segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Vodafone Mexefest 2014 - Uma espécie de Primavera no Inverno - Parte 1

Foi a primeira vez que fui ao Vodafone Mexefest. Não que antes não quisesse ter ido, mas por uma razão ou outra nunca tinha sido possível. A edição deste ano, e sem ter presente a primeira edição ainda como Super Bock em Stock (se bem me lembro, conseguiu as estreias em Portugal de Walkmen, Lykke Li, Santigold, El Perro del Mar...), foi, na minha opinião, uma das melhores de sempre em termos de cartaz. Estava bem equilibrado em termos de nomes nacionais e internacionais, era ecléctico e tinha nomes "desconhecidos" e alguns já consagrados (dentro do meio). No meu caso, bastava saber que o cartaz contava com a Sharon. Aqui fica a minha visão da edição 2014.

Dia 1 - 28 de Novembro

Algo que fiquei a descobrir com o primeiro concerto a que assisti foi que o Mexefest é um festival que, para além dos nomes apresentados, vale pelas salas onde estes tocam. Subi ao 2º andar da Sociedade de Geografia de Portugal e logo fiquei maravilhado. Até podiam estar a tocar os Beatles que acho que não teria reparado, de tão bela que é a sala. Depois do impacto inicial, lá me sentei para ver Ana Cláudia. Não fosse o Mexefest e a sala em questão e provavelmente ainda levaria um tempinho a ouvir falar dela. Com um 1º álbum acabado de sair, "De Outono", Ana Cláudia é dona de uma voz doce, encorpada, e consegue mesclar batidas electrónicas com momentos de silêncio, a fazer lembrar um James Blake ou uma Bjork. As letras pareceram-me bastante interessantes, confirmou as influências de Bjork pela versão que dela fez e ainda me deu a conhecer a música "João e o Pé de Feijão" do brasileiro Cícero. A ouvir com mais atenção.

Depois de uma pausa para retemperar forças através de um panado no pão e uma imperial, que levou mais tempo que o pretendido, foi tempo de usufruir do serviço de shuttles que a organização colocou à disposição do público para subir até ao Cinema São Jorge. Era hora de Capicua. 2014 foi sem dúvida um ano de excepção para Ana Matos, verdadeiro nome de Capicua: lançou um belíssimo segundo álbum, teve concertos por todo o país, incluindo nos principais festivais, e conseguiu a proeza de ter um "hino" sabido por todos como "Vayorken". Este concerto seria, portanto, um culminar do seu ano. O concerto começa com uma gravação de Capicua a explicar a origem do álbum "Sereia Louca" (o tal sonho da sereia que queria comprar sapatos, e que lhe diz coisas estranhas ao ouvido), e lá entram Capicua, e os seus acompanhantes em palco M7 e D-One, para se atirarem a essa mesma canção. Com os visuais a serem feitos em tempo real (a ilustrar os temas das suas canções), Capicua atira-se sem dó nem piedade às suas músicas. Estas ora são baseadas na sua própria vida ("Casa no Campo", a bonita canção com "participação" especial de Elis Regina, e "Vayorken", são disso exemplos") ora em aspectos na ordem do dia-a-dia ("Jugular", "Medo do Medo" - dita sem necessidade de recuperar o fôlego - e "Pedras da Calçada" são monumentos à situação do nosso país, "A Mulher do Cacilheiro" expõe a vida difícil de uma mulher de modo magistral - é pura poesia). O concerto serviu também como forma de homenagear as mulheres, tal como já acontecia no álbum, e por isso o uso de pelo menos três bailarinas, ora a dançar ballet, dança mais contemporânea ou até a dança do varão. Pelo meio a participação no concerto de duas mulheres que também participaram no disco, e que duas mulheres! Primeiro foi Gisela João, em "Soldadinho", e depois Aline Frazão, em "Lupa". Donas de vozes do tamanho do mundo, só serviram para abrilhantar ainda mais o concerto. Capicua não é uma rapper qualquer, é uma rapper com bom gosto, verdadeira, sem necessidade de recurso a outros artifícios para se fazer ouvir. As suas músicas e letras falam por si, e o excelente concerto que deu também. A sala cheia do São Jorge foi prova disso. És a maior, Ana!

