Nem sempre queremos procurar, mas também nos cansamos muitas vezes de estar à espera.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
2014
2014 está quase a acabar. A história é sempre a mesma - parece que passou a correr. Sim, parece. Teve coisas boas, coisas más, coisas interessantes, coisas desanimadoras. Coisas. Ninguém sabe se lá chega, mas toda a gente espera que 2015 possa ser melhor. Eu também espero, sinceramente. Para todos.
Já quase toda a gente decidiu quais foram os melhores álbuns, músicas, concertos e afins de 2014. Eu acho que não tenho autoridade nenhuma para dizer quais foram os melhores álbuns do ano (embora saiba perfeitamente quais são, os do ano e os de sempre...), por isso deixo apenas as minhas escolhas deste ano.
Álbuns que não me saem da cabeça desde que os ouvi
1. "Lost in the Dream" - The War on Drugs
Não o guardei, mas lembro-me perfeitamente de ler o artigo que o Ípsilon fez na altura, aquando do lançamento. Começavam por imaginar como seria juntar guitarradas mais "azeiteiras" dos Dire Straits, com fases não tão boas do Bruce Springsteen, com Fleetwood Mac, e mais umas quantas coisas. À partida, tinha tudo para correr mal, para ser um álbum de gosto duvidoso. Mas não. É um álbum sublime. Na minha óptica, é algo como Bruce Springsteen meets My Bloody Valentine meets Bob Dylan. É fabuloso. São canções com sentido de estádio, com camadas e camadas de som por trás, com letras intimistas, cantadas por alguém que não é cantor, o que só acrescenta profundidade à coisa. Desde que o ouvi pela primeira vez, na Radar, acho que o oiço, em partes, ou na totalidade, quase todos os dias. "Red Eyes" é a melhor canção comercial de sempre, "An Ocean in Between the Waves", com quase 8 minutos, é hipnotizante (por mim podiam ser mais 8, que de cansativa não tem nada), e "Burning", a canção que para mim devia concluir o álbum, onde Adam expia todos os seus demónios, uma canção de esperança pessoal para alguém que tem dificuldade em viver com esperança. Um clássico imediato.
2. "Are We There" - Sharon Van Etten
Está em n.º 2, mas podia estar em n.º 1. A ordem não é importante. É simplesmente um álbum do coração. A Sharon canta sempre com a faca na garganta, sempre dividida entre a sua vida pessoal e a sua vida profissional (não são elas quase impossíveis de separação?). Este seu quarto álbum é, provavelmente, o seu melhor, à custa da preferência pela vida profissional. Canta todos os seus desamores, a incompreensão por parte do seu parceiro, o amor. Sempre o amor. É um álbum de canções de fazer chorar qualquer um, de canções de fazer gritar qualquer um, de canções de hipnotizar qualquer um. "Your Love is Killing Me" é capaz de ser a canção mais pesada que Sharon já fez, e cantada por outra pessoa seria apenas uma canção a pedir melodramismos, provavelmente nem sentidos. Na voz de Sharon, é a canção de desamor mais forte de sempre, e a mais sincera. Mas no mesmo patamar tem "Our Love", "Afraid of Nothing", "Break Me" ou "Every Time the Sun Comes Up". Também o ouvi pela primeira vez na Radar, e desde aí, também não passa um único dia sem ouvir pelo menos uma das suas músicas. Sharon, casa comigo. Eu dou-te liberdade para continuares a cantar.
3. "Cavalo" - Rodrigo Amarante
Não sei se se pode chamar música brasileira ao que o Rodrigo Amarante tem feito. Desde que deixou os Los Hermanos, passou a ser um cidadão do mundo. Little Joy, Orquestra Imperial, Devendra Banhart, entre outros, são apenas algumas das ocupações do Rodrigo. Mas nenhuma suplanta a obra-prima que criou com este "Cavalo". Cantado em inglês, português e francês, não se resume ao violão, mas tem caixas de ritmos, teclados, alguma percursão, e, acima de tudo, letras fenomenais. É um álbum melancólico, introspectivo, cantado com voz levemente embriagada. "Tardei" é bem capaz de ser uma das mais belas canções escritas em português ("Tardei, tardei, tardei, mas cheguei enfim..."), mas o mesmo se podia aplicar a "Irene" ("Saudade, eu te matei de fome..."). "Maná" é samba para os nossos ouvidos e "Hourglass" é Amarante a brincar à pop de laivos electrónicos. Resumindo, é um álbum do caraças.
