segunda-feira, 17 de novembro de 2014

So you miss the good old days



A semana passada vi três filmes e não tinha planeado ver nenhum. E fiquei com saudades de tempos que não vivi. Acontece-me muitas vezes, na verdade. Sobre alguns costuma-se dizer que nasceram à frente do seu tempo. Eu acho que nasci para viver antes do meu tempo.

Provavelmente nunca teria visto nenhum destes filmes se não fosse o facto de existir um festival de cinema como o LEFFest (sigla de Lisbon & Estoril Film Festival). É um festival com uns seis ou sete anos de existência e desde o início quis ser o festival de cinema referência em Portugal. Se o tem conseguido ou não, os especialistas saberão melhor do que eu. Mas eu gosto do festival. Foi lá que tive a oportunidade de ver, entre outros, o "Hurt Locker", o "Fruitvale Station" e o "Guerra e Paz". Gosto especialmente dele por escolher, em secções paralelas, alguns filmes muito antigos, velhos e pálidos demais para voltarem aos cinemas ou para empatarem tempo na televisão. E ali não há pipocas, coca-colas ou gomas para me atrapalharem os ouvidos. É um festival para dar a ver, antes de entreter. Eu gosto.

Se os teria visto se não fossem sugestões do Wes Anderson? Não, provavelmente não. Se calhar, nem nunca teria ouvido falar deles. Mas não é essa a "função" dos festivais? Dar a conhecer? E perder a oportunidade de estar na mesma sala que o Wes, e poder ouvi-lo conversar com a assistência? Nem pensar!

Foi assim que fiquei a conhecer "Sadie McKee", um filme de 1934 (!) com a Joan Crawford, ou "O Ouro de Nápoles", do Vittorio de Sica, realizado em 1954, com vedetas como Toto, Sophia Loren ou Silvana Mangano. Escusado será dizer que são a preto e branco, sem efeitos especiais, e sem cenas de acção. São filmes que vivem das interpretações e dos diálogos, como penso que aconteceria com todo o cinema da altura. O próprio Wes tinha-os visto recentemente pela primeira vez. Parece-me que ele também é um saudosista como eu.

Já o terceiro filme vi por uma feliz coincidência. Era tarde, os meus quatro canais não passavam nada de jeito (como costuma ser a regra) e preparava-me para ver em DVD um episódio do Lost. Decidi ver a grelha da programação, e ia passar daí a dois minutos, na RTP2 (onde mais poderia ser?) "Um Rosto na Multidão". Decidi dar-lhe uma oportunidade. E acabei por o ver até ao fim, por o adorar, e por não deixar de pensar nele durante o dia seguinte. Fiquei a saber que era de 1957, que era do mesmo realizador de "Um Eléctrico chamado Desejo".

Não vou aqui apresentar os filmes (a wikipédia faz isso melhor do que eu), mas recomendo todos a poderem vê-los um dia. O Ouro de Nápoles é um filme como nunca tinha visto, uma celebração da cidade de Nápoles, composto por pequenas histórias, sem qualquer ligação entre elas, apenas tendo por pano de fundo a cidade de Nápoles. Sadie McKee mostra a força de uma mulher contra as contrariedades da vida, vingativa sem ser maldosa, desiludida mas nunca rancorosa. E "Um Rosto na Multidão" tem uma representação brutal de Andy Griffith, mulheres bonitas e talentosas como Patricia Neal e Lee Remick, e a melhor forma de mostrar que o poder corrompe.

Sim, fiquei com vontade de ver mais filmes desta era. Fiquei com saudades de ir ao cinema ao domingo ao tarde, ao cinema de rua, de viver rituais que nunca tive. Numa época em que tanto se fala que os cinemas estão a perder espectadores, em que as salas fora dos centros comerciais fecham e na falta de criatividade da maioria dos filmes, nada melhor do que regressar ao passado. Quem sabe pode salvar o presente.

P.S. Apaixonei-me instantaneamente por diversas mulheres nestes três filmes. Mesmo que ainda fossem vivas (bem, a Sophia Loren ainda é...), nenhuma me diria hipóteses:

Joan Crawford
Patricia Neal
Lee Remick
Sophia Loren
Silvana Mangano
Lianella Carell

Eu sei que só podia escolher uma, mas nunca conseguiria. Ainda bem que nunca me dariam essa hipótese :)

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