a spoken word de Patti Smith (acho que lhe posso chamar assim) nos enfeitiça, e nos coloca os pelinhos todos do braço mais que eriçados, e olhamos para os desconhecidos à nossa volta, e todos olham para os seus braços, e sorrimos uns para os outros, e vemos que causou o mesmo efeito a todos. E estamos todos de sorriso na cara, e estamos todos num comício de um partido perfeito, e iremos todos mudar o mundo.

É a próprio Patti quem vira o vinil para o lado B, e atira-se a Kimberly, e a banda que a acompanha mostra como é fantástica (alguns andam com Patti desde o início). Mais à frente seguiria esse mito que é Land, dividida em três actos, sendo os meus preferidos o Horses (e todos cantamos, meio em sussurro, Horsess, Horsess, Horsess, à medida que a canção vai acelerando. A canção segue até ir parar a partes de Gloria, e o concerto está nesta fase no seu auge, e continuamos de punho no ar, e saltamos, e cantamos Glooooooriaaaaa. Ela não se iria embora sem antes nos dar Because the Night e People Have the Power. E lembra-nos que sim, que somos nós que temos o poder, que não os podemos deixar ganhar nem controlarem a nossa vida, e sim, Patti, eu voto em ti. E depois toda a banda se coloca à frente do palco, e agradecem, e aplaudem, e a Patti já tinha dito que estava a adorar este festival, e que esperava sinceramente que a convidassem mais vezes, porque queria cá vir todos os anos.

O Primavera poderia ter acabado depois deste concerto, que eu estaria em êxtase. Mas Primavera é Primavera, e tem sempre muito para dar. Seguia-se a primeira decisão do festival: José González ou Twerps? Bem, deu para ver as duas primeiras músicas do José (e fiquei com pena, mas é mais provável tu voltares cá num futuro próximo, do que os Twerps), e seguimos para o Ptichfork para vermos os australianos Twerps. Começou com pouca gente, e no fim estava praticamente cheio. Como diriam depois, era a primeira digressão pela Europa, e simultaneamente, o último concerto da tour, e eles próprios explicavam que tinham adorado, mas que não sabiam se voltariam a conseguir cá voltar. Por isso tocaram com quem sabe que vai ficar uns tempos sem o fazer. O som não esteve tão mal como é costume no Pitchfork, e foi fixe ouvir aquelas guitarras cristalinas. Tocaram muita coisa do novo álbum, como I Don't Mind, Stranger, Back to You, Simple Feelings, enquanto as vozes vão rodando entre rapaz e rapariga (ela sisuda, ele com cara de ser o dude mais bacano do mundo). Bem dispostas, explicam que o baixista vai sair disparado assim que acabar o concerto para ir ver os Replacements. E apontam para os bacanos que estão ao meu lado (os Viet Cong, que tinham acabado de tocar no ATP) com um "woooow, I know you you!!" de sorriso na cara. Logo vem um bacano tirar uma fotografia com os gajos da banda. São pequenas coisas destas que fazem do Primavera O festival.

