O festival Rotas & Rituais deste ano, um festival de música e cinema organizado pela EGEAC (para mim, um excelente exemplo de empresa municipal cultural), teve por tema "A Liberdade não é um acessório". Podia parecer datado nos dias que correm, mas o mais triste é que não é. É um tema bem actual, até mesmo nas chamadas democracias ocidentais. Infelizmente apenas me apercebi do festival já tarde, e não fui a nenhuma das sessões (ainda por cima todas gratuitas!!). Fui, no entanto, ao concerto do B Fachada, com primeira parte da Lula Pena, no Cinema São Jorge. O preço era convidativo (8 euros), a sala também, e os artistas bastavam só por si a deslocação. Motivos de sobra para encontrar a sala praticamente cheia.
Não consigo perceber porque Lula Pena não é tão valorizada como devia. Cruza o fado com o samba e a MPB, é uma óptima guitarrista e é dona de uma linda voz. Foi a primeira vez que a vi ao vivo, e um concerto dela aquece os nossos corações. Tocou cerca de uma hora, e ainda deu para duas músicas em parceria com o B Fachada. Não houve sequer intervalo, e o B Fachada logo se atira a "Afro-Xula". Faz uma versão mais curta e mais despida da original, mas logo se percebeu, até pela temática do evento, que seria um Fachada mais virado para o seu lado contestatário, político e interventivo. Tocou praticamente todo o último álbum, ofereceu-nos dois miminhos como "Não pratico habilidades" e "Só te falta seres mulher", voltou para dois encores, incluindo "Tó-zé" terminando com uma versão curta de "Deus, Pátria, Família".
Não foi o melhor concerto de sempre, mas foi muito útil para analisar como Fachada está atento aos sinais dos tempos nacionais.
Fachada é capaz de frases como "a polícia fica louca, quando a canção cabe na boca" ("Dá mais música à bófia"), "gritavam das janelas: nem janeiras, quanto mais abril" ("Um fandango ensaiadinho") ou "chega de tiros para o ar com pistolas de cartão, tens liberdades no bolso e algemas na mão" ("Crus"), apenas para citar alguns exemplos. Pode ter aquele ar alucinado, mas é um dos melhores artistas portugueses de todos os tempos. Ainda bem que estás de volta.
Nem sempre queremos procurar, mas também nos cansamos muitas vezes de estar à espera.
domingo, 23 de novembro de 2014
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Correrias
Não sei se a minha eventual (digo eventual porque ainda não comprei o bilhete) presença no Vodafone Mexefest 2014 conta como exercício físico, já que vou ter que andar a correr de um lado para o outro. Como faço pouco, vou dizer que conta. Os horários já saíram, as salas também, até já começaram os cancelamentos (os I Break Horses, por causa da greve da TAP já não vêm, o que neste caso, embora triste, me facilita, pois a substituição - Jay-Jay Johanson, não é uma prioridade), e por isso é altura de traçar um plano (mesmo que depois, provavelmente, acabe por não o cumprir).
Tomei por objectivo, para além de ver a Sharon van Etten e os Cloud Nothings, passar por quase todas as salas, que por si só valem o bilhete. Estou a falar da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Casa do Alentejo ou do Palácio Foz, entre outros. São locais raramente acessíveis ao público, tirando a Casa do Alentejo, mas fantásticos. No 1º dia tenho o roteiro plenamente definido, vai dar para ir a vários desses sítios, sem sentir estar a perder alguma coisa noutro sítio. A única dúvida para já é entre Kindness (no Rossio) ou King Gizzard & The Lizard Wizard (na Garagem da EPAL)? Talvez me decida pelos segundos, mas logo se vê.
No 2º dia, é que é mais difícil. É muito bonito dizer que é um festival para a descoberta, para nos pôr a mexer, e essas coisas todas muito bonitas. Mas e quando se tem Adult Jazz, Curtis Harding, Perfume Genius, Palma Violets, Sharon van Etten, Cloud Nothings, já para não referir os portugueses (que nestas condições, e desculpem-me por isso, são relegados para 2º plano, pelo simples facto de que os conseguiremos ver muito em breve, e, em caso de dúvida, nem hesitarei), tudo no mesmo dia, a coincidir ao mesmo tempo? Já não tem tanta graça. Acaba por ser positivo, pois é indicação de que o cartaz é bom, mas depois...
Na altura logo se vê.
Ainda assim, gostava que pensassem nestas quatro sugestões:
Shura na Casa do Alentejo - é ainda uma desconhecida, sem nenhum álbum editado, mas já com uns quantos singles com milhões de visualizações no youtube. Segue numa linha de FKA Twigs, Jessie Ware ou Rhye. É uma oportunidade única para a ver antes da explosão que se avizinha.
