segunda-feira, 22 de junho de 2015

A Sagração do Primavera - Dia 1

Desde já pedir desculpa a todos os que ansiosamente aguardavam por este artigo. Tive tantos pedidos (tudo para cima de mais de, sei lá, um pedido!) que tive que aceder. É que tenho andado em depressão pós-festival. Sim, já estou a ressacar pelo Primavera de 2016. E a verdade é que já falta menos de um ano! 9, 10 e 11 de Junho 2016. Se lá chegarmos, lá estaremos. Será, então, uma mão cheia de Primaveras (e, ouro sobre azul, apenas é preciso meter um dia de férias).

A edição deste ano, para muito "entendido" de música, talvez fosse a menos apelativa. Não tinha uma Bjork como em 2012 (que viria a cancelar duas semanas antes do festival), uns Blur ou um Nick Cave como em 2013, ou uns National, como o ano passado. Mas quem vai ao Primavera, na maior parte dos casos, vai pelo cartaz como um todo, e não apenas por vendedores de bilhetes (não os estou a criticar, hein!, sem dois ou três bons cabeças-de-cartaz, os festivais não acontecem). E por isso o festival (e não foi tanga, pois sentiu-se isso) atingiu novo recorde de assistência.

Este ano decidi ir na véspera. Havia Primavera nas Fontaínhas, com Cícero e Regula, e se já não cheguei a tempo de Cícero, valeu pelo lindo miradouro que ali descobri. Um recanto, com uma vista magnífica das pontes, que vale a pena visitar (e acho que não vem nos guias turísticos!). O pôr-do-sol é do caraças! Quando lá cheguei, e vi aquilo cheio de gente, arrepiei-me todo e pensei: porra, é Primavera, caraças!!! Sorriso na cara durante vários dias. Valeu pela experiência, Regula está em alta e dá um concerto muito competente, mesmo que não o oiça no dia a dia. Uma boa forma de entrar no espírito do Primavera, servindo como recepção aos visitantes (e faz com que muitos prolonguem a estadia no Porto, antecipando-a) mas também de lembrar aos portuenses que o Primavera também é para eles (é uma ocasião gratuita).

Mas o Primavera a sério só começava no dia seguinte. O primeiro dia talvez fosse, comparativamente a outros anos, e também com base nos meus gostos pessoais, o menos entusiasmante. Mas isso não quer dizer que não fosse interessante. Afinal, tinha a estreia em Portugal de FKA Twigs, por exemplo, os agora-já-não-são-tão-bons-mas-os-primeiros-discos-eram-bons-como-o-caraças Interpol ou os sempre bailáveis mas não azeiteiros Caribou. E tem apenas dois palcos em funcionamento, intercalados, o que evita ter de fazer escolhas e assim podemos ver tudo calmamente, sem ter de andar a correr de palco para palco, o que para mim é uma mais valia (para outros será uma desvantagem). Este ano isto não foi 100% assim, pois Patti Smith, na que supostamente seria uma actuação acústica e de spoken word, tocava no palco Pitchfork, pleno de cadeiras, ao mesmo tempo que Mac DeMarco no palco NOS. Mas como tocaria no dia seguinte outra vez, era um concerto mais para aficcionados, não obrigando a uma verdadeira escolha aos restantes.

Não fui muito cedo, como noutros anos. Não propositadamente, mas porque passear no Porto é fixe e a gente perde-se no meio daquelas ruas castiças. Trocada a pulseira sem nenhuma fila, entramos no recinto e, à primeira vista, tudo se mantinha na mesma (isto é mais do que positivo). Checamos logo a barraca do merchandise, e tem muita coisa fixe, mas deixamos para depois. Vemos que os pequenos stands da EDP e da Toyota têm meninas bonitas, e aceitamos as suas ofertas (pipocas e chá). Ainda me pediram o n.º de telemóvel e tudo! Mas era capaz de ser só para efeitos de marketing... Uma pequena alteração no espaço, na minha óptica muito positiva, pois permite a melhor circulação do trânsito, foi a deslocação do espaço VIP para a direita do Parque. Boa decisão.