Avenida abaixo para o próximo concerto e o previsto seria Shura, na Casa do Alentejo. Acabei por ir parar ao Ginásio do Ateneu Comercial de Lisboa para ver a estreia de Pharoahe Monch em Portugal, rapper do underground americano dado aos problemas sociais, muito critico do circo que se tornou o hip-hop americano. Quem diria que na rua do coliseu havia um ginásio com cestos de basket e tudo, e com um mural gigante do MFA. Melhor local seria difícil para este concerto. O problema é que um espaço daqueles tem muitos (para ser meiguinho) problemas de som. Ele ecoa e é muito estridente, ou seja, não se percebeu grande coisa do que Pharoahe Monch disse. Dá para perceber que é um rapper a sério, a debitar rimas que saem de dentro, da sua vida (o senhor veio de Queens, NY), e que não se deixa comprar. A referir que o senhor DJ que o acompanha não lhe faz jus, quebrando muitas vezes o ritmo, muitos pregos, etc. Ainda assim, quem lá esteve (Fred Ferreira dos Orelhas Negra e afins andava por lá) sentiu-se num verdadeiro concerto de hip-hop, como ele era no início.

Não fiquei até ao fim, pois queria aproveitar a estreia de King Gizzard & The Lizard Wizard, na Garagem da EPAL. Mais uma vez, acho que melhor sitio não haveria para aquele concerto. Estes australianos (a Austrália dá cartas por estes dias com nomes fantásticos como Tame Impala e Pond) são talvez um cruzamento da vertente mais "alegre" dos Pond com o pé pesado dos Thee Oh Sees, com composições longas de psicadelismo e rock'n'roll, duas baterias perfeitamente sincronizadas, umas três guitarras, um baixo, e uma harmónica alterada. Foi um concerto daqueles transpirados, de air guitar, de fechar os olhos e embalar para Saturno, de mosh e algum crowdsurf. Foi, na minha opinião, um dos concertos do festival, e espero que voltem em breve.

A editora Príncipe engalanou-se e apresentou um showcase do melhor que tem trazido ao mundo - ritmos africanos actualizados para o século XXI, batidas incessantes, corpos irrequietos. O Salão Nobre do Ateneu transformou-se em discoteca (mas das requintadas!! o Salão e fantástico, com tectos ilustrados e um candeeiro de velas enorme) para todos aqueles que preferiram dançar ao invés de ouvir St. Vincent. Foram dois aspectos que, na minha opinião também caracterizaram o festival - a predominância das vozes femininas e a consagração da música de ritmos africanos. Só temos a ganhar com isso. Obrigada, DJ Marfox e amigos pelo excelente serão.

Ainda cheguei ao Coliseu a tempo de o ver praticamente lotado para ver St. Vincent. Foram apenas duas músicas a que assisti, mas deu para perceber que Annie Clark é ainda mais experimental e expansiva em palco do que em disco. Andava em pleno crowdsurf quando entrei. Não sei se teria gostado do concerto (as opiniões que ouvi vão do fenomenal ao "mete mais tabaco"), mas deu para perceber que ninguém lhe fica indiferente. Fica para uma próxima, Annie (não foi no Primavera, não foi no Mexefest, será noutro lado qualquer, com certeza).

A primeira noite chegava assim ao fim, com Capicua e King Gizzard a triunfarem nas minhas escolhas, com a celebração da editora Príncipe e a descoberta de salas fantásticas. Não deu para ver jj, Tune-Yards, Shura nem St. Vincent, mas como tudo na vida, o Mexefest também é feito de escolhas. Estas foram as minhas, e não me arrependo.

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