Nós não iríamos ver os Replacements. Tocavam à mesma hora de Sun Kill Moon. Fomos tentar jantar (mas as filas eram muitos e decidimos voltar mais tarde) e voltámos para o Pitchfork para ganhar lugar. Mark Kozelek é um cantor de culto. Não é uma pessoa de trato fácil, gosta de chocar com as suas declarações, mas é um dos melhores cantautores de sempre. O seu último álbum Benji é uma preciosidade. É um contador de histórias (pessoais, na maior parte dos casos), atormentado por alguns fantasmas, problemas pessoais, etc. A morte, por exemplo, está muito presente no seu último álbum. Começa por dizer que está muito inchado porque nas últimas 24 horas comeu 20 pratos de caldo verde (a sua editora é a Caldo Verde records) e que Portugal é, sem dúvida, um dos seus locais preferidos para tocar (este é do coração, ele não bajula ninguém). Acompanhado por duas baterias (uma delas tocada por esse Sr. chamado Steve Shelley, dos Sonic Youth) e por Neil Halstead (sim, o Sr. dos Slowdive) na guitarra, cedo se percebeu que não seria um concerto convencional, não seria a cópia ao vivo dos álbuns. Começa com Mariette e depois com Micheline, vociferando, gritando, sentindo-se toda a tensão que deve ir naquela cabeça. Se há coisa de que não pode ser acusado, é a de cantar em piloto automático. Kozelek sente cada uma das palavras das suas canções. Richard Ramirez Died Today From Natural Causes é disso exemplo. Com muito mais bateria do que em álbum, quase que se transforma numa canção hardcore (pelo menos nas vozes), mas sem perder a aura de fantástica canção que é. Nela participou também, na guitarra, Vasco Pinheiro, dos portugueses Blind Zero, ele que já acompanhou Kozelek várias vezes como guitarrista em anteriores digressões. Depois um momento que, apesar de engraçado, é prova do "faço o que eu quiser" de Kozelek: não descansa enquanto a, supostamente, sua amiga Yasmine Hamdan (que tinha aberto o ATP nesse dia) não vem a palco para cantar com ele I Got You Babe de Sonny&Cher, ela que, coitada, mal fala inglês, e nem sequer conhecia a música. Foi esquisito, mas engraçado. Tocou a música dedicada ao seu amigo Benjamin Gibbard (dos Death Cab, depois também lá iremos), Ben's My Friend. Tocou a Dogs (que fala sem pudores das suas primeiras experiências sexuais) e depois Carissa, talvez o ponto alto do concerto, tocante mesmo, onde conta como Carissa, sua prima, morreu, precisamente da mesma forma que o seu tio. The Possum foi igualmente fantástica, e o concerto terminaria com a nova música cujo titulo é demasiado extenso e não me apetece estar aqui a escrevê-lo. Não sem antes mandar a piada "Quem é a banda que está a tocar e a assinar o som do meu concerto?", ao que a assistência segurou o fôlego, para ver o que sairia dali, ao que ele próprio respondeu "Just kidding, relax", numa clara referência à situação passada com os War on Drugs, o ano passado. Voltou a dizer que tinha adorado estar ali connosco, que é sempre um prazer vir a Portugal. Para nós também foi. Não direi que foi um concerto fenomenal (apesar de muito bom), muito menos consensual, mas foi talvez o melhor exemplo do que todos os concertos deveriam ser: vindos do coração. O dele foi-o.

Fomos novamente jantar, e as filas mantinham-se. Mas era agora o já não seria. Isso fez com que perde-se os primeiros dois minutos do concerto dos Belle&Sebastian e que ficasse no pior local de sempre na lateral, sem praticamente me conseguir mexer, encostado às árvores, perto de um local de passagem. Mas são os Belle&Sebastian, e até numa cama de hospital seriam bons de ver ao vivo. E foram-no. Sempre dedicados, alegres em palco, sente-se que são a banda mais fofinha do mundo (até no 500 Dias com Summer eles são lembrados). E tocaram muitas coisas antigas, o que é sempre um regalo para nós, fãs, que não os temos por cá muitas vezes à década (era a 4ª vez, apenas, numa banda com 20 anos de carreira, pelo menos). I'm a Cuckoo, com aqueles assobios, Lord Anthony, com a ajuda de uma rapariga do público, que o pintava enquanto o Stuart cantava, I Didn't See it Coming, e a sequência imbatível que foi If you Find Yourself Caught in Love, The Boy With the Arab Strap (com invasão de palco, e a canção mais alegre do mundo, que todos deveriam poder sorrir ao som de) e, porra, nunca pensei de a ouvir ao vivo, Sleep the Clock Around. Ainda tive esperança que viesse a Electronic Renaissance, mas depois disto, estão mais que desculpados. Eles desabafaram, dizendo que gostavam de tocar mais tempo, mas apenas uma hora lhes tinha sido dada. Nós também queríamos.

