O festival Rotas & Rituais deste ano, um festival de música e cinema organizado pela EGEAC (para mim, um excelente exemplo de empresa municipal cultural), teve por tema "A Liberdade não é um acessório". Podia parecer datado nos dias que correm, mas o mais triste é que não é. É um tema bem actual, até mesmo nas chamadas democracias ocidentais. Infelizmente apenas me apercebi do festival já tarde, e não fui a nenhuma das sessões (ainda por cima todas gratuitas!!). Fui, no entanto, ao concerto do B Fachada, com primeira parte da Lula Pena, no Cinema São Jorge. O preço era convidativo (8 euros), a sala também, e os artistas bastavam só por si a deslocação. Motivos de sobra para encontrar a sala praticamente cheia.
Não consigo perceber porque Lula Pena não é tão valorizada como devia. Cruza o fado com o samba e a MPB, é uma óptima guitarrista e é dona de uma linda voz. Foi a primeira vez que a vi ao vivo, e um concerto dela aquece os nossos corações. Tocou cerca de uma hora, e ainda deu para duas músicas em parceria com o B Fachada. Não houve sequer intervalo, e o B Fachada logo se atira a "Afro-Xula". Faz uma versão mais curta e mais despida da original, mas logo se percebeu, até pela temática do evento, que seria um Fachada mais virado para o seu lado contestatário, político e interventivo. Tocou praticamente todo o último álbum, ofereceu-nos dois miminhos como "Não pratico habilidades" e "Só te falta seres mulher", voltou para dois encores, incluindo "Tó-zé" terminando com uma versão curta de "Deus, Pátria, Família".
Não foi o melhor concerto de sempre, mas foi muito útil para analisar como Fachada está atento aos sinais dos tempos nacionais.
Fachada é capaz de frases como "a polícia fica louca, quando a canção cabe na boca" ("Dá mais música à bófia"), "gritavam das janelas: nem janeiras, quanto mais abril" ("Um fandango ensaiadinho") ou "chega de tiros para o ar com pistolas de cartão, tens liberdades no bolso e algemas na mão" ("Crus"), apenas para citar alguns exemplos. Pode ter aquele ar alucinado, mas é um dos melhores artistas portugueses de todos os tempos. Ainda bem que estás de volta.

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