Bruno Pernadas já tinha ido, e Cinerama já tocavam há meia hora. Chegamo-nos à frente do palco, sentadinhos na relva, som muito alto, e dada algum desconhecimento, meu e da maioria, não entusiasmou por aí além. Mikal Cronin foi o primeiro verdadeiro concerto do Primavera. E saiu logo vencedor. Boas descargas de electricidade, canções orelhudas, que nunca se tornam demasiado fáceis, alguma distorção, e era difícil começar melhor este Primavera. Seguia-se Mac DeMarco ou Patti Smith. Optei por ver um bocadinho de Mac DeMarco, já que Patti Smith tocaria a sério no dia seguinte. E deu para reconfirmar que Mac tem uma verdadeira legião de fãs, canções soalheiras (mas que me soam um bocadinho repetitivas) e que é um grande entertainer. Deu para ver que os elementos da banda que o acompanha são tão malucos quanto ele, que gostam muito de festa e de se divertirem. Não fiquei até ao fim, pois já tinha fome, e a sequência de concertos que se seguiria era forte.

Era a estreia de FKA Twigs em Portugal. Álbum do ano para muito boa gente e possuidora de um som, não revolucionário, mas suficientemente inovador, era um dos concertos mais aguardados. A sua música vive muito de pausas, ritmos lentos, sons graves, e ao vivo isso sente-se. Segundo os relatos, em festival não é tão forte quando numa sala fechada, mas a mim convenceu-me minimamente. É verdade que não é um concerto celebratório (os jogos de luzes são fortes, sente-se muito o baixo, praticamente vive dos mesmos sons), a pedir palminhas, mas é contemplativo (ela dança muito, e bem, de forma sensual), conceptual, diria até que, mais que um concerto, é uma performance. Pede-se um concerto em sala para tirar a prova dos nove. De referir ainda que, a certas alturas, achei que íamos começar todos a procriar, tal a carga sexual da sua música/performance (sem se tornar fácil, como as Miley Cyrus desta vida).

Com o estatuto de cabeça-de-cartaz, seguiam-se os Interpol. Turn on the Bright Lights é, sem dúvida, um dos melhores discos da primeira década do século XXI, mas os últimos álbuns não têm conseguido manter tão viva a chama e o interesse nos Interpol (e nem sequer são maus álbuns, apenas não tão extraordinários). Ainda assim, notava-se que muita gente estava ali para os ver. O ano passado, no Alive, diz que foram completamente desconsiderados e até maltratados (eu entendo, é complicado abrir para os Arctic Monkeys dos dias de hoje - a média de idades deve rondar os 15 anos). Ali, seria diferente. Na verdade, nunca foram a melhor banda ao vivo do mundo (mesmo que tenham andado a abrir concertos dos U2 aqui há tempos), mas o concerto foi competente (usa-se o competente para descrever um concerto quando o concerto não foi mau, mas também não foi a melhor coisa do mundo), e até eles se dão conta de que o passado foi mais marcante do que o presente. Qualquer aficcionado terá ficado satisfeito: houve Say Hello to the Angels, Evil, Leif Erikson, Slow Hands, PDA. Não conseguiram, no entanto, entusiasmarem-me por aí além, apesar de ser sempre bom recordar estas grandes canções (foi pena não tocarem a NYC). O som também não estava muito bom, demasiado baixo, na minha opinião. Não houve praticamente conversa (e muitos concertos precisam ser assim), mas houve direito a encore, com Stella Was a Diver and She Was Always Down e All the Rage Back Home, que foram duas excelentes formas de acabar o concerto. Não foi inesquecível, mas suficientemente competentes para não fazerem má figura.

Seguia-se The Juan Maclean, ou a melhor forma de um noctívago começar a noite. Som potente, a transformar o Parque da Cidade numa enorme pista de dança, ou como a música electrónica dançante não precisa de ser azeiteira nem ter gajos a atirar tartes à tromba do público. Só faltou a bola de espelhos. Caribou iria prolongar esta sensação, com um som milimétrico, banda extremamente sincronizada, muito ritmada, as canções a serem revistas de forma algo diferente do que em álbum. Foi um excelente concerto, com direito à grande canção que é Odessa e ao hit que deve deixar o David Guetta a pensar "gostava de saber fazer música como ele" que é Can't Do Without You. O muito público presente pareceu gostar, e eu também. Ainda houve Sun como encore, que nem ele devia estar à espera de fazer. Concerto ganhador, e provavelmente o grande vencedor do dia.

Dia 1, a mostrar que um Primavera não precisa de muito fogo-de-artifício para fazer uma grande festa.

Sem comentários:

Enviar um comentário