4. "Here and Nowhere Else" - Cloud Nothings
É um álbum de porrada. Ponto. Sim, já não é o punk do antigamente, aqui e ali adocicado com toques pop, mas não deixa de ser um álbum de porrada. O anterior "Attack on Memory" já o ameaçava ser, mas é com este que Dyla Baldi concretiza o que andava à procura a já algum tempo. "I'm Not Part of Me" é a melhor canção sobre uma relação mal acabada de sempre, para ser cantada a plenos pulmões e aos encontrões a outros, "Psychic Trauma" é curta e grossa, começando lenta, para depois fazer dos 0-100 em 3 segundos, e não mais tirar o pé do acelerador, "Pattern Walks" tem uma linha de baixo como à muito não se via, e um anti-refrão pegadiço ("Pattern walks, pattern walks, pattern walks in the moon tonight...", um baterista incansável durante todo o álbum. Enfim, a juventude a cantar a desgraça do seu dia a dia. Porrada da boa, digamos.
5. "Held in Splendour" - Quilt
Quem são os Quilt? Nem eu sei ainda muito bem. Têm dois álbuns, são americanos, e conheci-os através do Ípsilon. E a vocalista é tão bonita que me faz ser tendencioso. E são a minha nova banda favorita, É um álbum com sons de antigamente, cheio de electricidade, folk psicadélica, rock. Um docinho, digamos. Canções cheias de brilho, reluzentes, bonitas. A voz melodiosa da vocalista, guitarradas a acelerar por aí a fora, bateria a marcar o ritmo como um relógio. Um disco dos 60's nos 10's. E são tantas e boas canções, que destaco a "Tie Up the Tides", a lembrar-nos que somos todos crianças, e que devemos viver o nosso próprio tempo ("Ohh Child, you keep living that way, in your own time"), "A Mirror", que me faz querer saber tocar guitarra, "Saturday Bride", com avanços e recuos, e o pezinho sempre a bater, e tantas outras. Vemo-nos por aí, sim, dudes?
Mais bandas mereciam aqui um destaque, como a Angel Olsen, Future Islands, B Fachada, Sun Kill Moon, Real Estate, Capicua, Sensible Soccers, Batida, Parquet Courts, entre muitos outros. Um obrigado para eles.
Canções que entram directamente para a galeria de "As melhores de sempre"
Your Love is Killing Me - Sharon Van Etten
Burning - The War on Drugs
Future Islands - Spirit
Tie Up the Tides - Quilt
I'm Not Part of Me - Cloud Nothings
Springful - Adult Jazz
Queen - Perfume Genius
Black and White - Parquet Courts
Mr. Noah - Panda Bear
Tardei - Rodrigo Amarante
Real Estate - Talking Backwards
Angel Olsen - Hi-Five
Cornerstone - Benjamin Clementine
Concertos e momentos que até podem não ter sido os melhores de sempre, mas que entram para a minha galeria de memórias
Primavera Sound no Porto, ou como um festival pode ser um dos meus pontos altos do ano. De ano para ano fica cada vez melhor, a envolvente dá gosto só por si, o ruído publicitário é quase nulo (que festival tem por brindes um saco que é uma toalha de picnic, ou dá algodão doce?) e os momentos épicos são mais que muitos - conhecer o Rodrigo Amarante antes deste me embalar os ouvidos, quase verter uma lágrima ao ver os Neutral Milk Hotel, dançar com a lenda viva que é Caetano Veloso, os braços no ar e os "woo woo's" que o hip-hop do salvador Kendrick Lamar pediu, acompanhar as guitarradas do "Marquee Moon" dos Television com tiroliroliros, como se 2014 fosse 1977, desbundar desenfreadamente com os Pond e a Courtney Barnett, o ataque sonoro aos meus ouvidos de "Souvlaki Space Station" dos Slowdive (sim! os Slowdive!), a dança em Darkside, cantar como se fosse o Matt Berninger do principio ao fim ao som dos National, a "Breadcrumb Trail" dos Slint (sim! os Slint!) acompanhada só da cintura para cima, a porrada em Cloud Nothings a fechar 3 dias fantásticos como só o Primavera e o Porto nos sabem dar. Sim, o Primavera é o melhor festival do mundo. Em 2015, no que depender de nós, lá estaremos.