Johanna Glaza na Igreja de São Luís dos Franceses - também ainda não tem nenhum álbum editado, a informação sobre ela não abunda, mas faz lembrar Kate Bush, uma Joanna Newsom com menos harpa ou até Julia Holter. A sua canção "Shall I be a Saint" é fantástica (ver vídeo abaixo). Outro caso de descoberta antes do tempo.
Sharon van Etten no Coliseu dos Recreios - se eu só pudesse ouvir um dos concertos, não teria dúvidas na escolha. Seria o dela. Vem na altura certa, com o seu melhor álbum (o melhor do ano?), e numa sala especial como o Coliseu.
Cloud Nothings no Ateneu Comercial de Lisboa - este ano já cá estiveram, a fechar o Primavera Sound do Porto. Trazem um dos melhores álbuns do ano, fazem música sem espinhas, direitos ao assunto, e costumam partir tudo em palco. É capaz de sairmos do Ateneu a suar.
Se vai ser bom ou não, só no fim se vê. Mas a edição deste ano tem o mérito de me meter a correr de um lado para o outro. E parece que vai haver chocolate quente...
Tomei por objectivo, para além de ver a Sharon van Etten e os Cloud Nothings, passar por quase todas as salas, que por si só valem o bilhete. Estou a falar da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Casa do Alentejo ou do Palácio Foz, entre outros. São locais raramente acessíveis ao público, tirando a Casa do Alentejo, mas fantásticos. No 1º dia tenho o roteiro plenamente definido, vai dar para ir a vários desses sítios, sem sentir estar a perder alguma coisa noutro sítio. A única dúvida para já é entre Kindness (no Rossio) ou King Gizzard & The Lizard Wizard (na Garagem da EPAL)? Talvez me decida pelos segundos, mas logo se vê.
No 2º dia, é que é mais difícil. É muito bonito dizer que é um festival para a descoberta, para nos pôr a mexer, e essas coisas todas muito bonitas. Mas e quando se tem Adult Jazz, Curtis Harding, Perfume Genius, Palma Violets, Sharon van Etten, Cloud Nothings, já para não referir os portugueses (que nestas condições, e desculpem-me por isso, são relegados para 2º plano, pelo simples facto de que os conseguiremos ver muito em breve, e, em caso de dúvida, nem hesitarei), tudo no mesmo dia, a coincidir ao mesmo tempo? Já não tem tanta graça. Acaba por ser positivo, pois é indicação de que o cartaz é bom, mas depois...
Na altura logo se vê.
Ainda assim, gostava que pensassem nestas quatro sugestões:
Shura na Casa do Alentejo - é ainda uma desconhecida, sem nenhum álbum editado, mas já com uns quantos singles com milhões de visualizações no youtube. Segue numa linha de FKA Twigs, Jessie Ware ou Rhye. É uma oportunidade única para a ver antes da explosão que se avizinha.
Johanna Glaza na Igreja de São Luís dos Franceses - também ainda não tem nenhum álbum editado, a informação sobre ela não abunda, mas faz lembrar Kate Bush, uma Joanna Newsom com menos harpa ou até Julia Holter. A sua canção "Shall I be a Saint" é fantástica (ver vídeo abaixo). Outro caso de descoberta antes do tempo.
Sharon van Etten no Coliseu dos Recreios - se eu só pudesse ouvir um dos concertos, não teria dúvidas na escolha. Seria o dela. Vem na altura certa, com o seu melhor álbum (o melhor do ano?), e numa sala especial como o Coliseu.
Cloud Nothings no Ateneu Comercial de Lisboa - este ano já cá estiveram, a fechar o Primavera Sound do Porto. Trazem um dos melhores álbuns do ano, fazem música sem espinhas, direitos ao assunto, e costumam partir tudo em palco. É capaz de sairmos do Ateneu a suar.
Se vai ser bom ou não, só no fim se vê. Mas a edição deste ano tem o mérito de me meter a correr de um lado para o outro. E parece que vai haver chocolate quente...
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segunda-feira, 17 de novembro de 2014
So you miss the good old days
A semana passada vi três filmes e não tinha planeado ver nenhum. E fiquei com saudades de tempos que não vivi. Acontece-me muitas vezes, na verdade. Sobre alguns costuma-se dizer que nasceram à frente do seu tempo. Eu acho que nasci para viver antes do meu tempo.