O Primavera iria depois parar para ver o concerto mais que especial de Antony & The Johnsons. Era o segundo dos dois únicos concertos que a Antony (fico sempre com dúvidas se é a ou o) daria este ano, propositadamente preparados para os dois Primaveras, ambos com orquestras locais. Seriam acompanhados por muito estranhas, mas simultaneamente belas, imagens de um filme mudo japonês (acho que aquilo tem um nome próprio, mas não sei qual é). Foi a primeira vez que o Primavera parou por completo para que toda a gente pudesse ver um artista. Foi também sua exigência, até porque a sua música precisa de silêncio e, pelo menos de onde eu estava, esse silêncio foi dado. O concerto conseguiu atingir momentos magníficos (a voz dela é indescritível, fenomenal), mesmo que, ao contrário do que é habitual, ela não estivesse ao piano. Começou com a lindíssima Thank You For Your Love, uma forma indirecta de nos agradecer a nossa presença. Lançou cedo também Cripple and the Starfish (um dos pontos álbuns, e eu nem gosto dela por aí além) e Another World. Passou por todos os seus álbuns, até pela sua participação na muito dançável Blind dos Hercules and Love Affair, com uma roupagem clássica, sendo uma das mais ovacionadas. Outros dos momentos que mais gostei foi Epilepsy is Dancing e You Are My Sister (e sim, pensei nela também). Terminaria com a tocante Hope There's Someone, que ouvi praticamente toda de olhos fechados, a fechar cerca de hora e um quarto de concerto. O concerto não deixa de ter sido especial, mas faltou-lhe alguma coisa para ser mágico (acima de tudo factores externos). Notou-se que muita gente começou a sentir cansaço com o tipo de registo (ainda para mais já era depois da meia-noite), pelo que a hora não terá sido a melhor. Também o local, sujeito a ruído, prejudica sempre a actuação, e até o som não estava muito alto (penso que a pedido da banda). Podia ter sido mágico, mas não lhe tirou a etiqueta de especial.

E depois foi a correria. Ariel Pink, Run the Jewels ou JUNGLE, tudo a começar à 01h40, em três palcos diferentes? Para mim restavam Run the Jewels e JUNGLE. Run the Jewels tinham argumentos fortes (e provavelmente nunca mais cá voltam), mas JUNGLE não me largavam e só diziam "anda ver-nos, vais gostar, vais ver, não te vais arrepender". E foi o melhor concerto modo festa que poderia ter tido. Nem vou escrever muito, até porque a maior parte de vocês já deve ter parado a meio, mas foi simplesmente do caraças. Ao ponto de a banda não conseguir esconder que não estava à espera de um público assim. Só faltou a bola de espelhos. A dança esteve lá toda. Não demorarão a voltar, aposto.

A sagração do segundo dia de Primavera ainda continuou para alguns, pois ainda havia Movement e Marc Piñol, mas sou da opinião que, depois da sobremesa, já não se deve comer mais nada. Eu já estava de barriga cheia.





segunda-feira, 22 de junho de 2015

A Sagração do Primavera - Dia 1

Desde já pedir desculpa a todos os que ansiosamente aguardavam por este artigo. Tive tantos pedidos (tudo para cima de mais de, sei lá, um pedido!) que tive que aceder. É que tenho andado em depressão pós-festival. Sim, já estou a ressacar pelo Primavera de 2016. E a verdade é que já falta menos de um ano! 9, 10 e 11 de Junho 2016. Se lá chegarmos, lá estaremos. Será, então, uma mão cheia de Primaveras (e, ouro sobre azul, apenas é preciso meter um dia de férias).