Rodrigo Amarante x2, no Primavera do Porto e no Palácio Sinel de Cordes, em Lisboa. Podiam ter sido dois concertos iguais, mas foram totalmente diferentes. O de Lisboa foi acústico, e foi como tê-lo no quintal a cantar para mim. A "Um Milhão" ainda hoje me está no ouvido. Foi um dos melhores concertos a que fui de sempre, com um público exemplar, e um artista que é um artista à antiga. Sem artifícios, apenas honestidade. Obrigado, ZdB, pela ocasião e o sítio especial.
Arcade Fire no Rock in Rio. Sim, foi no Rock in Rio e o som foi péssimo, ao ponto de quase o estragar. Mas isso não os impediu de darem uma lição de espectáculo, sem para isso necessitarem de ter coreografias, gajas semi-nuas ou vídeos chocantes. Basta-lhes as canções maiores que a vida, os coros em uníssono, a voz da Regine, os múltiplos instrumentos. A "Wake Up" a fechar. Sim, estava feliz naquele dia.
Vodafone Mexefest pela primeira vez. Estar frente a frente com a Sharon, a sua voz melodiosa, a sua presença encantadora, o seu humor, uma sequência de músicas brutal com "Give Out" pelo meio. Os Cloud Nothings pela segunda vez, sendo a sessão de porrada maior do que no Primavera, o gritar como se não houvesse amanhã, e com o bónus de ter a "No Future/No Past". O concerto de Capicua, a mostrar como as mulheres também podem cantar hip-hop sem terem de andar todas nuas, e como conseguem de ter mais conteúdo que a maior parte dos homens. Os King Gizzard & The Lizard Wizard em sessão xamã, a encantarem-nos enquanto levamos empurrões de todo o lado, ou como não é preciso ácidos para triparmos. A editora Príncipe a martelar-nos as ancas. As salas fantásticas que não fazia ideia que existiam, e que só por si merecem uma visita (Sociedade de Geografia de Lisboa, Palácio Foz, Casa do Alentejo, Ateneu de Lisboa). A repetir.
Os Sobreviventes, no Lux, pela mão do B Fachada, Francisca Cortesão e João Correia, a celebrar, a 25 de Abril de 2014, 40 anos de 25 de Abril. Foi como se eu lá também estivesse em 1974.
Cass McCombs na ZdB, num concerto surpresa dias depois de ter tocado no Alive. Foram 2h30 de génio musical, a percorrer os seus inúmeros álbuns, com direito a participação especial de Norberto Lobo, a "Harmonia" sussurrada para uma sala cheia, a improvisos vários, com um calor do caraças. Um concerto porque se quer tocar e não porque se tem de tocar. Foi como se tivéssemos nos anos 90, num concerto de banda de garagem.
Notícias em 2014 que terão consequências em 2015
Não há como não destacar - o Super Bock Super Rock vai deixar de ser no Meco. Quem, como eu, prometeu que nunca mais lá ia enquanto fosse naquele sítio, apesar de ter sido sempre muito tentado (The Shins, Cat Power, Lana del Rey, The Killers, Tame Impala...) só pode ser boa notícia. Vamos ver se a emenda não é pior que o soneto, mas para já é uma boa notícia. Para os meus gostos, não começam por aí além (pois acho que não será o melhor cartão de visita Florence&The Machine ser apresentada como cabeça-de-cartaz, e eu até gosto moderadamente dela, mas...), mas já ganharam pontos do meu lado.
O Alive a anunciar Jesus and Mary Chain a tocarem na íntegra o "Psychocandy", ou como me obrigarem a lá ir, mesmo que o resto não interesse ao menino Jesus. O resto continua meio esquisito, como o Alive nos habituou nos últimos tempos. Ora anunciam Future Islands, ora Sheppard (quem?). Ora chutam Dead Combo, ora Kodaline (quem?). Mas é esperar para ver. Se conseguirem um palco secundário como o que apresentaram num dos dias deste ano (The War on Drugs, Cass McCombs, Chet Faker, Paus, Nicolas Jaar...), já não é mau.
Sobre o Primavera falaremos mais tarde, mas para já, com apenas dois nomes, e já nem posso esperar.
As Sleater-Kinney a lançarem novo álbum 10 anos depois do último e brilhante "The Woods". E aposto que nos fazem uma visita. José Gonzalez a fazer o mesmo (e este vem mesmo cá em Fevereiro). The XX. Radiohead. Belle&Sebastian. Bons motivos não devem faltar para ouvir música.
No que toca à música, todos os anos deixam saudades. 2014 não é excepção. Foi ano de boa colheita, não foi?
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