Provavelmente nunca teria visto nenhum destes filmes se não fosse o facto de existir um festival de cinema como o LEFFest (sigla de Lisbon & Estoril Film Festival). É um festival com uns seis ou sete anos de existência e desde o início quis ser o festival de cinema referência em Portugal. Se o tem conseguido ou não, os especialistas saberão melhor do que eu. Mas eu gosto do festival. Foi lá que tive a oportunidade de ver, entre outros, o "Hurt Locker", o "Fruitvale Station" e o "Guerra e Paz". Gosto especialmente dele por escolher, em secções paralelas, alguns filmes muito antigos, velhos e pálidos demais para voltarem aos cinemas ou para empatarem tempo na televisão. E ali não há pipocas, coca-colas ou gomas para me atrapalharem os ouvidos. É um festival para dar a ver, antes de entreter. Eu gosto.
Se os teria visto se não fossem sugestões do Wes Anderson? Não, provavelmente não. Se calhar, nem nunca teria ouvido falar deles. Mas não é essa a "função" dos festivais? Dar a conhecer? E perder a oportunidade de estar na mesma sala que o Wes, e poder ouvi-lo conversar com a assistência? Nem pensar!
Foi assim que fiquei a conhecer "Sadie McKee", um filme de 1934 (!) com a Joan Crawford, ou "O Ouro de Nápoles", do Vittorio de Sica, realizado em 1954, com vedetas como Toto, Sophia Loren ou Silvana Mangano. Escusado será dizer que são a preto e branco, sem efeitos especiais, e sem cenas de acção. São filmes que vivem das interpretações e dos diálogos, como penso que aconteceria com todo o cinema da altura. O próprio Wes tinha-os visto recentemente pela primeira vez. Parece-me que ele também é um saudosista como eu.
Já o terceiro filme vi por uma feliz coincidência. Era tarde, os meus quatro canais não passavam nada de jeito (como costuma ser a regra) e preparava-me para ver em DVD um episódio do Lost. Decidi ver a grelha da programação, e ia passar daí a dois minutos, na RTP2 (onde mais poderia ser?) "Um Rosto na Multidão". Decidi dar-lhe uma oportunidade. E acabei por o ver até ao fim, por o adorar, e por não deixar de pensar nele durante o dia seguinte. Fiquei a saber que era de 1957, que era do mesmo realizador de "Um Eléctrico chamado Desejo".
Não vou aqui apresentar os filmes (a wikipédia faz isso melhor do que eu), mas recomendo todos a poderem vê-los um dia. O Ouro de Nápoles é um filme como nunca tinha visto, uma celebração da cidade de Nápoles, composto por pequenas histórias, sem qualquer ligação entre elas, apenas tendo por pano de fundo a cidade de Nápoles. Sadie McKee mostra a força de uma mulher contra as contrariedades da vida, vingativa sem ser maldosa, desiludida mas nunca rancorosa. E "Um Rosto na Multidão" tem uma representação brutal de Andy Griffith, mulheres bonitas e talentosas como Patricia Neal e Lee Remick, e a melhor forma de mostrar que o poder corrompe.
Sim, fiquei com vontade de ver mais filmes desta era. Fiquei com saudades de ir ao cinema ao domingo ao tarde, ao cinema de rua, de viver rituais que nunca tive. Numa época em que tanto se fala que os cinemas estão a perder espectadores, em que as salas fora dos centros comerciais fecham e na falta de criatividade da maioria dos filmes, nada melhor do que regressar ao passado. Quem sabe pode salvar o presente.
P.S. Apaixonei-me instantaneamente por diversas mulheres nestes três filmes. Mesmo que ainda fossem vivas (bem, a Sophia Loren ainda é...), nenhuma me diria hipóteses:
Joan Crawford
Patricia Neal
Lee Remick
Sophia Loren
Silvana Mangano
Lianella Carell
Eu sei que só podia escolher uma, mas nunca conseguiria. Ainda bem que nunca me dariam essa hipótese :)
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quarta-feira, 12 de novembro de 2014
A arte de envelhecer
Ontem o José Gonzalez anunciou as datas da sua próxima tour, ele que não edita um álbum em nome próprio desde 2007 (não que o que lançou com os Junip seja mau). Segundo o que está no seu site, vai passar por cá dia 19 de Fevereiro, no CCB, em Lisboa. O próximo álbum, a editar em dois dias antes, chamar-se-á Vestiges & Claws, e já tem capa, setlist e tudo. O primeiro avanço, "Every Age", é aquilo a que ele já nos habituou. A mim já me cativou. Zé, obrigadinho, sim?
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