A edição deste ano, para muito "entendido" de música, talvez fosse a menos apelativa. Não tinha uma Bjork como em 2012 (que viria a cancelar duas semanas antes do festival), uns Blur ou um Nick Cave como em 2013, ou uns National, como o ano passado. Mas quem vai ao Primavera, na maior parte dos casos, vai pelo cartaz como um todo, e não apenas por vendedores de bilhetes (não os estou a criticar, hein!, sem dois ou três bons cabeças-de-cartaz, os festivais não acontecem). E por isso o festival (e não foi tanga, pois sentiu-se isso) atingiu novo recorde de assistência.

Este ano decidi ir na véspera. Havia Primavera nas Fontaínhas, com Cícero e Regula, e se já não cheguei a tempo de Cícero, valeu pelo lindo miradouro que ali descobri. Um recanto, com uma vista magnífica das pontes, que vale a pena visitar (e acho que não vem nos guias turísticos!). O pôr-do-sol é do caraças! Quando lá cheguei, e vi aquilo cheio de gente, arrepiei-me todo e pensei: porra, é Primavera, caraças!!! Sorriso na cara durante vários dias. Valeu pela experiência, Regula está em alta e dá um concerto muito competente, mesmo que não o oiça no dia a dia. Uma boa forma de entrar no espírito do Primavera, servindo como recepção aos visitantes (e faz com que muitos prolonguem a estadia no Porto, antecipando-a) mas também de lembrar aos portuenses que o Primavera também é para eles (é uma ocasião gratuita).

Mas o Primavera a sério só começava no dia seguinte. O primeiro dia talvez fosse, comparativamente a outros anos, e também com base nos meus gostos pessoais, o menos entusiasmante. Mas isso não quer dizer que não fosse interessante. Afinal, tinha a estreia em Portugal de FKA Twigs, por exemplo, os agora-já-não-são-tão-bons-mas-os-primeiros-discos-eram-bons-como-o-caraças Interpol ou os sempre bailáveis mas não azeiteiros Caribou. E tem apenas dois palcos em funcionamento, intercalados, o que evita ter de fazer escolhas e assim podemos ver tudo calmamente, sem ter de andar a correr de palco para palco, o que para mim é uma mais valia (para outros será uma desvantagem). Este ano isto não foi 100% assim, pois Patti Smith, na que supostamente seria uma actuação acústica e de spoken word, tocava no palco Pitchfork, pleno de cadeiras, ao mesmo tempo que Mac DeMarco no palco NOS. Mas como tocaria no dia seguinte outra vez, era um concerto mais para aficcionados, não obrigando a uma verdadeira escolha aos restantes.

Não fui muito cedo, como noutros anos. Não propositadamente, mas porque passear no Porto é fixe e a gente perde-se no meio daquelas ruas castiças. Trocada a pulseira sem nenhuma fila, entramos no recinto e, à primeira vista, tudo se mantinha na mesma (isto é mais do que positivo). Checamos logo a barraca do merchandise, e tem muita coisa fixe, mas deixamos para depois. Vemos que os pequenos stands da EDP e da Toyota têm meninas bonitas, e aceitamos as suas ofertas (pipocas e chá). Ainda me pediram o n.º de telemóvel e tudo! Mas era capaz de ser só para efeitos de marketing... Uma pequena alteração no espaço, na minha óptica muito positiva, pois permite a melhor circulação do trânsito, foi a deslocação do espaço VIP para a direita do Parque. Boa decisão.

Bruno Pernadas já tinha ido, e Cinerama já tocavam há meia hora. Chegamo-nos à frente do palco, sentadinhos na relva, som muito alto, e dada algum desconhecimento, meu e da maioria, não entusiasmou por aí além. Mikal Cronin foi o primeiro verdadeiro concerto do Primavera. E saiu logo vencedor. Boas descargas de electricidade, canções orelhudas, que nunca se tornam demasiado fáceis, alguma distorção, e era difícil começar melhor este Primavera. Seguia-se Mac DeMarco ou Patti Smith. Optei por ver um bocadinho de Mac DeMarco, já que Patti Smith tocaria a sério no dia seguinte. E deu para reconfirmar que Mac tem uma verdadeira legião de fãs, canções soalheiras (mas que me soam um bocadinho repetitivas) e que é um grande entertainer. Deu para ver que os elementos da banda que o acompanha são tão malucos quanto ele, que gostam muito de festa e de se divertirem. Não fiquei até ao fim, pois já tinha fome, e a sequência de concertos que se seguiria era forte.

Era a estreia de FKA Twigs em Portugal. Álbum do ano para muito boa gente e possuidora de um som, não revolucionário, mas suficientemente inovador, era um dos concertos mais aguardados. A sua música vive muito de pausas, ritmos lentos, sons graves, e ao vivo isso sente-se. Segundo os relatos, em festival não é tão forte quando numa sala fechada, mas a mim convenceu-me minimamente. É verdade que não é um concerto celebratório (os jogos de luzes são fortes, sente-se muito o baixo, praticamente vive dos mesmos sons), a pedir palminhas, mas é contemplativo (ela dança muito, e bem, de forma sensual), conceptual, diria até que, mais que um concerto, é uma performance. Pede-se um concerto em sala para tirar a prova dos nove. De referir ainda que, a certas alturas, achei que íamos começar todos a procriar, tal a carga sexual da sua música/performance (sem se tornar fácil, como as Miley Cyrus desta vida).

Com o estatuto de cabeça-de-cartaz, seguiam-se os Interpol. Turn on the Bright Lights é, sem dúvida, um dos melhores discos da primeira década do século XXI, mas os últimos álbuns não têm conseguido manter tão viva a chama e o interesse nos Interpol (e nem sequer são maus álbuns, apenas não tão extraordinários). Ainda assim, notava-se que muita gente estava ali para os ver. O ano passado, no Alive, diz que foram completamente desconsiderados e até maltratados (eu entendo, é complicado abrir para os Arctic Monkeys dos dias de hoje - a média de idades deve rondar os 15 anos). Ali, seria diferente. Na verdade, nunca foram a melhor banda ao vivo do mundo (mesmo que tenham andado a abrir concertos dos U2 aqui há tempos), mas o concerto foi competente (usa-se o competente para descrever um concerto quando o concerto não foi mau, mas também não foi a melhor coisa do mundo), e até eles se dão conta de que o passado foi mais marcante do que o presente. Qualquer aficcionado terá ficado satisfeito: houve Say Hello to the Angels, Evil, Leif Erikson, Slow Hands, PDA. Não conseguiram, no entanto, entusiasmarem-me por aí além, apesar de ser sempre bom recordar estas grandes canções (foi pena não tocarem a NYC). O som também não estava muito bom, demasiado baixo, na minha opinião. Não houve praticamente conversa (e muitos concertos precisam ser assim), mas houve direito a encore, com Stella Was a Diver and She Was Always Down e All the Rage Back Home, que foram duas excelentes formas de acabar o concerto. Não foi inesquecível, mas suficientemente competentes para não fazerem má figura.

Seguia-se The Juan Maclean, ou a melhor forma de um noctívago começar a noite. Som potente, a transformar o Parque da Cidade numa enorme pista de dança, ou como a música electrónica dançante não precisa de ser azeiteira nem ter gajos a atirar tartes à tromba do público. Só faltou a bola de espelhos. Caribou iria prolongar esta sensação, com um som milimétrico, banda extremamente sincronizada, muito ritmada, as canções a serem revistas de forma algo diferente do que em álbum. Foi um excelente concerto, com direito à grande canção que é Odessa e ao hit que deve deixar o David Guetta a pensar "gostava de saber fazer música como ele" que é Can't Do Without You. O muito público presente pareceu gostar, e eu também. Ainda houve Sun como encore, que nem ele devia estar à espera de fazer. Concerto ganhador, e provavelmente o grande vencedor do dia.

Dia 1, a mostrar que um Primavera não precisa de muito fogo-de-artifício para fazer uma grande festa.